15 de jul de 2017

A falsa dicotomia entre grandes meios de comunicação e mídias sociais


As mídias sociais digitais surgem como um fenômeno novo especialmente a partir do começo do século XXI. Pelo seu caráter de novidade e por todas as potencialidades que estes meios parecem oferecer, tornaram-se objeto de inúmeras análises acadêmicas, mercadológicas ou simplesmente opinativas. Apesar de compreender a necessidade de analisar separadamente esta nova mídia, me parece que essas leituras criaram uma falsa dicotomia entre os grandes meios de comunicação[i] e estas novas mídias que é pouco produtiva para o entendimento da realidade em que eles se inserem e das possibilidades de transformá-la.

Para discutir essa questão, vou usar como ponto de partida uma pesquisa muito interessante realizada pela Fundação Perseu Abramo e intitulada “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo”. Ela foi feita no final de 2016 e publicada em maio de 2017 e busca entender como os moradores das periferias de São Paulo concebem questões políticas tais como o papel do Estado, a meritocracia, o papel dos políticos, entre outras. Meu objetivo aqui não é discutir a pesquisa em si, mas simplesmente partir de uma questão que me ocorreu durante a leitura dos resultados dela.

Na verdade, o que me chamou atenção é a concepção de comunicação que orienta algumas afirmações que são feitas no relatório. “A formulação e debate sobre a política se dão de forma superficial e ainda de acordo com a agenda definida pela mídia hegemônica”, afirma o ponto 1 da seção Resultados Gerais da pesquisa. Parece-me uma afirmação que faz bastante sentido imaginando que os pesquisadores chamam de “mídia hegêmonica” sejam as grandes empresas de comunicação.

O papel de agenda setting (ou seja, de construir uma agenda pública) dos meios de comunicação é um fenômeno bastante conhecido e estudado, mas porque então a palavra “ainda” aparece nessa frase? Parece-me que havia uma expectativa de mudança não confirmada. Algo que poderia ter ocorrido, mas não ocorreu. Isto não está explícito no relatório, mas o que parece estar por trás desta simples palavra é uma expectativa de que este espaço de construção da agenda pública fosse redirecionado para um outro ator social que não os grandes meios de comunicação (ou meios hegemônicos, como dito no relatório, ainda que, há de se considerar que qualquer mídia que assumisse esse papel de tamanha importância social provavelmente deveria ser considerada hegemônica).

Imagino eu que esta expectativa é colocada exatamente sobre as chamadas (e aclamadas) mídias sociais. De novo, ressalto que esta cadeia de inferências sou eu quem estou fazendo a partir de experiências e diálogos que extrapolam o que está textualmente escrito no relatório. Portanto, a afirmação de que a agenda “ainda” é definida pela “mídia hegêmonica” seria na verdade uma percepção de que as mídias sociais ainda não ganharam tanta importância assim, não chegaram até onde poderiam chegar. A questão que se coloca aqui e que, do meu ponto de vista, invalida essa argumentação é que não é possível analisar grandes meios de comunicação e mídias sociais como atores sociais antagônicos. Um não ganha necessariamente espaço quando o outro perde e vice-versa. Isso é uma falácia. Acredito que existam algumas razões pelas quais essa dicotomia não funciona.

O falso antagonismo entre grandes meios de comunicação e mídias sociais

A primeira razão é que grande parte do conteúdo que circula nas mídias sociais vem dos grandes meios de comunicação. Se pararmos para observar nossa timeline do Facebook ou Twitter, por exemplo, veremos que uma parcela importante do conteúdo que vemos ali faz alguma referência aos grandes meios de comunicação. Desde uma matéria postada sem comentários até textos de repúdio a uma determinada pauta ou enquadramento, boa parte do conteúdo que circula nas redes é pautado pela própria “mídia hegemônia”. É claro que há, sim, diferenças de temporalidade e de diversidade de temas presentes nos debates nesses ambientes, mas a relação com os grandes meios de continua sendo essencial. Ou seja, o fato de as pessoas comentarem e estarem pautadas por temas que foram noticiados pela mídia tradicional não significa necessariamente que as redes sociais tenham pouca influência. É de se esperar, inclusive, que boa parte do contato que as pessoas têm com essas pautas venha destes ambientes de sociabilidade online. Tampouco faz sentido imaginar que à medida que estes ambientes forem mais presentes e influentes na vida dos cidadãos, os grandes meios de comunicação necessariamente deixarão de ter importância ou centralidade.

Democratização da emissão não equivale a democratização da visibilidade

Do meu ponto de vista, essa leitura dicotômica é justificada ainda por uma outra concepção equivocada: a de que a democratização do direito de fala equivale à democratização da visibilidade. O pressuposto é que, a partir do momento em que, nas mídias sociais, todos podemos publicar o que pensamos, cada um de nós se torna capaz de estabalecer suas próprias pautas e mobilizar pessoas em torno delas. Se, por um lado, isto é verdade, por outro não se pode desconsiderar as enormes desigualdades de visibilidade que existem nas mídias sociais e na internet de forma geral. O simples fato de você poder ter um canal de expressão não garante muita coisa em termos de efeitos sociais amplos do que se escreve ali. Desde número seguidores, passando por algoritmos (do Google e do Facebook, para dar alguns exemplos) e chegando ao capital social de quem emite a mensagem, os elementos que interferem na amplitude que uma mensagem pode ter na rede (e em qualquer outro lugar) são muitos. Portanto, grandes meios de comunicação têm e, acredito eu, continuarão tendo, um papel central nas conversações nestas plataformas e na sociedade.

Meios de comunicação como produtos e produtores da sociedade

Além disso, a construção de uma agenda pública me parece um processo extremamente complexo, que vai muito além da simples e suposta capacidade de imposição dos meios de comunicação sobre os cidadãos. Acredito que pode ser produtivo pensar os meios de comunicação como produtos e produtores da sociedade em que se inserem. O problema é que nos dedicamos com muito mais frequência a discuti-los como produtores (e portanto culpados por todas as concepções vistas como “equivocadas” ou “parciais” que os cidadãos possam ter) do que como produtos. Gastamos pouco tempo tentando entender quais são os aspectos sociais que motivam um meio de comunicação a decidir tratar um tema de uma forma mais conservadora (por exemplo, a forma como motivações comerciais estimulam os meios de comunicação a se adequarem a determinadas concepções pré-existentes na sociedade). Enquanto isso, empenhamos grande energia em culpabilizá-los pela produção de uma enormidade de problemas sociais. Não estou aqui desconsiderando o papel ativo dos meios de comunicação na construção social e seu papel na construção de hierarquias e subjetividades, na escolha dos problemas a serem pautados e na eleição de posicionamentos. Argumento apenas que, ao deixar recair toda a responsabilidade sobre eles, muitas vezes fechamos os olhos para fenômenos sociais mais complexos em curso, desconsideramos o papel de outros atores sociais e políticos no processo.

Todos estes argumentos são apenas para dizer que, talvez, um entendimento mais complexo da nova realidade comunicacional que vivemos hoje nos ajudasse a construir alternativas mais consistentes e com maior potenciial transformador. Alternativas que, ao entender a complexidade deste ambiente, conseguem se utilizar das potencialidades e desigualdades que ele trás para tentar construir algo novo e que mude um pouco a balança de poder. Para não dizer que não falei de flores, cito aqui, rapidamente três exemplos que considero exitosos neste sentido.

Agência Mural é uma agência de jornalismo das periferias de São Paulo. Mantida na base do trabalho voluntário e da dedicação de seus membros, ela é um exemplo de projeto que dificilmente poderia existir em um ambiente sem comunicação digital e mídias socias. No entanto, quem acompanha o projeto pode ver que eles tomam constantes decisões de não deixar passar espaços de visibilidade e de enfrentamento dentro dos grandes meios de comunicação. Exemplo disso é o blog que mantêm dentro da Folha de S.Paulo.

Mídia Ninja é outro projeto de comunicação característico do ambiente digital. Popularizada com a estratégia das transmissões ao vivo (que até bem pouco tempo eram bastante escassas e rechaçadas no meio político), hoje essa iniciativa de comunicação ganha formato de canal de televisão online explorando uma das características típicas deste ambiente: a diversidade. Se você entrar no site deles, vai cansar de descer a barra de rolagem antes de chegar no final da lista de colunistas. Sem dúvida, o que vem à mente para quem está acostumado a ver as enxutas listas dos iluminados colunistas dos meios de comunicação tradicionais é: tem tanta gente colunista que qualquer um pode falar aqui. Se por um lado isso pode gerar uma sensação de banalização, por outro trata-se de uma abertura de espaço para uma enormidade de vozes que podem não encontrar espaço em outros meios. Essa sensação dicotômica me parece que deixa clara a opção de modelo de comunicação feita pelo grupo: aqui, vamos dividir nossa visibilidade entre muitas vozes. É claro que, de novo, isso não garante que todos serão ouvidos e menos ainda que serão ouvidos por igual, mas me parece que como projeto de comunicação online ele entende bem o ambiente em que está inserido.

Havana Connection é um programa de debates exibido online e hospedado no site da UOL. O nome é uma sátira com o conhecido programa da Globo News, Manhattan Connection. O mediador, Leonardo Sakamoto, jornalista conhecido e reconhecido especialmente pelo seu trabalho de denúncia de trabalho escravo. Os participantes: Guilherme Boulos, coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Jean Wyllys, deputado federal pelo PSOL e Laura Capriglione, jornalista com grande experiência nos grande veículos da imprensa brasileira. A fórmula aqui, diferente da Mídia Ninja, é juntar quatro atores sociais já reconhecidos em suas áreas de atuação, optar pela hospedagem em um site de alta audiência, escolher temas do momento e abordá-los com uma ótica pouco vista nos grandes meios de comunicação, inclusive no próprio UOL. De novo, é uma iniciativa que entende as potencialidades e limitações do mundo digital e sabe lidar com elas.

Como estes, tantos outros projetos interessantes estão pipocando por aí. Utilizei-os como exemplo apenas para tentar deixar mais claro como, na prática, se concretizam iniciativas que compreendem esse ambiente de rede de forma mais complexa.

Tanto nos debates cotidianos, quanto na elaboração de políticas públicas, entender os grandes meios de comunicação e as mídias sociais como dois universos separados e antagônicos não parece uma forma efetiva de enfrentar o real problema de comunicação que temos hoje no país. Precisamos nos libertar dessa dicotomia para poder avançar mais nesse campo que se mostra cada vez mais central na sociedade brasileira.

[i] Utilizo a nomenclatura “grandes meios de comunicação” para me referir aos meios de comunicação existentes e dominantes antes da chegada da internet como os grandes grupos de televisão, jornais impressos e revistas, ainda que hoje essa nomenclatura seja extremamente imprecisa já que seria impossível não colocar entre estes grandes meios empresas típicas do meio digital, como Facebook e Google.

Nina Santos é doutoranda no Centro de Análise e Pesquisa Interdisciplinar sobre os Media (CARISM) da Universidade Panthéon-Assas. Tem mestrado em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia e especialização em Comunicação e Política pela mesma instituição. Tem experiência profissional no campo da comunicação política, democracia eletrônica e mídias sociais. Durante três anos e meio foi Editora de Mídias Sociais do Instituto Lula.
No GGN

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