13 de ago de 2017

Mesa

-Iiih, tá cheio.

- Espera aqui que eu vou falar com o maître...

- Tá bom.

- Ó amigo. 

- Pois não?

- Tem aí uma mesinha pra dois?

- No momento, não. Mas se o senhor quiser esperar...

- Quanto tempo?

- Dois minutos. Uma mesa já pediu o cafezinho.

- Não, é o seguinte. Minha namorada queria muito vir a este restaurante e eu não posso fazer feio com ela, entende? Não dá pra dar um jeitinho?

- Infelizmente, não. Mas se o senhor puder esperar três minutos...

- Você disse dois.

- A mesa já vai ficar vaga, cavalheiro.

- Não dá pra dar uma apressadinha? Olha, você não vai se arrepender... Tome aqui...

- Não, muito obrigado.

- Grande. Encontrei um brasileiro que não aceita propina! Ainda há esperança. Estamos salvos. Chama o Janot!

- É só ter um pouco de paciência, cavalheiro. Um minuto.

- Mas esse cafezinho não acaba nunca!

- Eles podem ter pedido um licor depois do café.

- Um licor?! Quem é que toma licor, hoje em dia? Assim já é demais. Eu vou tirar eles dessa mesa a tapa.

- Por favor...

- A tapa! Qual é a mesa?

- Acalme-se.

- Eu estou calmo. Me mostre qual é a mesa.

- Por favor, cavalheiro, solte as minhas lapelas.

- Qual é a mesa?

- É aquela ali.

- E estão mesmo tomando licor. Isso é o fim. A gente já tem medo de sair à noite por causa dos assaltos e quando sai, dá nisso. Já viram que eu quero a mesa deles e estão fazendo de propósito. E você é cúmplice, patife.

- Controle-se.

- Escuta aqui. Você obviamente não me reconheceu. Ator. Novela das nove. Olha o perfil. Uma recomendação minha e toda a Rede Globo baixa aqui.

- Sim, mas...

- Ou então, se você preferir, eu posso espalhar que esse restaurante é uma porcaria. Que eu encontrei uma barata no tiramisú.

- Por favor, cavalheiro.

- Uma barata no tiramisú! A saúde pública vem aqui na mesma hora. É isso que você quer?

- Não, cavalheiro, eu...

- Está bem. Eu não queria fazer isso, mas sou forçado pela sua má vontade em nos arranjar uma mesa. É contra os meus princípios, mas vou lhe dar um carteiraço. Eu sou da Polícia Federal. Serviço Secreto. Olha aqui minha identidade.

- Mas esta é sua carteira de motorista.

- E você acha que eu ia andar com uma carteira do Serviço Secreto no bolso? A carteira de motorista faz parte do disfarce. E meu nome também não é esse. Arranje-nos uma mesa ou prepare-se para ter sérios problemas com a polícia. 

- Olha lá, eles estão pagando a conta. Eles já vão sair. 

- Eu sabia que meus argumentos acabariam por convencê-lo, amigo. Obrigadão!

Luís Fernando Veríssimo

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