6 de jun de 2017

Uma tristeza


O impeachment de Dilma foi “justificado” formalmente por irregularidades menores (as pedaladas), e, informalmente, pelos protestos nas ruas, comandados por organizações de direita, contra a corrupção na qual se envolvera não a presidente mas o PT. O impeachment foi pedido por Aécio Neves no dia seguinte à derrota eleitoral, e agora pesam sobre ele acusações muito mais graves. E serviu de alavanca para o golpe patrocinado por políticos oportunistas do PMDB, mas só se consumou graças ao apoio liberalismo financeiro-rentista representado politicamente pelo PSDB. Por que a fúria rentista, se o PT no governo não mudou o regime liberal de política econômica instalado no Brasil a partir de 1990? Apenas porque o partido fazia uma opção preferencial pelos pobres?

A direita brincou de aprendiz de feiticeiro às custas do povo brasileiro. Agora está claro que Temer está profundamente envolvido na corrupção. Seu elogio a Rodrigo Rocha Loures Filho, dizendo que ele é uma pessoa de boa índole e não delatará, é uma confissão. Amanhã começa seu julgamento pelo TSE. A questão formal é saber se a chapa Dilma-Temer se beneficiou de dinheiro sujo. Não há dúvida que isto ocorreu, mas este está longe de ser o maior pecado de Temer. Não resta aos juízes do TSE alternativa senão cassar seu mandato.

Cassar Temer tornou-se uma questão moral. A desmoralização a que foi levado o Brasil por políticos e empresários corruptos é impressionante e exige que alguma coisa se faça. Ao mesmo tempo, desde 2014, o PIB per capita caiu 11%. Cassado ou não Temer, o país continuará em crise econômica, política e moral. A coalizão de classes financeiro-rentista continuará dominante, o regime liberal de política econômica continuará em vigor, e Brasil continuará a ficar para trás. Uma tristeza.

Luiz Carlos Bresser-Pereira

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