10 de jul de 2017

O golpe está nu, mas Dallagnol e Moro ainda estão de bermudas


Depois do “Caso Aécio”, quem me chamou de doutrinado virou pó. Este seria o título daquilo que seria o texto de hoje, movido por mais um controvertido capítulo daquela que, não se sabe a razão, ainda chamam de Corte Suprema. Seria sobre o retorno de Aécio Neves (PSDB) ao senado, de onde, por princípio constitucional, não deveria ter saído. Pelo menos no que diz respeito à forma, devido à clara invasão de poderes. Bom lembrar que há pouco tempo, a mesa diretora do Senado ignorou ordem do ministro Marco Aurélio Melo e não afastou Renan Calheiro (PSDB), que não arredou o pé e nem foi arredado de onde estava. Sim, Marco Aurélio, que monocraticamente queria afastar Renan, mandou monocraticamente Aécio voltar, porque a decisão de afastar foi monocrática, entre outros argumentos.

Em que pese Renan, a exemplo de Aécio, seja “brasileiro nato, chefe de família, carreira elogiável”, aquele ministro não quis saber de nada. Mandou afastar o político alagoano. Mas, no dia em que seria notificado pelo meirinho de Aurélio, Renan chegou cedo ao Senado e foi direto para o seu gabinete. Jorge Viana (PT), substituto de Renan, assumiu a tribuna vazia e disse que não haveria sessão. Disse não ser hora de votar nada, pois “nós estamos vivendo uma situação absolutamente grave aqui no Congresso Nacional". A tal gravidade era a quebra do princípio constitucional da separação dos poderes. O STF, como guardião do Golpe de 2016, depois da lambança de mandar prender o senador Delcídio Amaral (PT), tomou gosto pela interferência no Poder Legislativo. Isto, sem contar que invadiu também o Poder Executivo, quando impediu monocraticamente a posse de Lula como ministro. Mas, contra o PT tudo vale e Aurélio se esqueceu disso.

O golpe escancarado já assumiu tons pornográficos. Não foi à toa que senador Romero Jucá (PMDB-RR) se referiu a palavra suruba para todos. Uma frase solta que ilustra o teatrinho imoral do golpe. As personagens não sabem bem a quem querem seduzir. Os discursos jurídicos estão fartos de indícios, ilações, perorações pseudo doutrinárias e fluem das messiânicas cabeças de Curitiba – principal usina de contorcionismo jurídicos. Por conta disso, deixando de lado o que possa ser tratado como prova naquela cidadela, o respeitável jurista Lênio Streck compara os métodos curitibanos às teorias esdrúxulas adotadas nos concursos públicos. “O juiz da causa poderá até acatá-las. Mas, com certeza, se perguntadas em concurso público, haverá a anulação das questões”. De tão estranhas e com ares de fórmulas matemáticas, Streck ironizou: ”Condeno o réu Mévio porque o Pr(A), na conjunção com o Pr(AB) deu 0,1. Isso porque a probabilidade a posteriori indicava que Pr(B-A) era inferior a Pr (B+). Perdeu. A casa caiu; a pena aplicada é de X anos”.

Na vida real, instância superior anulou sentença de Sérgio Moro, que foi baseada em disse-me-disse contra João Vaccari Neto. Um delator disse, o outro também disse, outro confirmou e, contra a lei, veio a condenação. Invalidada a sentença, mais uma peça de roupa foi tirada no striptease do golpe. Em mais um jogo de luz amarela, até o STF vem dizendo, via Gilmar Mendes, que o que vale para Lula e PT não vale para outros. Gilmar até já disse que tem que ficar claro “quem é supremo”.

Entre jogos de cenas e olhares lânguidos é preciso manter as aparências do que, com cara de show, se tentou passar para a sociedade como combate à corrupção. Moro, em seu cantinho, vestido com as cores do Tio Sam, aguarda a deixa para voltar à cena novamente. A revista Istoé, lá na coxia do golpe, até tentou facilitar o trabalho, antecipando a condenação de Lula, prevista para semana pretérita, inclusive com cálculos de pena.

Como no teatro pornô do golpe tem gente querendo roubar a cena do outro, tem sido melhor guardar holofotes e purpurinas para mais tarde. Há mais sinais de nudez no antro golpista e a TV Globo já alardeia o que chama de “fim da Farsa Jato”, com o corte de verba na PF. Mas, lá dentro da PF tem gente conversando com seus próprios botões. Dizem que a Farsa Jato, que nunca foi séria, sempre foi pega “Lula/PT e fora Dilma”, de quebra servia como boquinha de diárias para delegados fazerem “poupancinha”. Além disso, era usada para chantagear a Presidenta golpeada. O corte de verba para a PF não é único, pois a PRF também foi solapada. Mas o que significa isso diante de saúde e educação? Enquanto a mídia alimenta a Farsa Jato, cinco mil inquéritos que mexem com os pilares do sistema estão paralisados, abafados, alguns concluídos e sem denúncia. Portanto, a preocupação de Rodrigo Janot quanto ao fim do grupo da Farsa Jato também é duvidoso e isso está longe de lhe provocar “ânsia de vômito”.

Coisas de república de bananas, na qual aliados e filhotes de uma mesma cultura colonial fazem teatrinho em conluio, depois de cassar o voto do povo. O pau que bate em Chico não bate em Francisco e quem fala grosso com Maria desafina com João, pois afinal, nossos corruptos são menos corruptos, vêm de família tradicional e usam mesóclises. Por conta de tudo isso, aquela gente toda que me tratava como doutrinado, depois do caso do Aécio virou pó. Na mesma linha, as contradições nos casos Delcídio, Renan, Aécio, Temer, Dilma, Lula  mostram isso claramente. Desse modo, enquanto o enredo avança incerto para o grande público, no streaptease do golpe muitos já estão nus. Mas, com o devido respeito e perdão pela metáfora, Sérgio Moro e Deltam Dallagnol, ao que tudo indica, ainda permanecem de bermudas...

Armando Rodrigues Coelho Neto
No GGN

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