8 de jun de 2017

‘O Edgar que trabalha para o presidente’

Executivo da J&F filmou e gravou no dia 28 de abril conversa com o ex-deputado Rocha Loures, ex-assessor especial de Temer preso na Papuda, acertando entrega de R$ 500 mil em espécie por meio de um suposto aliado 'do chefe'


Quando já havia acertado sua delação premiada com o Ministério Público Federal, o executivo Ricardo Saud, da J&F, filmou e gravou, no dia 28 de abril deste ano, encontros nos quais acertou e repassou a Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), a mala dos R$ 500 mil, em um restaurante, em São Paulo. Hesitante em pegar o dinheiro naquela ocasião, o peemedebista chegou a sugerir um tal ‘Edgar’ para buscar os valores, já que ‘todos os outros caminhos estavam congestionados’.



Nesta semana, a Polícia Federal encurralou Temer com 82 perguntas sobre as suspeitas que o circundam no âmbito da Patmos. Uma delas questionava o presidente sobre quem seria ‘Edgar’. O presidente ainda não respondeu o interrogatório da PF.




Loures foi flagrado, em ação controlada da Polícia Federal, correndo com a mala dos R$ 500 mil – 10 mil notas de R$ 50 – na porta de uma pizzaria, em São Paulo.

Gravações mostram que ele tentou outras possibilidades para buscar o dinheiro com o executivo da J&F Ricardo Saud.

“Eu vou verificar com o Edgar se ele… tem duas opções, ou o Edgar, ou seu xará”, afirmou Loures a Saud, em gravação.

Em outro áudio, Loures ainda afirma que vai ‘pedir para o Edgar’ para avaliar a maneira com a qual o repasse pode ser feito.

“Vou pedir para o Edgar primeiro consultar com ele e ver se o procedimento pra ele. O nome dele é Edgar. Eu vou perguntar para o Edgar, Ele fica em São Paulo e ele que faz a gerência”, afirma.

Uma das alternativas sugeridas por Loures foi a emissão de notas fiscais, mas, no áudio, Ricardo Saud diz preferir o uso do interposto, já que a utilização de empresas poderia deixar rastros do repasse.

“O negócio está bom. Semana que vem, tem um milhão e meio. Podemos fazer a nota, mas quanto ia dar de imposto? 300 paus. Ou então, pra mim Se esse Edgar for um cara confiável, o melhor jeito sabe qual é? Ele vai lá no estacionamento. Já foi lá, né?”, afirmou.

O estacionamento mencionado por Saud faz parte da escola Germinare, projeto social bancado pelo Grupo JBS desde 2009. No mesmo lugar, a irmã do doleiro Lúcio Funaro foi filmada pela Polícia Federal pegando R$ 400 mil do porta malas de um carro deixado lá pelo executivo da J&F.

Na conversa, Saud ainda questiona se o interposto é ‘o Edgar que trabalha para o presidente’. “Bom, se é da confiança do chefe, não tem problema nenhum”.

“Você não conhece e ele também não te conhece”, respondeu Loures a Saud.

Apesar das indicações, o então deputado federal acabou combinando, no mesmo dia, de pegar a mala de propinas em uma pizzaria indicada por ele, em São Paulo na rua Pamplona. Saud também filmou o diálogo, em um estacionamento.

O valor seria entregue semanalmente pela JBS ao peemedebista, em benefício de Temer, como foi informado, nas gravações, pelo diretor de Relações Institucionais da holding.

“Eu já tenho 500 mil. E dessa semana tem mais 500. Então você te um milhão aí. Isso é toda semana. Vê com ele [Michel Temer]”, afirmou Saud a Loures.

O homem da mala é acusado de exercer influência sobre o preço do gás fornecido pela Petrobrás à termelétrica EPE – o valor da propina, supostamente ’em benefício de Temer’, como relataram executivos da JBS, é correspondente a 5% do lucro que o grupo teria com a manobra.

Com a palavra, Temer

A reportagem procurou o presidente Michel Temer, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço está aberto para manifestação.

Com a palavra, a defesa de Rocha Loures

O advogado Cezar Bitencourt afirmou que, por enquanto, não se manifestará sobre o mérito das investigações e informou a reportagem de que pediu acesso ao material colhido pela Polícia Federal, mas ainda não o obteve. “Devo ter acesso nesta quinta-feira”, afirmou.

Luiz Vassallo e Julia Affonso

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