31 de jul de 2017

O sonho do Otto

Numa das suas frases antológicas, Mae West saudava um homem que encontrava dizendo “Isso é uma arma no bolso da sua calça ou você só está contente de me ver?”

Neste Brasil de todos os escândalos, a pergunta, parecida, a ser feita é: “Isso é um maço de cigarros no seu bolso ou você está a fim de me etc...?”

O minigravador, como bem sabe o Temer, pode conseguir o que nenhum tipo de investigação consegue, além de tornar nossos políticos mais reticentes.

A moral segue a técnica.

Foi preciso que inventassem as armas atômicas para que as guerras mundiais se tornassem impensáveis.

Foi preciso que os gravadores coubessem no bolso para que qualquer conversa soasse como uma conspiração.

Isso sem falar nos modernos métodos de escuta telefônica, que fizeram mais pela virtude do homem em poucos anos do que a ética cristã em toda a sua história.

E qualquer um de nós pode ser gravado, de um jeito ou de outro.

O Fernando Sabino contava que o Otto Lara Resende tinha um sonho na vida. Era o de um dia estar caminhando pela Rua do Ouvidor (podia ser qualquer outra rua, mas a do sonho do Otto era a do Ouvidor), ouvir alguém gritar, às suas costas, “Canalha!” — e seguir caminhando, na certeza absoluta de que não era com ele. Que poderiam vasculhar sua vida desde o parto sem encontrar nada que justificasse ser chamado de canalha na Rua do Ouvidor.

Hoje, como nos comportaríamos, nós e o Otto, ao ouvir o epíteto? Poderíamos supor que fosse apenas um amigo nos chamando com aquele hábito bem brasileiro do insulto carinhoso.

— Cafajeste!

— Filho da mãe!

— Seu bosta!

— Dá cá um abraço!

Poderíamos supor que se tratasse de um louco que chamava toda a rua de canalha. Ou fazer um rápido inventário das nossas culpas. (“Fui descoberto!”) antes de nos virarmos para o acusador e pedirmos:

— Especifique.

E nenhum brasileiro teria a absolta certeza de não ter sido gravado fazendo ou dizendo alguma coisa comprometedora. Se aparecer um, será provavelmente o Otto, sonhando.

Luís Fernando Veríssimo

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