20 de ago de 2017

Amor

Cinco numa mesa de bar, comparando seus smartphones. Um diz:

– O meu não só mostra quem está chamando como avisa se for um chato.

– O meu – diz outro – acessa a internet, dá palpites para jogar na Sena e o tempo que faz no Himalaia.

O terceiro:

– O meu é gravador, relógio, câmera fotográfica e granada de mão, e ainda faz logaritmos.

O quarto:

– O meu codifica, decodifica e toca o Hino Nacional.

Os outros três se intercalam:

– O meu imita passarinho e dá o diretor, os roteiristas e o elenco completo de 17 mil filmes.

– O meu dá a escalação de todas as seleções do mundo desde que inventaram o futebol e o resumo de todas as óperas.

– O meu é despertador, desfibrilador, além de mostrar imagens de Marte.

– E o meu? E o meu? – diz o quinto, que até então permanecera em silêncio.

– O seu o que faz?

– O meu – diz o quinto – me ama.

Na Transilvânia. (Da série Poesia Numa Hora Dessas?!)

Ele flana pelos corredores do castelo

como um par de olheiras sobre

patins

com a tinta escorrendo dos cabelos

a boca roxa, as mãos nos rins.

Às vezes para porque ouviu seu

nome:

“Drakuuul”, ao longe, “Drakuuul”

Mas é só o som do vento gelado

ou de um lobo desgarrado.

Pede “Virgens!” e dão risada

pede “Sangue!” e trazem laranjada.

Bolachas ou coisas vivas?

“Monsieur le Compte, suas

gengivas!”

Ele desliza pelos corredores

sonhando com pescoços latejantes

pensando em velhas conquistas

e em abrir o térreo para turistas.

“Drakuuul!”, longe, “Drakuuul!”

Mas é sempre só um lobo anônimo.

Ou, possivelmente, um lobo irônico.

De travesseiro. Aquela conversa de travesseiro.

– Quem é meu quindinzinho?

– Sou eu.

– Quem é minha roim-roim-roim?

– Sou eu.

Aí, ele inventa de dizer que jamais se separarão e que ela será, para ele, como aquele nervinho da carne que sempre fica preso entre os dentes.

E ela:

– Credo, Osmar, que mau gosto.

E sai da cama para nunca mais.

O amor também pode acabar por uma má escolha de metáforas.

Investigação. 

O inspetor que investigava a morte da trapezista checa tinha um cachimbo permanentemente no canto da boca, mas com o fornilho virado para baixo. Dizia que era para evitar a tentação de enchê-lo, pois estava proibido de fumar. Mas antes de começar a escrever meu conto tive que investigar e só então descobri que aquela parte do cachimbo se chama fornilho, o que passei a maior parte da minha vida sem saber.

Toda literatura, no fim, é autobiográfica.

Amigos. 

Calçada. Homem com cachorro. Cachorro fazendo cocô. Passa mulher e diz “Que nojo!”. Homem sai atrás de mulher para esclarecer: “Nós somos apenas amigos. Nós somos apenas amigos!”.

Luís Fernando Veríssimo

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