16 de ago de 2017

Dá pra confiar em Ciro Gomes?


Ex-governador do Ceará diz que só ele sabe “o tamanho da merda” e jura que não é arrogante. Quem quiser que acredite

Enquanto o governicho Temer se arrasta melancolicamente, o melhor a fazer é olhar para a frente e pensar nas eleições gerais de 2018. Acredito que se Lula for candidato, vai dar um passeio. Ele pode ter perdido prestígio com parte da classe média, mas seu balaio de votos com o povão certamente está em alta. Vão contar a favor os investimentos sociais durante seus dois mandatos e também a geração de renda e emprego no mesmo período. Por mais que a memória do brasileiro seja curta, há um abismo entre as reformas impopulares de Temer e os dias de fartura de Luiz Inácio.

Mas em quem votar se Lula ficar de fora? Essa é a grande questão. De minha parte, prefiro aguardar os fatos, mesmo porque vejo as peças no Judiciário se movimentando a favor de Lula. Porém, há muita gente de esquerda pondo o carro na frente dos bois. Alguns já falam que vão votar no ex-governador Ciro Gomes, que seria o melhor nome da oposição. Na verdade, Ciro não precisa de elogios. O que não lhe falta é amor próprio. “Essa eleição está para mim. Parece jactância, mas não é”, disse ele na “Sala do Zé”. Outra frase ao seu estilo agressivo: “Só eu sei o tamanho da merda que vem por aí. E não é pretensão minha”.

Ciro afirma que não mudou nada perto dos 60 anos. De fato, fala pelos cotovelos, não mede as palavras e comete exageros. Em seu longo perfil na Wikipedia, consta que ele é advogado, professor universitário, escritor e político. Como assim escritor? Tem três livros publicados, sendo um em parceria com Mangabeira Unger, o que lhe parece suficiente para se considerar um escritor. Ciro é vaidoso mesmo. Bacharel em Direito, sim, mas quando mesmo exerceu a advocacia? Na entrevista de quinta-feira, Ciro afirmou que só ele diz que “o Brasil está se desindustrializando”. De onde tirou isso? Será que não sabe que, em 2007, o economista Julio Gomes de Almeida perdeu seu cargo na Fazenda exatamente por denunciar a desindustrialização provocada pelo rigor da política monetária?

Ministro da Fazenda por quatro meses e com breve passagem por Harvard (para assumir ares de acadêmico, deixou crescer a barba), Ciro garante que tem resposta para todos os problemas da economia brasileira. “Vou fazer uma ampla reforma fiscal, tributária e previdenciária.” Pode até ser. Mas fico pensando no encontro que tive com o então governador do Ceará em 1991, quando eu trabalhava na Editoria de Política do “Jornal do Brasil”. O experiente Marcelo Pontes editava o “Informe JB” e conhecia bem Egydio Serpa, assessor de imprensa de Ciro. Convidou-me para um bate-papo com os dois num restaurante do Leblon. Não perdi a chance de conhecer o jovem político. Mas Ciro só falou abobrinhas e a todo momento dizia que estava aguardando o humorista Tom Cavalcante, então estrela da “Escolinha do Professor Raimundo” com o personagem “Canabrava”. Só ficou feliz quando Tom, seu conterrâneo, chegou e passou a contar piadas e a imitar a voz de vários políticos, entre eles Lula e Brizola. Ciro ria de se dobrar e pedia bis.

Que me perdoem os que decidiram votar em Ciro. Fiquei decepcionado. Entrevistei o ex-governador do Ceará outras vezes, assim que assumiu a Fazenda e depois na Câmara, mas não consigo levar ele a sério. Quando penso em Ciro Gomes, penso nas piadas de Tom Cavalcante.

Octávio Costa

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