7 de jun de 2017

Não toquem no cabelo de Loures


Se essa é a condição para o ex-assessor de Temer contar tudo o que sabe, ninguém ouse raspar suas madeixas

Enquanto prossegue o julgamento imprevisível da chapa Dilma/Temer no TSE, a Polícia Federal aperta o cerco nas investigações sobre crimes de corrupção e obstrução de Justiça cometidos pelo presidente Michel Temer. Mesmo que escape da cassação do mandato pelo TSE (se condenado, deve entrar com recurso), Temer dificilmente deixará de ser alvo de denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao STF, com base no inquérito a cargo da PF. Por mais que ele insista em negar as relações dolosas com Joesley Batista, nenhum dos argumentos resiste ao flagrante de seu ex-assessor Rodrigo da Rocha Loures saindo do restaurante Camelo, na rua Pamplona, em São Paulo, com uma mala carregada de notas no valor total de R$ 500 mil.

Numa variante da expressão francesa “cherchez na femme” (procure a mulher), os manuais sobre apuração de crimes recomendam “follow the money”. E é exatamente isso que a PF está fazendo ao centrar o foco das investigações na mala de dinheiro recebida pelo ex-deputado Loures. Mais do que uma simples evidência, é uma prova robusta de corrupção. Por mais que a defesa de Temer questione a qualidade das gravações feitas por Joesley no Palácio Jaburu, fica claro que Rocha Loures era o homem de confiança do presidente encarregado de fazer a ponte com a JBS, no lugar do ex-ministro Geddel Vieira Lima. Uma das perguntas da PF a Temer é a seguinte: “Vossa Excelência confirma tê-lo indicado (Rodrigo) para tal função? Se sim, quais temas estavam compreendidos nessa interlocução?”.

Na verdade, das 82 perguntas que a PF encaminhou a Michel Temer, quase a metade trata das relações do interrogado com seu ex-assessor. A começar pela pergunta que abre o interrogatório: “Qual a relação de Vossa Excelência com Rodrigo da Rocha Loures?”. A terceira questão é ainda mais específica: “Rodrigo da Rocha Loures é pessoa da estrita confiança de Vossa Excelência?”. Como se vê, “Vossa Excelência” está com a corda no pescoço. O ex-assessor de total confiança, evidentemente, agiu em nome do chefe. E a mala de R$ 500 mil era apenas o primeiro de uma série de pagamentos semanais que, ao fim de 20 anos, somariam cerca de R$ 600 milhões.

Diante do flagrante, a defesa de Rocha Loures diz que seu cliente foi vítima de uma “cilada” armada pelo dono da JBS, Joesley Batista. Chega a ser ridículo. O sujeito tem um encontro com um diretor da JBS num restaurante, sai dali com uma mala nas mãos recheada de reais e afirma que foi vítima de armação. Além disso, só devolveu o dinheiro depois de ser denunciado e assim mesmo faltavam R$ 35 mil. Portanto, Loures não tinha qualquer dúvida sobre o conteúdo da mala. Não só recebeu os R$ 500 mil sem pestanejar, como gastou parte da quantia. Onde está a cilada?

Rocha Loures é a testemunha-bomba contra Temer. Se abrir a boca encerrará a carreira política do chefe. Diz o ministro Padilha que o ex-assessor não fará delação porque é um homem “ético”. Já Temer afirma que Loures é de “boa índole”. Se o Palácio elogia o ex-deputado e torce por seu silêncio, é porque ele tem muita coisa a revelar. Em ofício ao STF, a defesa de Loures pediu que não lhe seja imposto “tratamento desumano e cruel” e que ele não tenha o cabelo cortado. Se essa for uma condição para que Rocha Loures conte tudo o que sabe, o ideal é que os agentes penitenciários não toquem num fio de cabelo do ex-assessor de Temer. Deixem suas madeixas em paz!

Octávio Costa
No Ultrajano

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