17 de jul de 2017

O otimismo derrotista das esquerdas


Na semana passada, os trabalhadores brasileiros, os setores progressistas da sociedade e as esquerdas sofreram duas derrotas históricas. A primeira foi a aprovação das Reforma Trabalhista e a segunda, a condenação de Lula, que abre caminho para tirá-lo em definitivo da disputa presidencial de 2018. Do ponto de vista da reação popular, social e sindical, as ações foram pouco mais que nada. Apenas algumas centenas de manifestantes protestaram aqui e ali.

A CLT, criada por Decreto-Lei em 1943, de Getúlio Vargas, simplesmente foi anulada na prática, embora não revogada formalmente. O mecanismo que determina que o negociado prevalece sobre o escrito representa a anulação de fato da CLT. Numa era de sindicatos fracos, o capital imporá sempre negociações vantajosas para si sobre os direitos escritos, numa clara desconstrução daquilo que Norberto Bobbio chamou de Era dos Direitos. Isto ocorre depois da Constituição Cidadã de 1988 e de 13 anos de governos do PT. Não é uma derrota menor, mas a ampliação da larga avenida que consagra o Brasil como um dos países mais desiguais do mundo.

A condenação de Lula não é apenas a condenação de um ex-presidente, de um líder que poderia vencer as eleições de 2018. Trata-se de mais um passo para destruir o poder simbólico do líder-mito, do herói popular, daquele que poderia se constituir na força moral e simbólica de lutas presentes e futuras por parte do povo, dos mais pobres, dos deserdados. Em sua primeira condenação, com exceção das inconformidades nas redes sociais e de pequenos protestos em algumas cidades, Lula experimentou a mesma solidão que haviam experimentado os líderes petistas condenados no mensalão, que havia experimentado Dilma, que enfrentou o processo do golpe com pacatas mobilizações de rua. Nunca se haverá de esquecer a pavorosa cena de desalento do 17 de abril de 2016, quando as pessoas se retiraram do Vale do Anhangabaú cabisbaixas e derrotadas.

É forçoso notar que antes desses eventos que se transformaram em derrotas, partidos, movimentos e ativistas anunciavam lutas monumentais, resistências em trincheiras, mobilizações de exércitos e intocabilidade de seus líderes. Tudo ruiu sem que nada de significativo ocorresse, a não ser pálidas batalhas de Itararé. Após as derrotas, as forças de esquerda e militantes anunciam novas jornadas cívicas, novas lutas libertadoras, vitórias gloriosas no futuro próximo, a derrota fatal dos inimigos, chaves douradas para enfrentar a crise e sair dela, a restauração de um reino da felicidade que nunca existiu. Esse mesmo ufanismo havia anunciado que Zé Dirceu e outros líderes não seriam condenados, que Dilma não cairia, pois os golpistas não passariam, que não haveria nenhum direito a menos e que Sérgio Moro não teria coragem de condenar Lula.

Nesse período em que Lula se bateu com o juiz Moro foi uma batalha de uma banca de advogados contra o arbítrio dos procuradores e do magistrado da Lava Jato que usaram todas as armas jurídicas e não jurídicas, lícitas e ilícitas para garantir o desfecho de uma sentença condenatória, mesmo que sem provas. Lula lutou sozinho ao lado do seu bravo e pequeno exército jurídico, sem o respaldo das ruas e das mobilizações. Nas próximas semanas poderão ocorrer alguns atos de solidariedade um pouco mais encorpados para depois tudo entrar no fastio da normalidade, nas proclamações de lutas com palavras jogadas ao vento. Lula, em sua solidão, caminhará com sua equipe para uma condenação em segunda instância.

O Otimismo derrotista

O fato é que as esquerdas e os progressistas brasileiros inverteram a famosa máxima de Romain Rolland, popularizada por Gramsci: "Pessimismo da razão e otimismo da vontade". Aqui, vale o "o otimismo da razão e o pessimismo da vontade". A fórmula Rolland-Gramsci do pessimismo da razão (ou inteligência) é um chamamento para a necessidade do realismo na percepção das condições e conjunturas, da sobriedade analítica e da prudência perceptiva do sentido trágico da existência humana. O realismo prudente nos ensina que as estruturas sociais, políticas e econômicas existentes são resistentes, constituem, hábitos, culturas e mecanismos de sua reprodução e de sua perdurabilidade no tempo. O otimismo da vontade é uma aposta na capacidade criadora e inovativa dos lutadores pela transformação, um chamamento à coragem para lutar, um apelo às virtudes do combate. Somente a dialética desse paradoxo pessimismo/otimismo tem a potência da mudança e a possibilidade de vitórias.

A inversão do dístico Rolland-Gramsci, transformando em "otimismo da razão e pessimismo da vontade", constitui e fórmula para derrotas certas e fugas da realidade para o êxtase otimista da esquizofrenia. O caráter esquizofrênico da inversão se caracteriza na certeza das vitória e na nulidade da ação e, consequentemente, na negligência da organização de forças e meios para produzir as vitórias. O ufanismo do anúncio otimista é secundado com a covardia na ação. Ao contrário da fórmula rolland-gramscina, que conecta pensamento e ação, a sua inversão desconecta esses dois pares e remete os agentes para a fantasia bêbada do otimismo e da passividade.  

Não há nenhuma correspondência entre os alucinantes delírios de anúncio de vitórias certas e a realidade marcada por sucessivas derrotas. Os erros e as autocríticas são negligenciados pela força dos delírios. Não há rumos a corrigir, não há culpados pelos fracassos porque a culpa é sempre dos outros. A consequência dessa conduta é a fuga da necessidade de definir estratégias eficazes e de enraizar organizações, concepções e visões de mundo em amplas forças sociais. Prefere-se apanhar o fruto já amadurecido no cômodo pomar do Estado do que plantar as árvores inquebrantáveis no terreno rude da sociedade.

O delírio ufanista do otimismo da razão não consegue perceber que, na história, a dominação de  poucos sempre se impôs sobre os muitos, que o egoísmo prevaleceu sobre a solidariedade, a desigualdade sobre a igualdade, a riqueza sobre a pobreza, o capital sobre o trabalho, a injustiça sobre a justiça. Nas guerras, o sangue derramado foi o dos cidadãos, dos trabalhadores, dos pobres, para manter e/ou ampliar a riqueza dos ricos. Essa realidade, que é recorrente nas diferentes histórias, não nos permite o otimismo da razão. Ela requer que a advertência das dificuldades e a necessidade dos combates presida o anúncio das esperanças.

Acreditar que Lula triunfará em 2018, deixando-o caminhar só com sua equipe de advogados até as escadarias do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, significa contribuir para cavar uma nova sepultura para a esperança de mudanças. Pensar que a Reforma Trabalhista não reduzirá direitos sem cercar o Congresso com milhares de trabalhadores, ao mesmo tempo em que no dia da votação o presidente da CUT se esforça para entrar no Plenário do Senado ao invés de comandar protestos nas ruas, significa acreditar que palavras grandiloquentes secundadas por gestos medíocres podem salvar os trabalhadores, os pobres e o Brasil de novas e sucessivas derrotas.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
No GGN

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