29 de ago de 2017

Huck acha que “o chip é o Senhor e ele nos salvará”


Atenção para o “programa” do candidato disponível a Presidente da República Luciano Huck, em artigo na Folha.:

Sim, os carros serão autônomos muito em breve. Sim, o córtex humano estará conectado à nuvem. Sim, vamos poder fazer download de nossa memória. Sim, vamos usar minérios vindos do espaço. Sim, você poderá escanear seu corpo em casa, gerando um diagnóstico imediato. Sim, a inteligência artificial é uma realidade e irá engolir o mundo.”

Severino, D. Sebastiana, Mano Tico, garoto de rua, formado sem emprego, povo em geral, antenção, seus sofrimentos são transitórios.

Logo chegarão os aplicativos que os tirarão da dor, do sofrimento, da  carência, da brutalidade.

Não tenho nenhuma dúvida de que a tecnologia e a ciência de ponta podem ser chaves mestras para destravar o país e nos tirar do atraso em inúmeras frentes, tornando nossas estruturas mais ágeis, eficientes, modernas e, principalmente, transparentes.

Eu também não tenho dúvida de que a ciência e a tecnologia (a ordem é esta) ajudam a aliviar o sofrimento humano. Deveria ser – embora tantas vezes não tenha sido – a sua finalidade, aliás.

Mas o próprio Huck, ao narrar seu passeio pelo Vale do Silício, para conhecer a “criatividade diruptiva (sic, disruptiva) com impacto exponencial.”, diz que seus colegas de excursão “estavam lá em busca de oportunidades de empreender ou de ressignificar seus negócios.”

Tradução: ganhar dinheiro.

A tal disruptividade, que Huck possivelmente  conheceu pelo livro-bíblia dos “startupeiros” – The Innovator’s Dilemma, do professor da Escola de Negócios de Harvard Clayton Christensen é, basicamente isso, como pequenos podem lucrar com inovações e grandes são pouco adequados a isso.

Como Luciano Huck tem o nível de voo intelectual de, digamos, um Luciano Huck, talvez não saiba que, no campo das políticas públicas, “disruptura” costuma significar um desastre, porque, ao contrário do que ocorre nos negócios, você não pode conviver com a ideia de que o risco de fracassar – destino da maioria ou de boa parte das “grandes ideias” de negócios – a não ser para quem vendeu o “gadget” inovador.

Na revista New Republic, a editora Judith Shulevitz, para usar uma linguagem que Huck pode entender, “lacra”:

 Christensen sugere que as empresas contornam sua própria inércia criando spin-offs para testar inovações disruptivas e ver quais delas se mantêm. Essa idéia, uma boa para corporações, não é tão boa para os governos. Spin-off nas funções públicas significa na prática é privatizá-las, ou pelo menos boa parte delas. Os beneficiários disto geralmente não são contribuintes, mas as empresas que fornecem tecnologias disruptivas.

Pretender transferir o microcosmo de nichos de negócios privados – vá ver se no hardcore do capitalismo eles olham isso com o encantamento de bocós – dá ideia do grau de estupidez de gente que acha que gestão pública é o mesmo que um circo de “novidades”. A tal turma da “jestão”.

Desculpe, Huck, mas é por isso que o Chacrinha dá de dez em você. Só oferecia bacalhau, não era candidato a nada, só se meteu na política para defender a volta das eleições diretas e o “relojão” que usava era aquele de cartolina, pendurado no pescoço, não um Rolex.

Para aparecer, funcionava melhor.

Fernando Brito
No Tijolaço

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