28 de ago de 2017

Medo de Lula

A avassaladora campanha do ex-presidente pelo Nordeste explica o último objetivo do golpe

De cima para baixo, em Feira de Santana, Maceió, Cruz das Almas e Itabaiana. As fotos provam a liderança de Lula e ferocidade insana da casa-grande, incompativel com qualquer anseio de democracia
Fotos Ricardo Stuckert
As imagens deste editorial provam a ferocidade, a prepotência, a irresponsabilidade da casa-grande e também o extraordinário poder de Lula, a ponto de ter certeza de que partisse ele para o périplo dos dias de hoje logo após a posse de Dilma Rousseff, quando já era possível perceber os intuitos da quadrilha golpista, sequer haveria o impeachment.

A eloquência das fotos é tão indiscutível quanto a liderança de Lula. Entre as frases dos discursos do ex-presidente, pinço: “Não sei quanto tempo tenho de vida, não sei se vou poder concorrer à Presidência, mas, se concorrer, vai ser para ganhar”. Verdade factual, a expor o objetivo final do golpe de 2016: evitar que o único líder popular brasileiro volte a governar com a força do voto.


A caravana lulista já passou por Bahia, Sergipe e Alagoas entre 17 e 23 de agosto. O roteiro estende-se até 4 de setembro e segue por Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão. Esperem por multidões idênticas. Já se falou do Nordeste como de um fundão do Brasil. É, no entanto, a região mais politizada do País, onde uma larga porção do seu povo sabe de como, e profundamente, foi espezinhada pelos governantes e pelos oligarcas.

Os quatrocentões paulistas tinham pelos nordestinos inarredável desprezo. Enxergavam nas levas de migrantes chegados na boleia de um caminhão uma ameaça ao seu progresso e sossego. São Paulo e muitas cidades do interior paulista decaem, mas a ameaça, cada vez mais espantosa, é a miséria, que a casa-grande cuida de manter. Não é por acaso que a terra bandeirante é a mais reacionária de toda a federação.


Alguns fatos são altamente representativos da situação de atraso político, e mesmo ideológico, a começar pela oligarquia tucana. Até hoje o dia 9 de julho é feriado no estado, em memória de uma malograda tentativa separatista, e na capital não há um único logradouro público que leve o nome de Getúlio, enquanto há avenidas, ruas, viadutos para a imorredoura lembrança de imponentes figuras da ditadura, sem exclusão de torturadores e alcaguetes.

Resistência à avassaladora campanha do ex-presidente houve na Bahia, onde um juiz, digno representante da Têmis nativa, Evandro Reimão dos Reis, a pedido do vereador Alexandre Aleluia, filho de pai deputado demista, proibiu Lula de receber o título de doutor honoris causa da Universidade Federal do Recôncavo, que ele criou quando presidente. Conseguiram excitar o povo, que acorreu em massa à porta da universidade em Cruz das Almas.


CartaCapital sabe perfeitamente das razões do medo a Lula. Entre elas, por exemplo, em referência a assuntos da semana: o governo de Lula jamais privatizaria a Eletrobras, a reacender fatais atitudes da Presidência de FHC, a bem de amigões endinheirados atentos aos movimentos das bolsas e de compradores estrangeiros para desgraça da própria segurança nacional. Tampouco permitiria a presença de soldados americanos nas manobras militares marcadas para novembro próximo na fronteira amazônica.

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