13 de jun de 2017

Qual a aposta da Globo?


Está nítido, nas últimas semanas, que o principal veículo de comunicação alterou sua linha político-editorial.

Durante mais de dois anos, desde o início da ofensiva golpista, sua lógica era seletiva e focada: criminalizar e interditar o PT, o governo Dilma e o ex-presidente Lula. Assim atuava, ao lado do restante da mídia monopolista, em conluio com setores do MPF, da PF e do Poder Judiciário.

As gravações do proprietário da JBS com Temer, associadas ao flagrante contra Aécio Neves, levaram o grupo empresarial à conclusão que sua estratégia fracassara: os partidos e políticos tradicionais da direita não serviam mais de anteparo contra o PT e a esquerda, o campo progressista retomava capacidade de mobilização e apoio social, o crescimento constante de Lula nas pesquisas eleitorais revelava que a seletividade da Lava Jato perdera efeito e se voltava contra os golpistas.

O cavalo de pau da Globo, nessas circunstâncias, foi passar a um bombardeio generalizado de todo o sistema político, como preço a pagar para impedir o retorno das forças populares ao governo. A seletividade deveria ser enterrada, com Temer e o PSDB passando ao centro dos ataques por certo tempo, até que houvesse recuperação de eficácia da narrativa comunicacional.

A Globo lançou-se a uma guerra atômica contra o sistema, compreendida como o único caminho para atacar a esquerda com certa credibilidade e chance de êxito.

Essa mudança torna a situação mais complexa para o bloco petista.

Há quem aposte, na prática, em uma aliança implícita com Temer e os partidos conservadores, colocando o combate à criminalização da política como alvo central.

Seria grave erro cair nessa armadilha, ainda que a denúncia contra o arbítrio e as violações constitucionais deva continuar a receber ampla e crescente atenção.

Tudo o que a esquerda não pode fazer é esmaecer sua identidade, fotografada ao lado da coalizão que tomou o governo de assalto, mesmo que seja como papagaio de pirata. Nada ajudaria mais a nova orientação da Globo.

Ao contrário, deveria ganhar ainda mais impulso a centralidade do combate contra o governo usurpador e suas contrarreformas, em favor de imediatas eleições para presidente da República.

O novo comportamento da principal emissora do país abre uma fissura no bloco golpista, desloca potencialmente setores médios para a oposição e abre caminho para uma potente escalada do campo popular, permitindo que o petismo e seus aliados recuperem espaço como alternativa anti-sistema.

A propagação de atos políticos-culturais contra Temer e por diretas, muitas vezes convocados por artistas liberados pela Globo, é um sinal positivo dessa contradição que se estabeleceu nas elites.

Se formos firmes, audaciosos e generosos, tempos melhores virão.

Breno Altman

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