10 de jul de 2017

Pedro Simon: ‘O perigo dessa situação são os salvadores da pátria. Eu tenho medo’

Depois que deixou Brasília, Senador se fixou no apartamento em que vive há quase 70 anos, no prédio
construído por sua família, em Porto Alegre
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Depois de 65 anos de vida política e de ficar em terceiro lugar na disputa para a reeleição no Senado, em 2014, Pedro Simon não está aposentado. Aos 87 anos, o novo projeto do ex-governador do Rio Grande do Sul, que foi senador por quatro mandatos, ministro da Agricultura, líder do governo Itamar Franco no Senado, são viagens pelo país, para falar com os jovens sobre a conjuntura política atual e o que fazer para mudá-la.

No ano passado, a sigla onde fez toda a carreira política – Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB – assumiu pela terceira vez, em 21 anos, a presidência da República, sem votos. Com o impeachment de Dilma Rousseff (PT), aceito por um peemebista na Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha), o então presidente do partido, Michel Temer, chegou ao Planalto. Cinco dias antes da histórica votação que aceitou o processo na Câmara, Simon disse em entrevista ao Jornal do Brasil que se Dilma caísse, o melhor seria Temer renunciar. Não aconteceu.

Em maio deste ano, depois do escândalo da divulgação de gravações entre o presidente e o empresário Joesley Batista, do grupo de investimentos J&F, dono da JBS, Simon voltou a falar em uma renúncia do colega de partido. Agora, já não fala mais. Apesar do discurso de que o Brasil vive um momento único com investigações como as da Operação Lava Jato, para o futuro imediato da cadeira da presidência, ele admite não saber mais o que pensar ou dizer.

O ex-senador recebeu o Sul21 no apartamento onde mora há quase 70 anos, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, no edifício que foi construído por sua família. O senador, a esposa e dois cachorros de estimação ocupam o terceiro andar, enquanto no térreo suas irmãs conduzem uma loja de vestidos. A casa fica ao lado da Igreja São Sebastião, onde é frequentador assíduo das missas. Na sala de estar, a mesa de centro guarda parte das 128 publicações que já assinou na vida. Uma das mais recentes, lançada pelo Senado Federal, tem como título O Papa Francisco, Marina Silva, os Black Blocs e a Petrobras.

Nesta entrevista, Simon fala sobre a conjuntura nacional, a situação de Michel Temer, o cenário político de 2018 e o que faria se ainda estivesse no Senado:

‘Nós hoje temos condições de mudar o Brasil. Só que tem pessoas de todos os
partidos se reunindo para fazer um baita de um acórdão’
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Sul21: Falando com a experiência de alguém que tem 65 anos de mandatos e vida política, como o senhor analisa a conjuntura política nacional neste momento?

Pedro Simon: Eu vivi várias crises, mas com toda a sinceridade eu digo que o momento que estamos vivendo é diferente de tudo o que já aconteceu. Falar em crise no Brasil, falar em golpe, falar em ditadura, falar em problemas sociais, é uma coisa que é quase rotina. A diferença do que estamos vivendo agora, de tudo o que já vivemos, é que pela primeira vez o Brasil está sendo passado a limpo. Isso nunca tinha acontecido. Derrubaram o Getúlio, diziam horrores, nunca apuraram nada. Veio 64, a ditadura derrubou e disse horrores do presidente Jango, ficaram 21 anos, 6 presidentes nomeados, não aconteceu nada. Nós, das ‘diretas, já’, derrubamos a ditadura, restabelecemos a democracia e estamos lá há 20 anos, mas não se apurou nada. Agora não. Agora as coisas estão acontecendo. Quando você ouviu falar que um general foi pra cadeia? Que um empresário foi pra cadeia? Que um senador foi pra cadeia? Um Ministro da Fazenda foi pra cadeia?

Alguns setores das maiores legendas, como PT, PSDB e PMDB, têm criticado a atuação do Judiciário e a condução da Operação Lava Jato. Como o senhor vê isso?

Estão criticando porque a Operação Lava Jato está apurando. Nunca vi político A, B ou C criticar os juízes do tribunal, porque eles nunca foram pra cadeia. Estão criticando porque agora as coisas estão sendo apuradas. Hoje, uma grande mudança que aconteceu no Brasil, por isso que essas coisas estão acontecendo, é que condenado em segunda instância vai para a cadeia. No Brasil, ao contrário do mundo inteiro, o cidadão é processado, Justiça condena, ele recorre, fica em liberdade e recorre pro Tribunal, vai pra Junta, fica em liberdade quatro vezes, seis vezes, três ou quatro anos, recorre sempre e está sendo solto. Hoje, condenado uma vez, recorre solto, condenado pela segunda vez, pode recorrer à vontade, vai pra cadeia. Nós hoje temos condições de mudar o Brasil. Só que tem pessoas de todos os partidos se reunindo para fazer um baita de um acórdão. Vamos perdoar todo mundo e não se fala mais nada. ‘Foi Caixa Dois, foi uma coisa sem querer, não tem importância’. O PMDB está liberado, o Lula está liberado, o Aécio está liberado, o presidente está liberado. Esse é o perigo que tem e é por isso que eu tenho andado pelo Brasil. Tenho falado com os jovens, dizendo: vocês têm que ir pra rua, vocês têm que acompanhar as coisas que estão acontecendo.

O senhor citou esse possível acordo entre os partidos, se fala que estariam articulando um manifesto em crítica à condução do Judiciário. O senhor acha que é possível um acordo entre PT, PMDB e PSDB em um momento como este?

Possível é. E nós temos que ser radicalmente contra isso. Eu lembro na África do Sul, quando terminou o apartheid, o [Nelson] Mandela anistiou o presidente da República, os ingleses foram postos pra rua, ele fez um grande entendimento, uma espécie de perdão, mas foi o seguinte: todos foram condenados. Os que roubaram, que mataram, que torturaram foram condenados. O crime cometido é reconhecido e é imputado. Se isso não acontecer no Brasil, não sei mais o que vai acontecer. O que aconteceu na Petrobras foi um fiasco, o que está acontecendo agora no Rio de Janeiro, dessa roubalheira das passagens de ônibus, é tudo pobre, gente humilde pagando para os políticos que tiram do aumento das passagens. Essas coisas não podem continuar. Os políticos de todos os partidos só têm uma saída agora, que é buscar a verdade. O Olívio aqui no Rio Grande do Sul, o Tarso aqui no Rio Grande do Sul são reconhecidos porque têm respeito. Dizem que tem que refundar o PT, mas não é só isso. Tem que refundar o PMDB, tem que fazer muita coisa, tem que fazer uma nova vida partidária. Essas pessoas que eu estou citando, que tem em todos os partidos, é que devem se reunir e buscar um entendimento.
‘Sempre pensei que o Temer poderia dar um gesto de grande importância’,
diz sobre renúncia
Foto: Guilherme Santos/Sul21
O que o senhor acha de termos um Congresso Nacional que segue conduzindo normalmente votações, ao mesmo tempo em que temos o primeiro presidente a ser acusado criminalmente ainda no poder?

Eu acho que estamos vivendo uma hora muito delicada, realmente. Essas reformas, por exemplo, acho que são importantes, são necessárias.Mas acho que ser votada meio a toque de caixa não é o ideal. Acho que a gente tinha que ter mais tempo para discutir, para debater, para analisar. Repare que não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Na Grécia, foi um escândalo a votação. Na Espanha, também. Em Paris, os socialistas que sempre estavam no governo desapareceram do mapa, perderam a eleição por causa dessa questão. Nós vamos ter que discutir, vamos ter que votar, mas com essa confusão que estamos vivendo, misturar uma coisa com a outra, realmente não sei se é a melhor solução.

Poucos dias antes da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, o senhor deu uma entrevista dizendo que Temer deveria renunciar caso o afastamento de Dilma se concretizasse.

Eu pensava isso. Sempre pensei que o Temer poderia dar um gesto de grande importância. O Dr. Getúlio Vargas era presidente da República e estava na iminência… Quer dizer, quando os militares se insurgiram ou ele ia para uma guerra civil ou aceitava ser derrotado. Ele disse que não queria ver um mar de sangue, como deixou na carta-testamento, e também não queria seus inimigos ocupando. Suicidou-se. Não quis renunciar. O Dr. João Goulart não se suicidou, mas saiu do governo porque não quis ter uma guerra. Eu acho que uma hora dessas é uma hora delicada, muito delicada. Agora, [Temer] estava na posição dele, não aceitou. Não sei como vamos sair, com toda a sinceridade. A sensação que acho que eu sinto é que essa é uma posição de responsabilidade pessoal. [Agora, com o processo de Temer] não existe essa questão voto partidário, do partido, é votar de acordo com sua consciência. Eu não posso dizer como é, como não é, porque ficou meio óbvio que o Procurador da República pegou uma questão pessoal com o presidente. Foi uma coisa muito estranha que o auxiliar dele (ex-procurador, Marcelo Miller), que estava fazendo a delação desse grupo JBS, de repente renuncia um cargo vitalício e vai trabalhar com os caras que ele estava acusando. Ficou uma coisa muito estranha.

Mas quando o senhor defendia a saída de Temer antes, era por uma questão de lealdade política?

Eu estou dizendo que agora os deputados têm que votar de acordo com a consciência deles. Antes do impeachment ser concretizado, poderiam partir para um grande entendimento e a Carmen Lúcia (presidente do STF) assumir o governo. Uma pessoa imparcial, um grande nome, está acima do bem e do mal. O presidente da Câmara não assumiria, o presidente do Senado não assumiria, ela assumiria para fazer um grande entendimento nacional. Essa era a tese que eu defendia. Agora, isso tinha que ser feito antes de entrar com a ação.

Tendo em vista as gravações que vieram à tona em maio, o senhor acha que Temer deveria ter renunciado? 

Essa situação não estou sabendo bem como ela está. De repente aparece que o cidadão foi lá, pegou os R$ 500 mil e fizeram entendimento que são R$ 500 mil por semana, durante 20 anos! Isso não existe. Durante 20 anos, toda semana um cidadão pegar R$ 500 mil e entregar para o outro. Onde é que está isso? É novelesco. Por isso eu digo que cada deputado deve receber a denúncia e votar de acordo com sua consciência.
Sobre acordos em nome da governabilidade: ‘Essa é a grande desgraça do Brasil. E vem sendo.
Vem acontecendo como aconteceu sempre, isso é rotina’
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Uma das coisas que tem ajudado Temer é o fato de ter controle do Congresso, através de  acordos com deputados e senadores, em uma espécie de “balcão de negócios”. Vale a pena manter um governo dessa forma?

Eu acho um absurdo, sou contra isso. Mas é isso que existe no Brasil desde os dias do (José) Sarney. Quer dizer, é uma política de resultado. Um governo onde o presidente é resultado da coligação, porque ele faz acordo com os deputados e “toma lá, dá cá”. Só te digo o seguinte: é o que está acontecendo? É. Mas no Lula era assim. No Fernando Henrique era assim. No Sarney era assim. Eu te dou o ministério tal e tu vota comigo. Essa é a grande desgraça do Brasil. E vem sendo. Vem acontecendo como aconteceu sempre, isso é rotina. Por isso que eu digo, o deputado não é nem o partido, essa matéria é de consciência, não é fidelidade partidária.

As investigações recentes mostram que as relações entre poder público e empreiteiras já vêm de muito tempo, desde a ditadura militar. Como alguém que esteve por 65 anos na política nacional, o senhor concorda com isso?

Sempre teve esse caminho, sempre foi por esse caminho. Tem uma coisa que ainda não apareceu que é o problema do sistema financeiro do Brasil. Os grandes bancos, as grandes instituições, ainda não se chegou lá. Não sei nem se ainda vai chegar lá, mas é uma realidade triste do nosso país. Ninguém pode atirar pedra, porque é culpa dos nossos governos.

O senhor percebia esse lobby das empreiteiras presentes dentro do Senado?

Eu te digo que sim. Posso mostrar aqui (busca o livro Impunidade veste Colarinho Branco, de sua autoria, publicado pelo Senado Federal). Esse livro todo eu falo sobre esse problema no Brasil de os caras roubarem e não acontecer nada.

É difícil, então, alguém que está lá dentro não conhecer um esquema de corrupção?

É difícil. O problema do Brasil é o seguinte: a gente não queria punir, abria o processo o cara era condenado, daí entra em juízo, mas ele nunca era condenado. Agora está sendo, mudou tudo. E descobriram a delação premiada. O que é a delação premiada? É um absurdo, esse cara [Joesley] está se revelando um grande ladrão, um grande vigarista.
‘Desde essa época, eu fui marginalizado pelo partido atual.
Marginalizado no sentido que eu não quis fazer [parte]’
Foto: Guilherme Santos/Sul21
O que o senhor acha da delação premiada?

Eu reconheço que é uma arma usada no mundo inteiro. Se não é esse cara contar tudo, quando é que tu ia saber? Nunca. Ele ia morrer com aquilo. Só que no Brasil está sendo meio exagerado, porque o cara está virando heroi. Mas está aparecendo. Hoje, as coisas estão acontecendo.

Como o senhor define Michel Temer?

Eu fui do MDB do Dr. Ulysses [Guimarães], do Tancredo [Neves], do Teotônio [Vilela], do [Miguel] Arraes, do Mário Covas. Eu era de um MDB que era diferente. Era… Houve um determinado momento que essa turma… Ganhou o [Orestes] Quércia e ganhou um outro grupo, que está hoje no partido. Desde essa época, eu fui marginalizado pelo partido atual. Marginalizado no sentido que eu não quis fazer [parte]. Eles fizeram a minha geração sair e eu saí junto com ela. Aquele nosso MDB era um, esse MDB é outro. Infelizmente, as coisas foram conduzidas para essa situação. Fizeram um PSDB com gente que era do MDB, com [Franco] Montoro, Covas, [José] Richa, gente significativa. Mas eles estão vivendo uma situação que, se tu vai ver as acusações do PSDB são mais ou menos iguais às do PMDB.

Mas como o senhor definiria nas suas palavras quem é Michel Temer?

O que eu estou dizendo pra ti é que ele veio nesse grupo do PMDB que entrou quando nós saímos. Dr. Ulysses saiu, eu saí, Tancredo morreu. Surgiu o Sarney, surgiu Renan [Calheiros], surgiu Michel Temer, essa turma. Esses caras que estão lá. Eu não convivi. Nem dentro do partido, muito menos dentro do governo. Não tive nenhuma convivência. Pelo contrário, eu tive uma luta interna ali, porque eu queria candidatura própria do PMDB. Tanto quando eles apoiaram o Fernando Henrique, como quando apoiaram o Lula.
‘O problema não é esse governar junto, porque o governo é essa coisa de coalizão.
Quer dizer, não tem um grande governo político, um esquema’
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Essa é uma crítica que se faz, que não importa quem governa, o PMDB governa junto.

Isso é verdade. É errado. O problema não é esse governar junto, porque o governo é essa coisa de coalizão. Quer dizer, não tem um grande governo político, um esquema. Tem países que são presidencialistas, os Estados Unidos são presidencialistas, mas é um partido que está no governo. No Brasil, não. Aqui é uma coligação onde todo mundo que está no governo vai comprar apoio. Esse apoio não é em torno de programas e ideias, mas em troca de ministérios, de colocar um filho na Petrobras, é um absurdo.

O senhor acha que Michel Temer consegue chegar até o final do mandato?

Eu não sei te responder. Acho que a situação hoje, em primeiro lugar, a gente é obrigado a reconhecer que, mesmo que a gente critique, o governo está tentando arrumar o Brasil, modificar, acertar e está conseguindo alguma coisa. O mundo vive uma crise e desde o segundo governo da Dilma, o Brasil entrou nela. O Lula pegou o país em uma fase positiva. Agora, o mundo está em crise e nós estamos junto. Nós temos que fazer força para um grande entendimento nacional.

O senhor acha que ele deve ficar até o final?

Olha, eu digo o seguinte, se houvesse o grande entendimento, se a presidente do Supremo tivesse assumido, nós saíamos sem sermos derrotados ou vencidos, mas numa grande fórmula de entendimento, numa espécie de projeto de Moncloa, que aconteceu na Espanha. Como não foi feito, não dá para dizer o que vai acontecer. Não sei.

No caso de uma saída de Temer, o senhor então acha que a melhor solução são eleições indiretas?

Não tem como fazer diretas. Elas poderiam ser boas, ser positivas, mas não vejo possibilidade. Acho muito difícil.

Falando do Rio Grande do Sul. O senhor disse que se afastou do grupo do PMDB que hoje é governo, mas o PMDB gaúcho tem sido um aliado forte do presidente Michel Temer. Eliseu Padilha, Osmar Terra, mesmo o governador José Ivo Sartori tem uma relação próxima com ele, sendo o primeiro a recebê-lo logo depois da divulgação da carta em que Temer dizia ser “decorativo”. Como o senhor vê isso?

Simon: O Sartori pegou o Estado em uma situação muito difícil. Ele está tendo a coragem de ver essas coisas e tentar resolver, tentar fazer. Por outro lado, o PMDB do Rio Grande do Sul não tem tido participação na condução nacional. As coisas estão acontecendo…

Mesmo com a proximidade de nomes como Eliseu Padilha a Temer?

Eu estou dizendo, a direção para onde foi. Agora, essas pessoas já tinham ligação, que estão participando do governo. Acho que é o trabalho deles, não tenho o que dizer. Agora, o governo do Estado não. Sartori não tem nenhuma participação no governo federal.

O senhor não avalia o PMDB gaúcho como uma âncora do atual governo federal?

Não, não. O Sartori até falou agora, quando fez o programa dele de TV: o MDB do Rio Grande é diferente, nós somos diferentes. Agora, não [há como fazer] nessa altura uma guerra. Mas a gente se respeita. Isso foi feito lá e nós aqui.

No ano passado surgiu a ideia de voltar a usar o nome MDB para retomar o passado histórico do partido. O senhor acha que isso é possível?

Pode até ser possível. Tem um grupo já dizendo que é o antigo Iepes (Instituto de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais), que foi um grupo social dentro do MDB, do André Forster, que teve um desempenho realmente fabuloso. Agora, nessa altura, isso fica muito pequeno porque o problema é o partido em si. Nós hoje temos que mudar a legislação partidária. Não pode ter mais de 20 partidos no Congresso Nacional. Essa cláusula do desempenho é que vai determinar. Partido existe, continua existindo, mas para funcionar tem que ter na eleição um percentual. Se não fez 3%, continua, mas não atua.
‘Se hoje você perguntar que nome está aí, não tem ninguém. Um nome que o povo olha…Está tudo igual’
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Como o senhor vê o cenário para as eleições de 2018, a partir das pesquisas que tem aparecido?

Isso é piada. O que aconteceu na França. De repente, um jovem de 39 anos, que nunca foi nada, apresentou uma proposta, criou um partido um ano antes, sem história, sem biografia, sem nome e ganhou, fez 60% dos deputados. O Partido Socialista que era o grande, que vinha dominando, perdeu de uma hora para outra. Agora, o Brasil tem esse perigo, como foi o Collor. Derrubou ditadura, “diretas, já”, uma maravilha e ele elege um Collor da vida. Foi o maior erro da nossa vida. Agora, o capitão aquele, o Bolsonaro (PSC), está crescendo a cada dia.

O que o senhor acha da figura dele? Há duas semanas Jair Bolsonaro esteve em Porto Alegre e foi recepcionado por centenas de pessoas.

É uma figura folclórica. Ele defende os militares na base da ditadura, agora que tem esse grupo atrás dele, ele está mudando. Já está vendendo uma imagem diferente. É um perigo. Ele tem um eleitorado de extrema-direita. Mas eu acho que quem está aparecendo mais é o prefeito de São Paulo (João Doria, PSDB). Esse sim…

O que o senhor acha dessas figuras que se vendem como anti-políticos?

São duas coisas diferentes. O prefeito de São Paulo é um intelectual, um empresário, jovem, nunca esteve na política, mas de repente se elege prefeito e está fazendo uma administração positiva. Esse pode vir com uma badalação e pode crescer. O perigo dessa situação são os salvadores da pátria. Eu tenho medo. Se hoje você perguntar que nome está aí, não tem ninguém. Um nome que o povo olha… Está tudo igual.

Em 2014, o senhor apoiou a candidatura de Marina Silva. Acha que ela é uma possibilidade?

Ela é um nome, um grande nome. Eu quis dizer no sentido dos políticos que estão aí, na crista da onda. Ela duas vezes quase chegou lá. A nossa presidenta tinha 15 minutos de televisão, a Marina tinha dois. Ela demoliu com a Marina. Tudo o que ela fez são coisas que ela dizia que a Marina ia fazer.

O senhor apoiaria ela novamente?

Com muito carinho, apoiaria ela. Quando eu falei que não tinha um grande nome é desses que estão na crista da onda.
‘[A criminalização] faz parte do momento que estamos vivendo.
Há uma criminalização generalizada. Agora, vamos ter que parar e dar tempo ao tempo’
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Como são essas conversas que o senhor está levando pelo país?

Eu vou chamado nas universidades, pelos jovens, a gurizada. E ficamos um tempo discutindo. Eles perguntam, cobram de mim, eu cobro deles e vamos analisando a situação toda. Eu mostro pra eles que, hoje, eles estão numa situação muito mais importante do que no passado. Vocês hoje estão com a faca e o queijo na mão. Hoje veio tudo para fora, sabemos do quintal de todo mundo. Vocês têm que tomar posição, avançar, dizer o que querem.

Hoje, também se fala em momento de criminalização da política. O que pode trazer as pessoas de volta para ela?

Por isso que eu com os meus 87 anos, 65 de política, sou político. O que eu tenho hoje? Eu sou o Pedro Simon, mas tenho menos do que tinha 60 anos atrás. Eu fui ministro, senador, governador e hoje estou aqui. Tenho minha consciência tranquila. Agora, cobre isso de todos os caras. [A criminalização] faz parte do momento que estamos vivendo. Há uma criminalização generalizada. Vamos ter que parar e dar tempo ao tempo. Por exemplo, o Olívio Dutra. É um cara do PT, mas é um cara simples, temos que tirar o chapéu pra ele, é um cara digno, correto, decente. Tarso Genro, a mesma coisa. Agora, o governador de Minas Gerais [Fernando Pimentel] é do PT, mas é um ladrão vigarista. Do PMDB, o governador do Rio de Janeiro, [Luiz Fernando Pezão] também é um ladrão vigarista.

Em 2014, o senhor se candidatou mais uma vez para o Senado, mas não conseguiu a reeleição. O que faria se estivesse lá neste momento?

Estaria batalhando. Como Senador da República, eu estaria convocando o pessoal para fazer as coisas que eu estou fazendo agora.

E em relação às reformas, como o senhor votaria?

Eu estaria em uma posição de luta, quanto ao contexto geral que nós estamos vivendo. Acho que o troço está muito agitado. É uma coisa muito séria para votar nessa correria toda. Deveriam delimitar.

E no impeachment, como teria votado?

Não posso responder. Mas eu fiquei magoado com a Dilma. Ela demitiu ministros, mas daí disseram “fora, Dilma”, “chega da Dilma” e ela acabou caindo nesse troço que foi muito ruim.

O senhor acha que ela foi traída?

Não é que foi traída. É que a Dilma… O Lula se enganou muito. Ele vendeu ela como uma grande e ela pegou uma fama de extraordinária. E ela não é. Ela é uma pessoa direita, não vejo nada dela, na atuação dela, não vejo ela em nada dessas coisas que aconteceram, mas ao mesmo tempo, roubaram, fizeram o diabo e ela não fez nada. Ela era Presidente da República.
‘Eu nunca me acovardei, nunca me apequenei. Peguei as posições políticas mais difíceis. Acho difícil alguém que tenha vivido uma época política tão ingrata’
Foto: Guilherme Santos/Sul21
O senhor tem alguma mágoa da política?

Não… Tenho das coisas. Eu vejo os generais que foram presidentes, foram uma piada. Nunca fizeram nada. Depois nós tínhamos Ulysses, Tancredo, Teotônio, Arraes, Brizola, nomes e mais nomes. Foi ganhar o Collor que era um zero à esquerda. Morreu Tancredo para assumir o Sarney, que era um homem da ditadura. Ganhou o Collor numa eleição que tinha Lula, Covas, Brizola. O Lula foi um cara bom. O Lula tinha tudo para acertar. Coisa impressionante. Perdeu uma eleição, duas, três eleições, manteve a firmeza, a dignidade, a garra dele. Foi ganhar a quarta, assumiu, fez os programas sociais. Quando está com tudo, esses empreiteiros, esses caras aí, por um vinho de mil dólares a garrafa, avião a jato para fazer uma palestra, o cara se levou por isso. Se levou por isso, rapaz! Que coisa fantástica, não dá pra acreditar. Não tem explicação. Quando está no auge, não precisava de nada. Que coisa, que coisa. Eu tenho ódio não é do Lula, um coitado. Tenho ódio desses caras que estavam em volta, esses caras… Eu fazia parte das reuniões. O Lula me convidou para ser ministro do primeiro governo dele. Jantou lá em casa, ele e o José Dirceu. Ficou um tempo lá e queria que eu fosse ministro. Eu disse pra ele que não. Disse que não tinha lógica, que eu não ia nem ajudar. Ia ajudar mais no Senado. Eu disse que no Senado podia fazer o que eu fiz com o Itamar [Franco]. Eu fui líder do governo do Itamar, ajudei uma barbaridade. E ele topou.

O que o senhor acha da possibilidade de Lula ser presidente outra vez?

Se ficar ele ou alguém que sair desse imbróglio, que está metido nessa coisa, esse quadro vai ficar. Acho que ele entende também, mas a candidatura é uma maneira de mostrar que ficou vítima. Sinceramente, acho que a candidatura dele não é uma boa nem pra ele, nem para nós.

Olhando para trás, toda a caminhada política que o senhor fez, acha que valeu a pena?

Eu nunca me acovardei, nunca me apequenei. Peguei as posições políticas mais difíceis. Acho difícil alguém que tenha vivido uma época política tão ingrata, de tanta rispidez, como a que nós vivemos. Mas valeu a pena. Valeu sim. Vivemos quadros históricos. A época do MDB, a resistência democrática. Nós éramos um grupo que o governo eram os militares, a Igreja fechado do lado do governo, a grande imprensa, os grandes empresários e nós éramos um punhadozinho. Quando dissemos não para o governo, para a luta armada que o Brizola queria fazer, dizíamos que íamos lutar com as nossas forças dentro da democracia e os caras riam de nós. Fomos devagarinho, povo na rua e diretas já, fomos indo, crescendo e o que ninguém acreditava aconteceu. Os militares foram para a caserna e nós fizemos a eleição, sem disparar um tiro. Isso eu vi. Para depois o Tancredo filho da mãe morrer e não levar o Sarney junto. Deixou o Sarney aí e ainda entra o Collor.

Fernanda Canofre
No Sul21

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