6 de jul de 2017

Primeirões

Temos uma fatal tendência para o ineditismo. Exemplo pouco comentado, na época: a escolha do então deputado federal Aldo Rebelo para o Ministério da Defesa, em 2015. Governo Dilma. Não se discutia a capacidade de Rebelo, um político correto – dado a propostas controvertidas, como a proibição de estrangeirismos na linguagem do País, mas respeitado – para exercer o cargo. Mas Rebelo é do Partido Comunista do Brasil. Pela primeira vez na história das Américas, com exceção de Cuba, um comunista se tornava comandante das Forças Armadas de uma nação. É verdade que Rebelo só era o chefe no papel, no organograma do governo. Não houve oportunidade de provar sua ascendência sobre o comando real da força militar brasileira durante sua gestão. Não se teve notícia de rebeldia nos quartéis contra a escolha do ministro comunista. Talvez porque ninguém a levasse muito a sério. Era apenas mais uma brasileirice.

Agora, temos o primeiro presidente do Brasil a ser denunciado no exercício do cargo. Na sua denúncia, o procurador-geral da República acusa o presidente Temer de integrar uma quadrilha criminosa – nada menos do que isso. Outro ineditismo é o atual protagonismo da Suprema Corte Federal, como nunca se viu igual na história da República. O Supremo assume poderes dos quais não se desconfiava, e fraquezas também desconhecidas até agora. Cresce em relevância e importância, ao mesmo tempo que se discute se sua nova postura resistirá por muito tempo ao cinismo explícito de alguns dos seus integrantes, fascinados pelos refletores. Gilmar Mendes por exemplo.

Tudo é novo e desconcertante na terra da primeira vez. Pela primeira vez na nossa história, um juiz de primeira instância leva uma investigação mais longe do que de costume e descobre um manancial de corrupção e uma maneira antiga de fazer negócios sujos que também responde pelo nome de capitalismo de compadres brasileiro, ou toma-lá-dá-caísmo. Que já se sabia como funcionava, mas, pela primeira vez, teve suas entranhas expostas.

Há também quem diga que, pela primeira vez na nossa história, estão sendo usados métodos coercitivos de investigação que pouco têm a ver com a boa prática judicial. É realmente tudo muito novo.

Luís Fernando Veríssimo

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