6 de jul de 2017

A mudança forçada de endereço da Editora Abril é só a face mais visível de uma crise sem saída

O edifício que era da Abril na Marginal Pinheiros: inadimplência dos alugueis
Aventada há dois anos, a mudança do QG do Grupo Abril, dono da maior editora do País, voltou à ordem do dia.

Desta vez, a iniciativa seria da Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco de Brasil, proprietária do Birmann 21, o vistoso prédio de 25 andares, 61 780 metros quadrados de área e 149 metros de altura.

Segundo fontes familiarizadas com a empresa da família Civita, o motivo seria a inadimplência – em bom português, o não pagamento –  dos alugueis devidos pelos dez andares atualmente ocupados, há pelo menos um ano.

A saída da Abril, que entre 1997 e 2015 foi a única inquilina  do edifício, teria sido uma iniciativa da Previ, de olho na valorização dos imóveis corporativos na região, às margens do Rio Pinheiros, em São Paulo.

Visto com reservas desde sempre por muitos antigos executivos do grupo — mesmo nos períodos de abundância — por seu alto custo, o suntuoso prédio tornou-se um fardo para a Abril, às voltas com a mais severa crise de sua história, que a obrigou a promover um profundo processo de reestruturação, com o fechamento ou venda de publicações  e a liquidação de ativos.

No entanto, o downsizing se mostrou insuficiente para recolocar o grupo nos trilhos.

Segundo o balanço de 2016  auditado pela PricewaterhouseCoopers (PwC), a Abril acumulou nos dois últimos anos um prejuízo de R$ 368 milhões, registrando um patrimônio líquido negativo de R$ 368,2 milhões.

Já o excesso de passivos sobre os ativos circulantes chegou a R$ 578,8 milhões.

Nem mesmo o aporte de R$ 450 milhões feito no final de 2015 pelos herdeiros de Roberto Civita, o dono do grupo, falecido em 2013, foi capaz de amenizar as vicissitudes da Abril, cujo principal negócio, a edição de revistas, sofreu uma queda de 15% nas receitas publicitárias em 2016.

De acordo com o balanço, o endividamento por conta de empréstimos e financiamentos a longo prazo é da ordem de R$ 534 milhões, pagáveis até 2019.

Esse quadro sombrio levou a PwC a registrar na nota introdutória de sua avaliação dos resultados do ano passado sua preocupação com o futuro da companhia.

“Essa situação, entre outras descritas na nota 1.2, indica a incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre sua continuidade operacional”, afirmaram os responsáveis pelo trabalho no melhor auditoriês.

Daí a decisão de acatar a proposta de saída da Previ e procurar uma nova sede.

O endereço mais provável é o bairro do Morumbi, na outra margem do Rio Pinheiros, num prédio mais modesto e mais em conta, possivelmente da própria Previ.

Ao  desconforto pela mudança das instalações, prevista, em princípio, para o mês de agosto, soma-se um temor entre os funcionários: a possibilidade de que nem todos venham a trabalhar nas novas instalações.

Não está descartada, segundo a fonte, uma nova leva de demissões. Que, diga-se, poderá atingir até os holerites mais fornidos.

Procurada pelo DCM, a Abril não quis se manifestar.

Roberto Civita (centro) entre os filhos e diante do busto do fundador Victor, removido do edifício

Miguel Enriquez
No DCM

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