16 de jul de 2017

Fim de ciclo

I – o “Congresso Eduardo Cunha” ouviu a voz do dono

Congresso Eduardo Cunha

O ataque à CLT consolidado em 11 de julho de 2017 é o ponto de pico do “Congresso Eduardo Cunha” que corresponde, na prática, à volta do voto censitário ao país. Mas também é sintoma de um fim de ciclo.

O Congresso eleito em 2014 é o ápice de um modelo que privilegiava o poder econômico em detrimento do poder político. Porém, até o advento de Eduardo Cunha, havia um determinado equilíbrio. Esse equilíbrio foi rompido quando tornou-se necessária a aplicação do golpe contra o quarto mandato petista consecutivo.

Este Congresso atual é o “Congresso Eduardo Cunha”. E sua bancada eleita com os recursos do financiamento empresarial das campanhas políticas. Com o financiamento das campanhas por empresários, na prática, reinstaurou-se no país o voto censitário que vigorou até 1891. No modelo de voto censitário, só os ricos votam.

Com o decorrer das eleições pós-redemocratização, a dependência dos partidos políticos do financiamento empresarial fez com que os interesses do “mercado” definissem a pauta do Congresso. Mas o modelo no Brasil ainda dependia e depende do voto popular. E, a partir da derrocada dos governos FHC, esse voto tornou-se petista. Não que o “mercado” tenha sido mal tratado nos governos Lula. Muito ao contrário. E não que Lula pudesse afrontar o “mercado”. O PT no poder foi nossa Bastilha sem revolução e sem guilhotina.

Por que não continuou assim com Dilma? Talvez pela combinação dos efeitos da crise de 2008 chegando ao Brasil com os traços de personalidade da presidente. O certo é que o que ocorreu agora em 11 de julho de 2017 já havia sido cobrado de Dilma em 13 de setembro de 2015, no editorial da Folha despudoradamente intitulado: ”Última chance”. Deu no que deu. Dilma derrubada e Temer no poder com duas missões: desidratar a CLT e a Previdência até o limite constitucional e garantir os fundos necessários para o pagamento dos juros dos rentistas. A manutenção de Meirelles em qualquer situação para a segunda e a disciplina mantida a força no Congresso para a primeira.

Significativo é o placar final da votação da descaracterização da CLT segundo o interesse patronal: 50 a 26. Dia antes, e o placar era previsto como apertado. Algo como 43 votos a favor. O suficiente, mas arriscado. Pressões foram feitas para garantir uma vitória completa. Aprovada a reforma como os patrões determinaram, nem uma vírgula fora do lugar. Significativo também é a colocação dos presidentes da Câmara e do Senado voltando atrás no ofertado anteriormente quanto à aprovação de uma medida provisória que atenuasse pontos polêmicos da reforma trabalhista. A ordem do patrão é não. A proposta do presidente da República rebarbada publicamente. Está certo que Temer não é ninguém, mas essa oferta havia sido prometida em carta ao Senado. Mas o patrão manda mais que o presidente, então …

Mas quem afinal é o patrão? Ora, o patrão é o patrão. E a ordem estava dada desde 02 de julho de 2017 deixando claro a ”importância da reforma trabalhista”. Desta vez, sem intermediários para que não houvesse dúvidas. Era a voz do dono na pessoa do dono.

E o “Congresso Eduardo Cunha” ouviu a voz do dono.

Ocorre que não há voto censitário no Brasil e, a menos que mudemos a legislação, as eleições do 2018 farão valer novamente a regra de que todo poder emana do povo e em seu nome ou por ele deverá ser exercido. Um homem, um voto. O diante da urna é o único lugar em que o mendigo e o banqueiro valem o mesmo tanto. Eis porque o banqueiro teme a urna, embora não tema este Congresso, nem teme o presidente da República.

Não é provável a eleição de um novo “Congresso Eduardo Cunha”. Porque o modelo que levou à sua eleição está esgotado e com ele também esgota-se o poder do “voto censitário”. A dúvida é como se comportará o poder econômico, que meios utilizará para se manter no poder?

O patrão continua poderoso, mas o apoio a Rodrigo Maia, depois da falha com a aposta em Michel Temer, e a brutalidade como agiu em relação à reforma trabalhista mostram que esse enorme poder, paradoxalmente, também pode estar chegando ao seu fim de ciclo. A prepotência é muitas vezes sintoma de fragilidade.

Viveremos mais uma vez uma fase típica da “saída da Família Real” – algo que se precipita e que precipita ações drásticas e desesperadas. Mas que deverão ser revistas no próximo ciclo que começa ao final de 2018.

II – Lula está morto, viva Lula

Crônica de uma morte anunciada, a condenação de Lula não fugiu ao script traçado. Mas é um anticlímax. Foram tantos os vazamentos, que já sabíamos o fim do filme.

Lula chega a depoimento

Viveremos mais uma vez uma fase típica da “saída da Família Real” – algo que se precipita e que precipita ações drástica e desesperadas. O ”Congresso Eduardo Cunha” e as reformas trabalhista foram um desses eventos de final de ciclo. A condenação de Lula é outro.

Sergio Moro é um ator disciplinado. Não esperem dele uma gague. Não esperem uma fala fora do tempo. Falta-lhe talento para tanto. Ele é previsível do começo ao fim. E sem graça.

Dia 11 de julho de 2017 – uma terça-feira, anunciado o trailer do filme “Polícia Federal – A Lei é Para Todos” que conta a história da perseguição de Moro contra Lula e da Lava-Jato. Dia seguinte, Moro condena Lula. Isso tudo precedido de notícias na segunda-feira nos jornais de que a condenação de Lula sairia até o fim da semana.

Crônica de uma morte anunciada, a condenação de Lula não fugiu ao script traçado. Mas é um anticlímax. Foram tantos os vazamentos, que já sabíamos o fim do filme.

Já sabíamos desde há mais de um ano que Moro condenaria Lula, que isso se daria a tempo de Lula ser condenado em segunda instância e assim inviabilizá-lo para as eleições de 2018.

Ocorre que o mundo não segue o roteiro. A Lava-Jato já não é mais a Lava-Jato. Moro já não é mais Moro. Foram os power-point de bolinhas. Foram as delações de Marcelo Odebrecht trazendo com elas Mineirinho, Santo e Careca, foram os tucanos soltos. Foi a JBS e o pessoal da mala preso-solto. Foi Aécio voltando ao Senado como “chefe de família com carreira elogiável” e inocentado no “Conselho de Ética”. Foi Gilmar Mendes inocentando Dilma no STF, soltando José Dirceu e criticando a Lava-Jato. Foi o TRF da Quarta Região inocentando Vaccari condenado por Moro e passando um pito no próprio Moro. Foram suas fotos imprudentes com Aécio. Foi sua tentativa inútil de proteger Temer de Eduardo Cunha. Foi a ausência patente de provas contra Lula e as provas a favor da inocência de Lula. E foi principalmente o cansaço do público com uma novela que não acaba mais e cujo fim já era conhecido.

E, sem o interesse do público espectador, Moro não tem força. Sua força não vem do Código de Processo Penal. Moro sequer usa o Código de Processo Penal. Sua força vem da exploração midiática do público.

Por fim, a Lava-Jato acabou de acabar. Lula condenado. Moro sai de cena. Seu último ato. É agora tão descartável quanto Michel Temer. E sua presença tão incômoda quanto a dele. Será dispensado com os elogios de praxe.

Lula responderá ao processo em liberdade. A grande cena final reservada a Moro, a prisão de Lula, foi limada.

Daqui para frente, o jogo é político-eleitoral como sempre foi. Mas será jogado em outro campo. Já não é dada como certa a condenação de Lula em segunda instância. Já não é dada como certa nem a inabilitação de Lula para as próximas eleições. Tudo dependerá do cenário em que se darão os acordos para o próximo ciclo político que se iniciará com as eleições de 2018.

Um anticlímax. As panelas não batem para Temer, tampouco a condenação de Lula será comemorada com feriado nacional.

O golpe fracassou. E Lula é um personagem muito mais valioso para a retomada da normalidade que Moro. Lula está morto, viva Lula

III – aprendendo com Maiakovski

Viveremos mais uma vez uma fase típica da “saída da Família Real” – algo que se precipita e que precipita ações drásticas e desesperadas. Tempos de incertezas que serão resolvidas pelos acontecimentos na forma em que estes forem acontecendo.

País do futuro

Uma única certeza: o golpe fracassou. E fracassou porque ninguém ganhou com ele. Muitos, em silêncio, devem estar se perguntando se não era melhor ter deixado Dilma chegar até o fim do seu mandato com todo o desgaste que isso lhe acarretaria. É necessária agora a volta à normalidade. Porém, os comandantes do golpe não sabem o que fazer para tanto. Quando se cogita em Rodrigo Maia como solução e quando FHC propõem a renúncia de Temer e eleições gerais é possível ver o grau de dissensão nas hostes golpistas.

Uma quase certeza: as eleições de 2018 serão respeitadas e é a partir delas que se tentará reconstruir o país.

Tudo mais é incerto.

Marta Suplicy e Cristovam Buarque, alinhados antigamente com as teses da esquerda, votaram a favor da reforma trabalhista. Álvaro Dias e Fernando Collor, antigos próceres da direita, votaram contra. Realinhamentos típicos de quem está fazendo apostas. Todos serão chamados de traidores.

Não é provável a eleição de um novo “Congresso Eduardo Cunha”. Porque o modelo que levou à sua eleição está esgotado.

O STF decidiu pelo fim do financiamento empresarial de campanha. Isso sendo mantido, há um enfraquecimento da influência do poder econômico, ou pelo menos, fica muito mais arriscada a sua atuação velada.

A Lava Jato criou um paradigma anticorrupção. Não que isso por si só impedisse a corrupção dos agentes políticos pelos econômicos. As malas de dinheiro para Aécio e Temer e a forma despudorada como negociaram a propina – coisa de bandido de boca de fumo – demonstraram que a corrupção continuou forte mesmo durante a Lava Jato para aqueles que se julgavam inimputáveis por não serem petistas. Estão respondendo a processo no Supremo. Mesmo o dinheiro em espécie tornou-se muito inseguro. As possibilidades de delação tornaram a corrupção não mais uma ação entre comparsas, mas entre traidores potenciais.

O PT não está mais no poder e mesmo assim nada melhorou, ao contrário. Não há mais como reeditar o pato amarelo da FIESP. A “ameaça vermelha” perde a cada dia mais seu “efeito espantalho”. As lembranças dos bons tempos com Lula ainda nem começaram. Mas começarão.

Figuras de proa do antipetismo estão desacreditadas. E não foi pouca a sua influência nas eleições de 2014. Silas Malafaia e Feliciano tornaram-se folclóricos. Aécio é o “mineirinho”. Sobrevive graças ao “pacto de elites” com Judiciário, porém, a um custo muito alto para os seus defensores. Careca e Santo – a dupla de impolutos políticos paulistas está arranhada, depende do mesmo pacto do STF.

Na defesa desse pacto, Gilmar Mendes acabou tendo vários flancos expostos. Não poderá agir com a desenvoltura de 2014. Há uma nova xerife na cidade – Dodge é um nome que vem a calhar. Teremos de aguardar para ver o seu grau de “encantamento”. Caso seja minimamente resistente aos encantos da sereia midiática e seus prêmios igualmente midiáticos, pode contribuir muito para a normalidade democrática.

Não há hoje um novo Fernando Collor à vista. Bolsonaro ou João Doria são, qualquer um dos dois, tudo que Lula pediria ao Papai Noel.

A Lava Jato acabou. E acabou com a pecha de que não prender tucano. E acabou justamente quando e porque começava a incomodar os tucanos e seu “pacto de elites”. A condenação de Lula é uma crônica de morte anunciada, mas o fato relevante é que a Lava-Jato acabou.

É impossível impedir Lula de participar da eleições de 2018. Ainda que seja possível impedi-lo de ser candidato. A não prisão de Lula é um sinal claro que esse jogo ainda está sendo jogado e que até 2018 será decido como é mais conveniente enfrentar Lula, se como candidato ou como mártir da causa popular.

A classe média que se sentia desprestigiada por dividir com os pobres assentos em aviões e aeroportos está hoje dividindo com os pobres assentos em ônibus e rodoviárias. Quando não lugar em fila de espera do SUS. Agora deve estar ainda mais amedrontada com futuro imediato sem carteira assinada ou mesmo sem emprego e sem aposentadoria. Aqueles que acusavam Lula de jogar os pobres contra os ricos e se achavam ricos agora estão pobres. Apoiarão Lula em 2018 como fizeram em 2002?

No front externo, Trump não é Obama. Aliás, tanto em 1964 quanto em 2016 eram os Democratas que estavam no poder. Os Democratas são um perigo para a estabilidade da América Latina. Com Trump no poder, talvez se esqueçam de nós e, pela primeira vez, ocorra um golpe nos EEUU. É torcer.

Resta a mídia. Mas aqui temos uma imensa polifonia. Existe a mídia mainstream com a Globo à frente. Mas os blogues independentes sobreviveram ao governo Temer. E estão ambos, mídia mainstream e blogues independentes, ruins das pernas financeiramente. Dinheiro sobrando somente para os sites de ódio da internet.

E há, por fim, Maiakovski: “nestes últimos vinte anos, nada de novo há
no rugir das tempestades. Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado”.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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