14 de jul de 2017

A verdade sobre o “14 de Julho”, a data nacional da França


O feriado de “14 de Julho”, data nacional da França, é considerado, por muita gente, inclusive franceses, como a celebração da célebre Tomada da Bastilha – fato que marca, tradicionalmente, o início da Revolução Francesa, o fim do absolutismo monárquico. Certo? O fato sim, a data nacional não. Há dois “14 de Julho” na história da revolução e, por isso, a confusão com as datas.

Tomada da Bastilha, 14 de Julho de 1789

No dia 12 de Julho de 1789, Camille Desmoulins um advogado gago, mas brilhante orador, fez um inflamado discurso diante da multidão reunida nos jardins do Palais-Royal, em Paris. Anunciou que Necker, responsável pelas finanças da França, havia sido demitido e que isso era sinal de retrocesso da monarquia contra o povo. Enfiando duas pistolas no seu casaco, conclamou a todos formarem milícias para se defenderem do exército do rei. “Ás armas!”, ressoou seu grito por toda cidade.

No dia seguinte, centenas de populares, investiram contra os Inválidos, um antigo hospital militar onde se concentrava um razoável arsenal. Saquearam 3 mil fuzis e 20 canhões. Mas não encontraram pólvora.

Correu o boato de que a pólvora estava estocada na Bastilha, uma antiga fortaleza que servia de prisão. Com suas enormes muralhas de 25 metros de altura, a fortaleza era, para o povo, um símbolo do despotismo real. Dizia-se que, em suas masmorras, centenas de prisioneiros políticos apodreciam sob os olhos de soldados sanguinários, prontos para massacrar a população à ordem do rei. Invadir a fortaleza tornou-se, então, alvo da fúria popular contra toda exploração, miséria e injustiça sofrida.

Tomada da Bastilha, 14 de Julho de 1789 Tomada da Bastilha, em Paris, 14 de Julho de 1789. O comandante
Bernard de Launay (à direita) é capturado. Pouco depois, sua cabeça desfilaria na ponta de uma lança.
Óleo sobre tela, anônimo, data desconhecida.
Para lá seguiram cerca de mil pessoas armadas, na manhã do dia 14 de Julho. Ao ver a multidão furiosa às portas da Bastilha, o comandante Bernard de Launay tentou negociar: abriria os portões se fosse poupado. Ele não tinha alternativa, a fortaleza estava vulnerável, defendida por uma pequena guarnição de 110 soldados desmobilizados e somente três canhões em condições de uso.

Launay abriu os portões e logo foi agarrado e decapitado. Sua cabeça foi espetada em uma lança e carregada em macabro triunfo pelas ruas. Os demais soldados foram abatidos sem piedade e outros rapidamente passaram para o lado dos revoltosos.

A turba violenta invadiu as dependências da fortaleza e, para sua surpresa, não encontrou pólvora. Nas celas, havia apenas sete presos: 4 falsários, um aristocrata acusado de devassidão e dois loucos. Tamanho esforço para tão pouco resultado! Mas o fato tinha um forte significado: um símbolo da monarquia absolutista fora derrubado naquela manhã de verão. A tomada da Bastilha era apenas a ponta inicial de um rastilho de pólvora que incendiou Paris, depois a França e o resto do mundo ocidental.

Portanto, o “14 de Julho” comemora a Tomada da Bastilha? Não. A história é mais complexa.

Festa da Federação, 14 de Julho de 1790

Um ano depois daquele verão violento, muita coisa havia acontecido: os bens do clero foram confiscados, os nobres perderam a maioria de seus privilégios e foi aprovada a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A declaração assegurava, aos cidadãos, os direitos civis: liberdade de pensamento e expressão, igualdade perante a lei, defesa da propriedade, direito de se rebelar contra os abusos do governo.

O rei Luis XVI e sua família não residiam mais na tranquila e distante Versalhes. Desde outubro de 1789, foram obrigados a se mudarem para Paris, no coração dos tumultos populares.

Estava em andamento uma Assembleia Nacional Constituinte e o rei acenava que concordava com isso e iria obedecer as leis.

Diante desses acontecimentos, a cidade respirava otimismo, a revolução parecia caminhar para um final feliz. Era preciso comemorar as conquistas obtidas, a reconciliação do povo com a monarquia, esquecer e perdoar as violências e o sangue derramado. A festa ganhou o nome de Festa da Federação e a data escolhida foi o 14 de Julho, de 1790.

Festa da Federação, 14 de julho de 1790 Festa da Federação, em Paris, 14 de Julho de 1790.
Gravação de Isidore S. Helman sobre desenho de C. Monnet, 1790. Biblioteca Nacional da França.
O festejo ocorreu no Campo de Marte, em Paris. Ali foi construída uma imensa arena para 100 mil pessoas. No centro, ergueu-se o Altar da Pátria, de 6 metros de altura. As obras foram realizadas em clima de fraternidade e entusiasmo. Deputados e nobres, de camisas arregaçadas, ajudaram nos preparativos. Conta-se que até o rei foi visto com uma enxada nas mãos.

No Altar da Pátria, o bispo Talleyrand celebrou uma missa solene, com a presença de 300 padres e 400 coroinhas! No final da grande cerimônia, o rei vem para a frente e, na presença da rainha Maria Antonieta e do delfim (príncipe herdeiro) e, diante da multidão, jura fidelidade à Constituição (que só seria promulgada no ano seguinte). Gritos de “Viva o rei” e “Viva a Pátria” ecoaram entre a multidão.

A grande festa de unidade nacional, contudo, não sobreviveu por muito tempo. A revolução tinha apenas começado e muitas cabeças ainda rolariam, inclusive a do rei e da rainha, três anos depois. Viria Robespierre e o Terror, Napoleão Bonaparte etc.

A escolha da Data Nacional

Havia, na França, um consenso da importância do 14 de Julho. Mas qual deles? A tomada da Bastilha, um motim popular sangrento que desencadeou um processo revolucionário com todo tipo de excessos? A Festa da Federação, uma comemoração pacífica e reconciliadora?

Em 1880, o governo francês proclamou o 14 de Julho como data nacional evocando a Festa da Federação que, para os deputados, representava mais o espírito nacional. Em uma época de agitações operárias e crescimento do movimento socialista não era prudente celebrar uma revolta popular. Era melhor uma data que evocasse uma festa pacífica do que um evento que insuflasse o povo contra o governo.

Assim, a cada 14 de Julho, a França comemora, oficialmente, uma antiga celebração patriótica, ocorrida em 1790, abençoada pela Igreja e dirigida por um governante.

Na memória coletiva, contudo, a data continua sendo associada à tomada da Bastilha e é na atual Praça da Bastilha, em seus bares e restaurantes, que os franceses erguem brindes ao fim do despotismo e à soberania popular.

Fonte

Le 14 Juillet, fête bourgeoise ou révolutionnaire? Le Point.

Site Camille Desmoullins.

SCHAMA, Simon. Cidadãos. Uma crônica da Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

No Ensinar História



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