28 de ago de 2017

A redução no beijinho e seu maravilhoso impacto a longo prazo

São Paulo, na época, era uma província. Índios ainda dividiam espaço com pássaros. Sabiás, tiés, ipecós de um lado, mirunas e juremas do outro, igual Moema, só que sem o aeroporto do lado e as hamburguerias. Queria trabalhar? Que fosse pro Rio ou, pasme, pra Bahia, onde o tempo passava mais rápido que no resto do Brasil.

Foi um bandeirante recém-chegado, dizem que Raposo Tavares (o homem, não a rodovia), quem deu a ideia: "E se a gente passasse a dar um beijinho só?". Todos se entreolharam. O Raposo pirou.

"Os dois-beijinhos são uma instituição mundial", retrucou o bandeirante mais romântico. "Sim, mas imagina o tempo que a gente ia ganhar". Raposo botou na ponta do lápis, que na época ainda era uma pena: a cada beijinho dois segundos, a cada dia 30 beijos, a cada mês meia hora, ou seis horas por ano de produtividade extra. Em um século São Paulo estaria 600 horas à frente do resto do país.

"Não vai dar certo", disse um bandeirante mais cético. "O mundo inteiro dá dois beijinhos." Outro bandeirante teve que concordar. "A gente precisa fazer negócios com o resto do país. Um carioca, por exemplo, que chegar aqui vai dar um beijo no vácuo." 

"Essa é a melhor parte do plano" revelou Raposo, dando uma gargalhada. "Um carioca que chegar aqui vai ficar perdidinho. Imagina só. Vai beijar o vácuo igual uma galinha que cisca". Raposo deu um beijo no vácuo, e todos riram da semelhança com o pombo, ciscando sem rumo. "O carioca nunca vai se recuperar dessa humilhação, e isso vai nos dar vantagem em qualquer negociação." Todos aquiesceram. A ideia era boa, de fato.

"Mas e os mineiros?" disse um bandeirante mais desconfiado. "Eles vão imitar a gente, vão passar a um beijinho só.".

"Os mineiros, ah, os mineiros". Raposo também tinha pensado em algo. "Vou espalhar por lá os três-beijinhos." "Raposo, você é um gênio" disse um bandeirante publicitário. "O beijinho-único vai ser um puta case de sucesso."

E eles brindaram. "Ah, mais uma coisa", disse Raposo, confiante. "Tá vendo esse biscoito? A gente vai chamar de bolacha." "Por quê?", perguntaram. "Só de sacanagem."

E São Paulo disparou à frente do Brasil. E não há um só dia, desde então, em que um carioca, um baiano ou um pernambucano não tenha beijado o vácuo, feito um pombo desgovernado. Maldito Raposo.

Gregório Duvivier
No fAlha

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