23 de jun de 2017

Há que se crer em uma nova sociedade, diz Santiago Feliú


O historiador cubano Santiago Ronaldo Feliú lançou, na terça-feira (06), às 19h, no Solar dos Câmara da Assembleia Legislativa, o livro “Canto Épico a la Ternura”, uma homenagem a Che Guevara, nos 50 anos do seu assassinato na Bolivia. Feliú veio ao Brasil a convite da Associação Cultural José Marti/RS e o Coletivo de Jornalistas Brasileiros Amigos de Cuba/Coordenação/RS.

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Além de escritor e historiador, Santiago Feliú é repórter da Revista Tricontinental – órgão oficial da Organização de Solidariedade dos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAAL). Como repórter, Santiago Feliú fez parte do grupo de imprensa do “Comandante em Chefe” Fidel Castro, em suas viagens. É graduado no Instituto Pedagógico Enrique José Varona, com ênfase em Historia e Marxismo, com pós–graduação e mestrado em Movimiento Obrero Internacional. Foi fundador da primeira Escola no Campo de Cuba (ESBEC) “8 de octubre”, en 1969, e professor chefe da cátedra, secretário docente, sub-diretor e diretor de Vocacional LENIN e outras ESBEC, em Havana. Atuou como diplomata pelo CC.PCC no Panamá (1987), Colombia (1994), Bolivia (1999/2003) e Guatemala (2005 /2010).

Em 1995, Feliú recebeu o Prêmio Iberoamericano de Ética, pela investigação jornalística sobre Che Guevara. Pela importância das suas obras audiovisuais foi selecionado, em 2010, para fazer parte da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC). De sua autoria foram publicadas as obras “Latinoamérica le Canta al Che Guevara” (1995) e “Nacieron al Mundo” (2014), além de realizar oito documentários sobre Che, Equador, Bolivia e Los 5 (Os Cinco antiterroristas cubanos presos nos EE.UU), e 40 vídeo clips de conteúdos políticos.

Fale nos mais sobre o que o leitor irá encontrar no livro.

Santiago Feliú: Poesias e músicas, poesias musicalizadas. O livro tem 285 páginas com 158 canções, de 100 compositores de 17 países, compostas e interpretadas após a morte do guerrilheiro internacionalista Che Guevara. Das 158 músicas, 78 são cubanas e 80 são latino-americanas. Além disso, dos 100 compositores 9 são brasileiros. O leitor irá encontrar na obra canções de venezuelanos que compuseram a partir da carta de despedida de Che, poemas concebidos como canções. O prólogo da primeira edição do livro foi escrito por Frei Beto em 1994, naquela que seria a edição brasileira. Infelizmente não pudemos lançar o livro aqui naquela época, mas lançamos em outros sete países. Agora, quando confirmado o lançamento no Brasil, pedimos que Frei Beto atualizasse o prólogo e ele aceitou de bom grado.

Como foi a construção da obra?

A ideia do livro nasceu há mais ou menos 30 anos, em 1987, momento da passagem dos 20 anos da caída de Che. Na época havia toda uma geração de jovens na América Latina que conheciam Che, mas que nunca havia ouvido ele. Então, na passagem dos 30 anos, eu e meu chefe, Comandante Pinheiro, amigo pessoal do Che, tivemos a ideia de fazer um programa de rádio que recuperasse algumas canções de Che. Procuramos e encontramos 400 fitas cassete com declarações de Che. A partir dali ouvimos todas e selecionamos fragmentos da voz do Che para incluir em um programa de rádio. Após a pesquisa e seleção, no dia 8 de outubro de 1987 distribuímos para 40 emissoras da América Latina o nosso primeiro programa de rádio, com duração de uma hora, com uma canção de um cantor cubano, uma canção de um cantor latino americano e entre cada canção um pequeno fragmento de Che falando sobre juventude, trabalho e diferentes temas. Esta foi a semente inicial. Nos anos seguintes, entre 1988 e 1991, apresentamos um programa de rádio por ano. E, no ano de 1992 decidimos juntar as canções e formatar um livro, foi quando saiu a primeira versão da obra.

Em poucas palavras o que Che representa para o povo cubano?

Tudo. Che representa o melhor dos valores e do latino-americano. Porque Che representa a valentia, a constante luta pela unidade, a amizade, a ajuda ao próximo, a integração do povo, do partido e das organizações. Representa para todo o povo, e muito mais para estes tempos que vivemos, a honestidade, a honra, a ética, coisa que há muito tempo em muitos países desapareceu e está quase em extinção. Che é tudo o que são valores e virtudes. Defeito, claro que tem, como qualquer um teria, mas representa o melhor dos valores.

O que o Brasil teria a aprender com Che e com o livro?

Todos temos que aprender com Che, uns mais que os outros. Isto é o que querem os amigos da Associação Cultural José Marti. O livro fala dos 50 anos da morte de Che, como consequência fala da imortalidade, porque ele morreu fisicamente mas não suas ideias. E, em 2018, Che completaria seus 90 anos de vida. Nossa ideia é revitalizar seus valores. Resgatar e falar como Che atuava em cada situação. Che ético, honroso, de valores, construtor de uma nova sociedade. Este que nos dá a esperança de um mundo melhor. Tem uma frase de Che que é muito usada “SE PUEDE METER LA PATA PERO NO LA MANO" (podemos meter o pé, mas não a mão). Então tem que existir a esperança de um mundo melhor. Há que se crer em uma nova sociedade. O valor que está se perdendo é o de não mentir, reconhecer erros.

Che foi e é um ícone para o povo cubano. O que te inspirou a organizar esta obra?

Meu pai trabalhou com Che durante quatro anos, quando ele era ministro. Um trabalhava no nono andar e o outro no sétimo e os dois conviviam. Meu pai falava muito das ideias e da vida de Che, então desde os sete anos conheci muito sobre a vida e suas ideias revolucionárias. Além disso, meu irmão maior, Vicente, é o autor de uma das músicas mais tocadas em homenagem a Che, ou seja, foi motivo permanente de inspiração para meu irmão. Meu chefe foi companheiro de Che em Serra Maestra, e foi o homem que coordenou a viagem de Che ao Congo e a Bolívia. Tenho múltiplas inspirações em relação a Che.

Qual é, na sua opinião, o grande legado de Che?

Um dos grandes valores de Che é que ele atuava como pensava, não era falso, não era de dizer uma coisa e fazer outra. Foi um homem que sempre atuou como pensava. E defendeu valores da nossa própria cultura de ser um homem latino americano. Nasceu na Argentina e foi naturalizado cubano, ele recebeu dupla cidadania. Che mereceu receber esta cidadania. Um homem que é capaz de morrer por uma causa pela qual crê tem todo o direito de sentir-se deste país.

Agora, é importante relembrar a nossa própria cultura, a de ser brasileiro, ser orgulhosamente brasileiro, ser orgulhosamente cubano, venezuelano, enfim. Se fala muito em idiotizar as culturas para que todos pensem igual. Não concordo, temos que resgatar nossa cultura e nosso valor. E nossa identidade latina é muito importante. Em sua carta de despedida, Che escreve aos seus filhos e fala sobre coisas pequenas, fala para confiarem na revolução "saibam que cada um sozinho não vale nada", foi o que disse. Este é o conceito da solidariedade humana.

Raquel Wunsch
No PTSul

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