30 de ago de 2017

Filme sobre a Operação Lava Jato tropeça em clichês e exageros

Marcelo Serrado (ao centro) interpreta juiz inspirado em Sérgio Moro em 'A Lei É para Todos'
POLÍCIA FEDERAL - A LEI É PARA TODOS (ruim)
DIREÇÃO Marcelo Antunez
PRODUÇÃO Brasil, 2017, 12 anos
ELENCO Antonio Calloni, Flávia Alessandra, João Baldasserini, Marcelo Serrado, Ary Fontoura
QUANDO estreia em 7/9

Ninguém esperava uma versão nacional de "Todos os Homens do Presidente". Mesmo assim, "Polícia Federal - A Lei é Para Todos" fica devendo, e muito, para uma produção que se propõe a recriar a maior operação anticorrupção do país.

Com orçamento milionário e elenco de globais e ex-globais, o filme exagera no tom de exaltação da Operação Lava Jato.

O resultado é uma trama maniqueísta, sem nuances, que, em vários momentos, se assemelha a uma peça de propaganda.

Depois dos créditos iniciais, uma citação de Ruy Barbosa dá uma ideia do que vem a seguir: "De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto".

O roteiro não tem vergonha de nada: retrata investigadores como heróis quase infalíveis e recorre à caricatura para barrar qualquer empatia com os investigados.

A produção assume um partido desde o título: o partido da polícia. A ação é comandada por um trio de delegados determinados a prender políticos corruptos e passar o país a limpo.

O protagonismo dos homens de preto é tanto que os procuradores da força-tarefa e o juiz Sergio Moro, representado pelo galã Marcelo Serrado, ficam relegados a papéis secundários.

O filme adota tratamento desigual até na apresentação dos personagens.

Políticos e empreiteiros aparecem com nomes reais, como Lula e Marcelo Odebrecht. Os investigadores são protegidos por pseudônimos, embora alguns pareçam clones dos originais.

Os diálogos patinam em clichês como "a corrupção chegou aqui com as primeiras caravelas" e "o sistema é feito para não funcionar".

Os trechos que se salvam são os que contam como uma apuração corriqueira, com foco na ação de um doleiro, abriu caminho para a descoberta de um gigantesco esquema de corrupção na Petrobras.

No entanto até nisso a produção tropeça na inverossimilhança. Numa passagem, policiais remexem papéis queimados numa churrasqueira e descobrem contas secretas na Suíça.

Em outra, um delegado acorda no momento em que a presidente Dilma Rousseff anuncia, na TV, a nomeação de Lula para a Casa Civil.

Como o fato ocorreu às 16h de uma quarta-feira, fica a suspeita de que alguém dormiu demais: o personagem ou o roteirista.

O empenho em defender a Lava Jato de qualquer crítica deve empolgar os foliões do Morobloco, mas pode afastar um público mais moderado das salas de exibição.

Num momento em que a Lava Jato cerca o governo Temer e atinge políticos de todos os grandes partidos, a ênfase nas acusações ao PT passa a impressão de que o filme resolveu contar apenas uma parte da história.

Os produtores prometem ampliar o leque de vilões numa continuação. O problema será convencer os espectadores do primeiro episódio a retornarem ao cinema.



Bernardo Mello Franco
No fAlha







Sergio Moro e a vida como ela é

A Lava Jato acaba por se parecer com uma daquelas novelas para as quais ainda não está pronta a atração que a substituirá e, assim, o roteirista introduz novos personagens e passa a criar reviravoltas na história.

a vida como ela é

O roteiro original

Já mostramos há algum tempo que Lula foi condenado no Caso do Tríplex com base em uma reportagem do jornal O Globo e em uma declaração de Leo Pinheiro – ex-presidente da OAS e condenado na Lava Jato – dando aval ao que a matéria do jornal dizia. O tríplex era de Lula. Nenhuma prova foi apresentada, nem pela reportagem nem por Leo Pinheiro.

Leo Pinheiro inocentara Lula anteriormente. Mas sua delação premiada, onde acusava José Serra e Aécio Neves, tinha sido recusada pelo PGR e, agora, Leo via pela frente muitos anos de prisão. Mudou, então, de versão e passou a acusar Lula. Sua pena foi reduzida pelo juiz Moro, em reconhecimento por sua colaboração à condenação do ex-presidente.

Final feliz.

Na tela – “the end” e créditos – só que não.

A vida como ela é

Então, entra em cena o tal roteirista chamado acaso.

E com ele o novo personagem.

Rodrigo Tacla Duran é um advogado condenado por Moro por envolvimento com a Odebrecht. Duran que tem dupla cidadania fugiu para a Espanha e de lá disparou acusações que vão desde a falsificação de informações nas delações da Odebrecht até oferecimento de facilidades junto à Lava Jato por parte do advogado Carlos Zucolotto Junior.

Zucolotto, foi sócio da esposa de Moro em um escritório de advocacia e é padrinho de casamento de Moro. Tudo revelado pelo jornal Folha de São Paulo.

Assim, Moro viu-se na mesma situação de Lula. Uma acusação baseada apenas em uma matéria de jornal contendo declarações sem evidências que a comprovem.

Ato contínuo, a defesa de Lula pediu a Moro que incluísse Duran como testemunha. Moro negou com a seguinte declaração:

“A palavra de pessoa envolvida, em cognição sumária, em graves crimes e desacompanhada de quaisquer provas de corroboração não é digna de crédito, como tem reiteradamente decidido este Juízo e as demais Cortes de Justiça, ainda que possa receber momentâneo crédito por matérias jornalísticas descuidadas”.

Essa declaração deveria constar da não-proferida decisão de Moro inocentando Lula. Já que, para condená-lo, tudo que Moro usou foram igualmente “matérias jornalísticas descuidadas” e “a palavra de pessoa envolvida em graves crimes e desacompanhada de quaisquer provas de corroboração”.

Nelson Rodrigues não escreveria melhor trama e melhor final. A vida como ela é.

Moro gosta de ficção

Pouco antes de negar a solicitação da defesa de Lula, Moro compareceu à pré-estreia do filme ”Polícia Federal – a lei é para todos”. Fosse uma ironia e seria um grande título.

O filme conta, pela ótica dos policiais, a história da perseguição da Lava-Jato ao presidente Lula. Um filme de “mocinhos e bandido”. Seria diversão barata, não fosse o orçamento e facilidades de que dispôs.

16 milhões de reais na elaboração do filme. Acesso a informações e às dependências – inclusive à carceragem – da Polícia Federa de Curitiba.

E isso é só o começo.

2.000 convidados para a pré-estreia – 8 salas de cinema reservadas em um shopping center da capital do Paraná. Jornalistas convidados com passagem e hospedagem pagas.

Trailer Oficial divulgado na internet nos sites dos principais jornais e revista do pais. Na Folha, capa de página inteira no caderno de cultura do jornal e mais análise em página interna.

Avaliação ruim.

Exceto a avaliação ruim, tudo mais tem um custo. Na imprensa nacional, não há almoço grátis.

Quem banca? Quem sabe? Os patrocinadores estão incógnitos. São “empresários”.

Carlinhos Cachoeira – banqueiro do jogo-do-bico – também era chamado de empresário. Até ser condenado pela Justiça.

Os patrocinadores – esse é o principal atrativo do filme – mas a imprensa não se interessou por ele.

Nem Moro se preocupou em colar a sua imagem a um produto que ninguém sabe quem está pagando.

Se bem que, após aquela foto com Aécio, liberou geral.

Roteiro original adaptado

A única coisa que parece incomodar Moro é a lembrança do seu pedido de desculpas ao STF pela divulgação, em março de 2016, dos grampos de Lula e Dilma:

“Diante da controvérsia decorrente do levantamento do sigilo e compreendo que o entendimento então adotado possa ser considerado incorreto, ou mesmo sendo correto, possa ter trazido polêmicas e constrangimentos desnecessários. Jamais foi a intenção desse julgador provocar tais efeitos e, por eles, solicito desde logo respeitosas escusas a este Egrégio Supremo”.

Dói tanto que Moro resolveu reescrever a história e, em entrevista ao jornal New York Times, desescusar-se:

 “I think that democracy wins when, shall we say, people learn what thier leaders do in the shadows”

Dispensável a tradução – as sombras da alma Freud e Nelson Rodrigues explicam.

PS1: para quem quiser recordar a acolhida que a Folha de São Paulo deu ao filme, de 2010, “Lula, o filho do Brasil”, há uma pequena notinha aqui.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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