14 de jun de 2017

Com a saída de tucanos históricos, o PSDB mostra sua face real: corrupto como Michel Temer

Semler pediu as contas
Com a saída de acadêmicos respeitáveis como Miguel Reale – ele é o autor do anteprojeto da Constituição de 1988 — e de lideranças empresariais progressistas como Ricardo Semler, o PSDB perde a última camada de verniz que poderia associá-lo a algo que lembrasse, ainda que remotamente, a social democracia.

O que sobra é a face de Michel Temer, que entrou na política pelas mãos de Fernando Henrique Cardoso.

No final da ditadura militar, a jornalista Sílvia Luandos era presidente do Diretório do PMDB em Indianópolis (bairro de São Paulo) quando apresentou Temer a Fernando Henrique, que se preparava para assumir o Senado no lugar de Franco Montoro.

“Conheço Michel Temer de muitos anos. Ele entrou no PMDB por meu intermédio”, registrou Fernando Henrique, no seu Diários da Presidência.

Em 1988, Fernando Henrique e Sílvia Luandos deixaram o PMDB para fundar o PSDB.

Michel fez menção de acompanhá-los, mas ficou no antigo partido.

Era um deputado medíocre, que por duas vezes – 1986 e 1990 –, chegou à Câmara como suplente.

Ele ganha importância no parlamento em 1995, no primeiro ano de Fernando Henrique Cardoso.

A bancada do PMDB, numa articulação que tem as digitais do então presidente da República, o elege líder da bancada.

Era para ser Luiz Carlos Santos, mais independente que Michel Temer em relação ao governo federal.

Mas a bancada surpreende e comunica a Luiz Carlos Santos, numa reunião à noite, que o líder seria Michel.

Foi, digamos assim, um golpe contra a liderança de Luiz Carlos Santos.

Mas este, raposa velha da política, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, já sabia e tinha negociado com Sérgio Motta, sócio e homem forte de Fernando Henrique, sua nomeação para a liderança do governo.

Um deputado que participou dessa reunião conta que os deputados, articulados por Michel Temer, chamaram Luiz Carlos Santos para dizer que ele não seria mais o líder do partido.

Coube a Geddel Vieira Lima dar a notícia a Luiz Carlos Santos:

— Nosso candidato a líder da bancada é Michel Temer – disse Geddel.

Luiz Carlos Santos respondeu:

— O meu também. Quanto a mim, serei líder do governo.

Luiz Carlos Santos sobreviveu, mas, à sombra de Fernando Henrique, foi Michel Temer quem subiu.

O então deputado José Aristodemo Pinotti, que era do PMDB, me contou que, alguns dias depois, Temer reuniu a bancada para comunicar que haviam fechado acordo para apoiar o governo federal.

“200 mil cash e 50 mil por mês a cada deputado”, disse. “E dois ministérios de porteira fechada”, acrescentou.

Dois anos depois, com o compromisso de mudar a Constituição para aprovar a emenda da reeleição, Michel Temer se elegeu presidente da Câmara dos Deputados, novamente com o apoio de Fernando Henrique.

A emenda da reeleição, como se sabe, só foi aprovada com a compra de votos.

Pelas contas de Pedro Simon, então senador do PMDB, pelo menos 150 deputados venderam o voto.

E assim chegamos a segunda-feira da semana passada, quando o PSDB, orientado por Fernando Henrique Cardoso, decide se manter no governo – o que significa apoiar Temer.

Em troca, o PMDB garante a sobrevivência de Aécio Neves, presidente do PSDB, outro que cresceu à sombra de Fernando Henrique.

No futuro, quando analisarmos o estado de putrefação da política brasileira, Fernando Henrique Cardoso terá, necessariamente, um papel de destaque.

Michel Temer e Aécio não existiriam sem a sua liderança.

Joaquim de Carvalho
No DCM

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