17 de ago de 2017

Lutar contra a fascistização da vida

A miséria da política
Lembro como se fosse hoje aquela passeata, em Florianópolis, em 20 de junho de 2013. Era o auge dos protestos contra a corrupção - início da batalha contra o governo petista - e a capital catarinense viu saírem às ruas pessoas que sempre jogaram pedra nos manifestantes tradicionais. O protesto juntou mais de 30 mil almas, coisa nunca vista. A RBS, rede catarinense filiada a Globo, transmitia ao vivo, e saudava a iniciativa. Estranhamente não chamava ninguém de “baderneiro”, nem se ouvia o estridente mantra da garantia do “ir e vir”. Naqueles dias, a classe dominante dava sua bênção para a ocupação das ruas, a Globo chamava ao civismo e as pessoas acorreram aos borbotões.

Eu lá estava com os companheiros de sempre. E, aturdida, via as pessoas manifestarem seu ódio contra os militantes de partidos políticos e movimentos sociais. Ou seja, nós. A passeata virou uma batalha, na qual jovens vestindo camiseta – doada por partidos de direita – com inscrições contra a corrupção berravam: “sem partido, sem partido”, e enfrentavam os militantes que se agrupavam com suas bandeiras. Exigiam, de forma violenta, que fossem baixadas as bandeiras partidárias e que a passeata seguisse como uma gosma informe. Uma falsa gosma, pois como disse, os partidos de direita estavam ali, distribuindo camisetas e insuflando a massa contra os partidários da esquerda. Apenas não carregavam bandeiras, porque nunca o fizeram. Eles agem nas sombras.

Aproximei-me de umas jovens “encamisetadas”, que gritavam alucinadas, com olhos em brasa, contra as bandeiras de partidos de esquerda. E perguntei:

- Por que vocês são contra os partidos?

- Hã? É porque é sem partido, ora!

- Sim, mas por quê?

- É sem partido e pronto. Não fazemos política. Tu tem partido? – inquiriram e me encararam, agressivamente.

Naquele dia, uma massa furiosa nos atacou e obrigou que os grupos embandeirados se descolassem da passeata, seguindo na frente. Escancarava-se a luta de classes e o ovo do fascismo que tomou conta do país estava posto.

Lembro que comentei com vários companheiros sobre o que estava começando ali. No dizer de Adorno, o fascismo é um vírus que existe latente, em cada um. Diz ele que dadas as condições, ele brota, forte, e se espalha incontrolavelmente. Eu via aquilo na passeata. Um ódio irracional na massa, mas extremamente racionalizado nas direções políticas da direita. Um processo de construção de um consenso que foi crescendo, se consolidando e acabou no impedimento da presidenta Dilma. Jogada de mestre.

As atitudes fascistas também se consolidaram e estão a todo vapor. Uma delas é a proposta da “Escola sem Partido”, exatamente igual ao esquema das passeatas de junho. Sem partido de esquerda, porque os de direita poderão agir. Não querem que se fale de Marx, mas poderão incensar Hayeck. Então, como assim, sem partido? Mas, a massa desinformada não captura essa sutileza. Para ela, o mal é o socialismo, o comunismo, o velho discurso de volta outra vez.

Voltaremos a viver os terrores do fascismo cotidiano, com os nossos vizinhos denunciando-nos como comunistas, ou então colegas de trabalho, resolvendo questões pessoais com denúncias anônimas sobre nossas atividades de “doutrinação”. E a justiça, que é da classe dominante, agirá, confiscando nossos computadores e acusando de “comunistas”, como se sonhar e lutar por um mundo melhor fosse crime.

Pois essas são coisas que já estão acontecendo em todo o território nacional. Aqui em Santa Catarina vivemos o drama da professora Marlene de Fáveri, acusada por uma aluna de fazer proselitismo de gênero, seja lá o que isso seja.

E ontem na cidade de Abelardo Luz, no oeste do estado, dois trabalhadores do Instituto Federal de Educação, Ricardo Velho e Maicon Fontanive, foram denunciados, sabe-se lá se por um colega ou quem, de serem agentes do Movimento Sem-Terra dentro da escola. Seus computadores e celulares foram apreendidos pela polícia federal, com o beneplácito da justiça local, é claro. Eles foram afastados de suas funções públicas e foi quebrado o sigilo de correspondência eletrônica feita com a reitora Sônia Regina de Souza Fernandes. Ora, o MST é uma organização clandestina, por acaso? Não foi justamente esse movimento social de massa o grande responsável para que fosse criada a escola federal naquela cidade? Não foi a luta dos trabalhadores sem-terra que permitiu que centenas de jovens pudessem ter acesso ao ensino técnico de qualidade na região? Que crime pode haver, então, as ligações que por ventura alguns trabalhadores da escola tenham com o movimento? Pois, então, o que é isso? O acirramento da luta de classes.

Eu vivi a ditadura militar, como criança e adolescente, e lembro muito bem o terror que viviam as famílias que tinham qualquer posição crítica ao regime. Os vizinhos vigiavam e acusavam anonimamente, muitas vezes se aproveitando da denúncia de “comunista” para vinganças pessoais. Era um tempo de vigilância e de medo. Não se podia pensar. Só dizer sim, sim, sim, ao regime. Nas escolas, tínhamos educação moral e cívica, com a doutrina do terror. Isso podia, já falar de algum autor crítico, jamais. Era doutrinação. E é disso que se trata a Escola sem Partido.

Mas, no covil dos fascistas, são os comunistas, os críticos, os diferentes, e qualquer outro inimigo, mesmo pessoal, os que devem ser perseguidos. Nós já passamos por isso. E não foi bom. Nem para as pessoas, nem para o país. Apenas o pequeno grupo que comanda é que se dá bem, enquanto a vida da maioria fica gris. Há que botar freio a essa fascistização da vida. Ou ela se espalhará como rastilho de pólvora, no fundamentalismo do terror. É hora de juntar forças, mulheres, negros, índios, trans, trabalhadores formais, informais, homossexuais, enfim, todos os oprimidos pelo capital e pelo patriarcado. Essa luta é de todos nós.

Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes

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