14 de jul de 2017

Chico Buarque, a Globo que faz a diferença e o fradinho do Henfil


Existem o João e seu cunhado Francisco. João, de alcunha Gilberto, é sempre pule de dez; Francisco também é Buarque, é uma seta certeira. Um ou outro já consagra a vida de qualquer foca. Basta uma frase, um bocejo, uma poesia do Tejo, um resmungo, um suspiro, qualquer coisa que se extraia de boca de um ou outro, é como a pepita rara bem no fundo da bateia, pouco importa a areia que sempre o editor coloca: quem entrevista o Chico, nunca mais será um foca.

Maranhão no fechamento pensando na roda de sexta, ouve o Ascânio gritar: esqueçam os bacharéis, esqueçam os empresários, deixem Temer e os sicários, data venia, e os infiéis, esqueçam a malta das ruas, as fontes indignadas, nem me fale em jogadores, em paspalhos ou atletas, parem as rotativas que quero ouvir os poetas chorando gotas de sangue, arrancando os cabelos, quero ouvi-los furibundos, maldizendo Deus e o mundo, lamentando o presente e a falta de futuro que aguarda seu presidente.

E ouviram os artistas de variada extração. Ouviram Silvia Buarque, e ouviram o Lobão, e também Beth Carvalho e o famoso Barretão. Ouviram até Zé Padilha que tratou de apurar o vocábulo com o mais chique que há, introjetando na frase a finesse de um “quiçá”.

Mas o Ascânio solene, bateu o pé e exigiu: quero aqui um peso pesado, dizendo o que quiser. Foi então que um anjo torto soprou na sua orelha: se o Globo agora ousar mostrar alguma isenção, e salvar a cobertura das torpezas de esquerdistas, suas verrinas, seus fuxicos, já temos a solução: bota alguém pra ouvir o Chico. Ele fala e sua frase fica no meio de outras, pagamos a penitência, mostramos a tolerância, não damos nenhum destaque e ela morre, feito traque.

E foi assim que de noite, por volta das 20 horas, saiu o jovem repórter atrás da sua matéria. Ligou para o intermediário que frequentava o Olimpo e tinha acesso a Zeus, e pediu a frase santa, que seria a água benta batendo em testa de ateu: se conseguisse a frase, nunca mais o purgatório da reportagem geral: iria direto pro céu.

O produtor cauteloso, levou o recado ao Chico. Ele negou de imediato, mas depois, considerou. Seus olhos brilharam muito, parecia estar a mil, andou de um lado a outro, abriu o baú de lembranças e de um Pasquim amarelo, saltou o Fradinho do Henfil. 

Sem demora esculpiu frase de quatro palavras: e não era de sua lavra, muito menos do Henfil.

O repórter reportou para o chefe de plantão que gritou para o Ascânio: temos a frase de Chico, e, para nossa surpresa, finalmente reconhece o mérito de nossa imprensa. E, em letras garrafais se lia o elogio mendaz: Globo faz a diferença.

Aí um velho fantasma, a alma de dr. Roberto, que sempre andava por perto vigiando suas crianças, rugiu como vento cortante: Ascânio, ó seu demente, veja o que tem na sua frente e não me exponha ao ridículo, que a intenção do textículo é nos expor ao escárnio.

E foi assim que a frase não saiu mas pouco importa. Para evitar mais atrito é possível que se torne um novo samba de Chico. 

Gente que faz a diferença


Luís Nassif
No GGN

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