26 de jul de 2017

Golpes: o adiamento das eleições ameaça como conspiração ou bode na sala

Temer, quando era vice e conspirava para ser presidente
Fernanda Carvalho/O Tempo/Folhapress
Um ”diretor de investimentos de um conglomerado brasileiro”, ouvido pela repórter Angela Bittencourt, disse o que pode ser resumido na abertura da coluna publicada no jornal ”Valor”: ”A eleição presidencial de 2018 poderá minar o esforço empreendido até agora para aprovar reformas estruturais com o objetivo de promover uma recuperação econômica, capaz de minimizar os efeitos inquestionáveis da Operação Lava Jato sobre a atividade”.

O executivo de nome não revelado pontificou, sobre postulantes ao Planalto: ”Questionado sobre candidatos que poderão despertar confiança nos investidores, nosso interlocutor apontou personalidades filiadas ao PSDB: João Doria, prefeito de São Paulo, e Geraldo Alckmin, governador do Estado. ‘O PSDB é um atestado de qualidade de política econômica. Qualquer candidato do partido seria recebido dessa forma”’.

Acrescentou: ”De Marina à direita, todos serão vistos como bons candidatos, e ela mesma pode surpreender sendo bem assessorada. O PMDB está fazendo uma política econômica exemplar, mas não parece haver condição de o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, se fazer candidato. Ele seria o ideal por sua credibilidade, experiência e acertos da atual gestão”.

O executivo não gosta de Dilma nem de Ciro. Calou sobre Lula, mas se subentende que o petista não é ”visto como bom candidato”.

Mais do que aos eventuais estragos a serem provocados por um governo eleito em outubro de 2018, a voz anônima do ”mercado” se refere à eleição em si. O título da coluna é ”Eleições podem impor retrocesso às reformas”.

O diretor de investimentos parece insinuar que o melhor para o país, a fim de impedir o tal retrocesso nas tais reformas, seria mudar a data do pleito. Não antecipando-o, consagrando as diretas já, e sim adiando-o.

Por mais esdrúxulo que pareça — e é mesmo —, postergar ou cancelar o pronunciamento dos cidadãos nas urnas é patifaria conhecida da história republicana.

A eleição presidencial prevista para 1938 não ocorreu. Em novembro de 1937, Getúlio Vargas e seus sócios militares deram um golpe de Estado que instaurou a ditadura do Estado Novo. As diretas só viriam a vingar em dezembro de 1945.

Em julho de 1964, a escolha do presidente marcada para outubro de 1965 foi adiada para 1966. A medida constituiu um dos primeiros golpes dentro do golpe de autoria da ditadura recém-instaurada. Em 1965, o governo liquidou as diretas, que só retornariam em 1989.

Muita gente, do Executivo ao Legislativo, adoraria escapar ao escrutínio popular. Seu problema é transformar desejo em movimento político capaz — o que não lhe favorece — de contrariar aliados que pretendem concorrer no ano que vem e, sobretudo, de despertar a ira cidadã.

Por enquanto, o adiamento das eleições não passa de vontade de alguns que não têm coragem de se manifestar publicamente. No máximo, dão a entender, sob a proteção do anonimato.

Michel Temer pode aproveitar para colocar um bode na sala. Isto é, comprometer-se com a eleição de outubro de 2018 desde que lhe permitam estender seu mandato até o fim daquele ano. O chefe do governo zumbi, para combater o adiamento, exigiria sua permanência no cargo. O adiamento viraria um bode na sala, contra as diretas já.

Como conspiração ou bode na sala, as insinuações de adiamento eleitoral ameaçam a democracia tão maltratada.

Na democracia, presidente se elege no voto.

Como Temer é ilegítimo, no voto mais imediato possível.

Mário Magalhães
No Bem Blogado

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