15 de jul de 2017

“O idiota” e “Os trilhos”


Inúmeras são as especificidades literárias que denotam a excelência de um bom escritor. Uma das mais notáveis é a capacidade de interpretação da constituição psicológica, moral e cultural dos personagens. O transpor em palavras exatamente aquilo o que uma personagem pensa, sente, percebe e reage ao ambiente em que é inserida pela criatividade de seu autor.

Dostoievski foi um mestre da descrição e composição do clima, da atmosfera de qualquer ambiente, colocando o leitor dentro de um palacete ou de uma izba, o rústico casebre de madeira dos mujiques, os camponeses russos.

Lendo Dostoievski o leitor é enregelado pelo frio das ruas de Moscou ou iludido pelo ameno verão de São Petersburgo para ser tragado por uma trágica realidade existencial, o gancho por onde Dostoievski fisga leitores que não mais conseguem se furtar a sentir, imaginar-se na mesma condição humana.

A constituição psicológica dos personagens de Dostoievski sempre é complexa, atormentada pela realidade das condições de vida e pela sociedade que os envolve. Mesmo personagens secundários são de uma consistência que se concretiza na memória dos leitores como personalidades reais, semelhantes a alguém de que se soube ou se conheceu, se lamentou e se entristeceu com a crua dramaticidade existencial como no caso do Príncipe Michkin, de O Idiota, escrito entre 1867 e 1868.

Epilético, como também Machado de Assis, Dostoievski transporta para o protagonista da história todos os sintomas da doença a partir do retorno à Petersburgo, depois de estadia de tratamento na Suíça. Ao contrário dos muitos nobres ironizados nas obras do escritor, apesar do título nobiliárquico Michkin também é nobre em sua alma e ideal humanista, além de dotado de aguda inteligência e percepção. No entanto o idealismo e desprendimento de Michkin o tornam um ingênuo de pureza quixotesca que acredita na possibilidade de reversão dos desvios de caráter dos demais que compõe a sociedade em que Dostoievski o insere. Incorrendo no que popularmente se diz criar cobras, para os de caráter como o construído pelo romancista na Espanha se adverte: “Cría cuervos y te sacarán los ojos”.

Apesar de até a Revolução Bolchevique a população russa ser composta de 90% de analfabetos, no século XIX seus escritores se tornaram referência da literatura universal e ainda hoje todo comentário, análise ou crítica literária traça alguma analogia com obras de Dostoievski ou algum outro escritor seu patrício e contemporâneo. Ainda que os escritores russos não tenham se unido em um movimento ou formação de escola, o Realismo, o Naturalismo, Futurismo, Modernismo e pós Modernismo da literatura mundial tiveram inegável influência da ficção russa que reproduzia a sociedade tzarista.

Uma sociedade doentia, frívola e obcecada por dinheiro e poder. Insensível e inconsciente de si própria, mimética à parisiense e sem nenhum apreço pelo próprio povo, para a qual o humanismo do prestativo Michkin não representava nada além de um parvo e doente embora na verdade a epilepsia não afete inteligência ou capacidade de raciocínio.

Mas é o egoísmo dos inúmeros personagens de O Idiota que os impede de perceber a superioridade da inteligência e caráter de Michkin, sua capacidade intuitiva emanada do próprio desprendimento às mesquinhezes que mobilizam a maioria dos demais personagens. E na ironia de Dostoievski apresentando as diferenças entre o caráter de Michkin e da profícua fauna de mesquinhos generais, nobres decadentes, usurários, salafrários, donzelas interesseiras, trambiqueiros, solteironas vigaristas e amargas matronas, o leitor vai reconhecendo nos envolvidos pelas próprias intenções escusas a quem o título da obra realmente se refere.

Na literatura brasileira tivemos diversos autores que como Dostoievski, magistralmente transmitiram a consistência moral e psicológica de personagens típicas de nossas comunidades humanas. Entre estes o carioca João Felício dos Santos que se consagrou por seus romances sobre acontecimentos como a Guerra de Canudos ou personalidades como a de Chica da Silva. Mas foi saindo do gênero de romance histórico que João Felício criou uma situação muito similar a do O Idiota de Dostoievski, ainda que em ambiente e condições totalmente diversas.

Ao invés da supérflua e pedante nobreza russa, João Felício dos Santos reproduz uma comunidade de miseráveis. Mendigos, aleijões, dejetos sociais, idiotizados pela precariedade das condições de vidas aleatoriamente amontoadas em improvisado acampamento num capinzal devoluto. Totalmente alijados e alheios a qualquer benefício, atendimento ou interesse social, apesar da proximidade de um ambiente urbano o único resquício de civilização com que compartilham o degradado e inumano cotidiano são os trilhos de uma antiga e desativada linha férrea em cujas margens constituíram a favela.

Organizam-se como em todo ajuntamento humano sem qualquer estrutura e mínima representatividade. Não há lideranças, não há respeito ou intenções coletivas. Auxiliam-se exclusivamente pela necessidade de sobrevivência comum e individual. Conflitos eclodem sem qualquer motivo e objetivo, sempre instigados pelo imediatismo e sem pretensões de prevenir ou mitigar dificuldades futuras.

A única lei que condiciona o comportamento de todos é a premência que insta disposições e exigências, mesmo que totalmente infundadas. Acima do imediatismo da sobrevivência não há qualquer parâmetro de justiça ou ética.

Na total ausência de recursos, doenças são relegadas à vontade divina. Apesar de contundentes e determinantes das ações de todos os personagens, as necessidades são mínimas e provocadas somente pela fome e frio, mas impedem quaisquer questionamentos e impossibilitam raciocínios, agravando o circulo vicioso da miséria coletiva.

A notável sensibilidade de João Felício em detectar as estritas particularidades de integrantes de grupo tão sui generis e distante da realidade de seus leitores, os faz adentrar a alma do que torna a ser visto em todo o Brasil, embora torne a ser ignorado. Traz da exasperação pela mais abjeta condição humana, a compressão da essencialidade humana e, como todos os seres humanos, seus personagens também carecem do convívio comunitário, mas não por integração social; somente como meio de viabilizar a sobrevivência ou aliviar permanentes dificuldades. Não pela divisão, mas pela soma das adversidades de igualmente desvalidos.

Passam por momentos de coletiva comemoração por reles conquistas do minimamente essencial, mas não compartilham impossíveis previsibilidades ou inviáveis perspectivas e é exatamente pela total ausência de perspectiva que concebem um mestre tacitamente acolhido como guru por cada um.

Decano entre o bando, a decrepitude mental similar a de todos os demais resulta mais das carências do que da idade, mas não o possibilitam a qualquer sugestão, nem mesmo intenção de liderança. Nada determina, não conduz, não aponta consequências nem expressa ordem alguma. Embora todos o tenham como profeta, não esboça nenhuma previsão de amanhã diferente de todos os ontem consumidos pelo imediatismo da sobrevivência ao hoje.

Sequer tem condições de recusar o incômodo de ser consultado sobre o que não tem interesse nem alcança qualquer compreensão sobre o que se trata. Desconversa em lacônicas evasivas sem a mínima relação com o assunto questionado ou simplesmente silencia, mas mesmo seu silêncio é concluído como aprovação das resoluções do próprio consulente que apenas necessita confirmar alguma certeza entre tantas dubiedades de semiconsciências mutiladas pela precária existência. É tido e admirado como sábio, embora em verdade não seja capaz de formular qualquer pensamento lógico e consequente.

João Felício consegue compor personalidades dotadas de características individuais entre aquele grupo homogêneo pela absoluta e total carência, mas a única característica daquele personagem secundário e de bem poucas falas é a em que se consiste o carisma que o torna proeminente entre o bando pela reiterada ação de alongar o olhar pela paralela extensão da abandonada linha férrea, questionando-se: “- Aonde irão estes trilhos?”.

Este refrão que pontua as páginas do romance do escritor carioca falecido em 1989 me vem à memória a cada vez que Michel Temer afirma ter posto o Brasil nos trilhos. Embora não o perceba o sentido da fala do golpista em nada se difere da cisma do personagem de João Felício e a resposta foi oferecida pela germânica Deutsche Welle ainda em maio do ano passado, assim que consumado o golpe, afirmando haverem tornado o Brasil num “covil de gangsteres”.

- Aonde irão estes trilhos?

A realidade deste pouco mais de um ano de governo golpista só têm confirmado as previsões da DW até mesmo para muitos do Brasil que a princípio embarcaram no devaneio da travessia da “Ponte ao Futuro”, entretanto, apesar da ONU prever que muito provavelmente o país tornará a incluir o Mapa Mundial da Fome do qual saímos em 2014, na opinião pública brasileira e mesmo entre a imprensa internacional a percepção do processo golpista se arrefeceu na insistência da mídia brasileira de que foram cumpridos dúbios ritos constitucionais.

Mas eis que menos de duas semanas depois de manchetes policiais alardearam os crimes de corrupção de Michel Temer, Sérgio Moro dirime qualquer dúvida e confirma com a mais inequívoca transparência o que de fato ocorreu e continua ocorrendo no Brasil. Nem mesmo é necessário perguntar “Aonde vão estes trilhos?

A pauta de todas as capas dos periódicos de cada país não se diferencia e para exemplificar se pode citar apenas dois ou três como a do britânico The Guardian que destacou “o ex-líder sindical obteve admiração global por suas políticas de transformação social que ajudaram a reduzir a grande desigualdade social do maior país da América Latina”.

Lembra ainda que apesar da ingente perseguição jurídico/política Lula continua liderando a preferência do eleitorado para as eleições de 2018, embora o francês Le Monde advirta que a condenação por Sérgio Moro complica as chances de Lula vir a concorrer eleitoralmente à presidência, mesmo estando no topo das intenções de voto.

O The New York Times também exalta o crescimento econômico do Brasil durante o governo Lula que retirou da pobreza milhões de pessoas “numa das nações com maior desigualdade entre ricos e pobres no mundo”, mas é Katy Watson, correspondente da BBC, que comentando sobre a permanência de Lula como única liderança popular, conclui que se acolhida essa condenação dividirá profundamente o Brasil.

Sem dúvida. E já que sem Lula como candidato em 2018 não restará qualquer possibilidade de resposta à pergunta sobre até aonde seremos levados pelos trilhos de Michel Temer ou de quem venha a substituí-lo no próximo golpe, aos brasileiros só resta escolher de que lado acampar nas margens dessa retroativa composição política: o lado do O Idiota de Dostoievski ou o do bando de idiotizados do Os Trilhos de João Felício dos Santos.

Raul Longo

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