7 de jun de 2017

Quem é o misterioso Edgar suspeito de receber propinas em nome de Temer

Polícia Federal não faz ideia de quem seja Edgar, usado por Rodrigo Rocha Loures para receber propina em espécie da JBS, em nome do governo Temer. Pelas informações da Lava Jato, trata-se de alguém próximo do presidente e que trabalha de São Paulo. Na década de 1990, Temer dividiu escritório de advocacia com um Edgar


Uma das 82 perguntas que a Polícia Federal enviou a Michel Temer, a reboque das acusações da JBS à Lava Jato, questiona se o presidente conhece "Edgar".

"Vossa Excelência tem alguém chamado ‘EDGAR’ no universo de pessoas com quem se relaciona com certa proximidade? Se sim, identificar tal pessoa, mencionando a atividade profissional, eventual envolvimento na atividade partidária, descrevendo, ainda, a relação que com ela mantém."

O misterioso Edgar aparece em conversas gravadas por Ricardo Saud, da JBS, com Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor especial de Temer, preso no último sábado (3), após ser flagrado pela PF carregando uma mala com R$ 500 mil em propina. 

Um relatório da Lava Jato mostra que Saud, em encontro com Loures, citou um atual esquema de corrupção em benefício dos interesses do grupo J&F junto ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que renderia a coleta de R$ 500 mil em propina, em média, por semana. 

Saud demonstrou urgência em decidir quem seria o responsável por retirar o dinheiro. Loures, então, afirma que vai conversar com Edgar, que seria o novo responsável por intermediar o recebimento da propina, pois "outros caminhos estavam congestionados". 

"Pelo conteúdo da conversa", diz a Lava Jato, "a aceitação dos valores ilegitimos já tinha se processado, restando pendente de definição a forma como seriam realizados os pagamentos periódicos. Antecipadamente, RODRIGO LOURES mencionou que caberia à pessoa de EDGAR intermediar tais operações (uma vez que 'outros caminhos estavam congestionados'), chegando a aventar, ao final, a inserção de alguma empresa para a emissão de notas fiscais."

O pagamento com nota fiscal foi descartado por Saud e ficou acertado, então, que a transação seria em espécie e ocorreria em um colégio de São Paulo. "Ao tratarem mais a fundo dessa possibilidade, RODRIGO foi claro ao afirmar, em suma, que o 'coronel' não poderia mais apanhar o dinheiro, razão pela qual tal tarefa seria confiada a 'EDGAR' ou a 'RICARDO', este mencionado como "xará"." 

Coronel, para a Lava Jato, pode ser um amigo de Temer desde a década de 1990, que se chama João Baptista Lima Filho, mais conhecido como Coronel Lima - também objeto de perguntas da Polícia Federal ao presidente. A JBS afirma ter entregue ao Coronel Lima R$ 1 milhão em propina com destinação a Temer.

Edgar ainda não foi identificado pelos investigadores, mas Ricardo, o "xará" citado na conversa como alternativa a Edgar no recebimento de propina, é Ricardo Conrado Mesquista, vinculado à Rodrimar, na visão da Lava Jato.

Uma reportagem de 2001, da Folha, mostra que Temer também tem um Edgar em seu circulo de amizades desde os tempos de deputado federal. Trata-se de Edgar Silveira Bueno Filho. Não necessariamente o Edgar buscado pela força-tarefa. Mas um especialista em "agências reguladoras e concorrenciais", justamente o assunto que dá dor de cabeça à JBS.

Edgar Bueno é desembargador aposentado do Tribunal Regional Federal de São Paulo e foi presidente da Ajufe (Associação dos Juízes Federais) em 1993. De acordo com a Folha, "dividiu escritório de advocacia com o deputado federal Michel Temer (PMDB-SP)".

O advogado chegou a palestrar sobre a revisão judicial dos atos administrativos de órgãos reguladores e de defesa da concorrência em 2003, em seminário organizado pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal. 

O ex-sócio de Temer aparece ligado a escândalo envolvendo a desapropriação de um prédio pelo TRF, em 1990. O Ministério Público considerou a expropriação indevida porque o imóvel teria sido superfaturado (valia 10% do valor cobrado por ele). 

O caso, segundo o jornal, gerou à União um prejuízo de R$ 200 milhões. Após a investida do MP contra a desapropriação, o poder público recuou, mas não sem a família dona do imóvel entrar com uma ação bilionária de indenização. Edgar Bueno teria feito a defesa da família, contratado por Roberto Elias Cury. Leia mais aqui.

Pode ser apenas coincidência de nomes. Pode ser que não.

A prisão de Rocha Loures deve elucidar a dúvida sobre a identidade de Edgar.


Cíntia Alves
No GGN

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