9 de jun de 2017

Amigo empresário é elo de Temer com dinheiro da ‘mala’ de Loures

Dono de negócios no Porto de Santos e de offshore nas Bahamas, Celso Grecco foi citado por ex-deputado preso como possível receptador de propina

Em suas perguntas a Temer, a PF questionou o peemedebista sobre sua relação com Grecco
Em setembro de 2016, o juiz Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), recebeu um pedido inusual. Uma pessoa queria uma certidão descritiva de uma investigação aberta e fechada em 2011 contra Michel Temer. Alegava precisar do documento para dar satisfação a parceiros comerciais, pois tinha sido “averiguada” no inquérito. O interessado na papelada era um amigo de Temer, Antonio Celso Grecco, elo do presidente com o Porto de Santos e com o dinheiro na mala de seu ex-assessor especial Rodrigo Rocha Loures, razão para a Polícia Federal (PF) ter feito fazer certas perguntas ao presidente nesta segunda-feira 5.

Grecco é dono da Rodrimar, uma empresa atuante há décadas no Porto de Santos. Sua companhia foi vasculhada em 18 de maio pela PF durante a Operação Patmos, a mesma que levou Loures, assessor especial de Temer até março, à prisão no sábado 3.

O nome de Grecco apareceu durante as negociações de Loures com o lobista da JBS/Friboi, Ricardo Saud, sobre a concretização do pagamento de uma propina previamente acertada. Foi mencionado como alguém que poderia ser receptador do dinheiro, grana que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, acredita ter Temer como destinatário final.

Grecco foi citado na conversa tida por Loures com Saud em 28 de abril. A primeira conversa deles tinha sido quatro dias antes e terminou assim que chegou ao local, um café em São Paulo, um diretor da Rodrimar, Ricardo Conrado Mesquita. Loures marcara de falar com Mesquita na sequência do papo com o lobista da JBS. Saud foi apresentado a Mesquita, pegou o cartão dele e foi embora.

Na reunião de 28 de abril, quando voltam a tratar do pagamento do suborno, Loures pergunta a Saud se o dinheiro poderia ser pego por aquele “teu xará” encontrado dias antes, Ricardo Mesquita, da Rodrimar. E explica: “Lá tem um amigo… O Celso é muito amigo dele”. Saud então comenta: “É? Ele é muito amigo do presidente, do nosso presidente…”. “Ele é”, responde o “maleiro”.

O Celso “muito amigo” de Temer é Celso Grecco. Seu prenome é Antonio, mas ele é mais conhecido como Celso. É assim que Saud se refere a ele em depoimentos à Procuradoria Geral da República. Grecco despontou nos Panama Papers, papelada a listar donos de empresas em paraísos fiscais. Seria sócio da Meadowridg Holdings Ltd, sediada nas Bahamas, ao lado da esposa.

Grecco e a Rodrimar fazem parte de seis das 82 perguntas enviadas nesta segunda-feira 5 a Temer pela PF, interrogatório autorizado pelo Supremo no inquérito que investiga o presidente e Loures por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça.

A polícia quer saber quando os dois se conheceram, que tipo de relação mantém, se o presidente já recebeu de Grecco ou da Rodrimar dinheiro da campanha, se foi acionado pelo empresário com algum pedido de legislação portuária e por aí vai. Temer tinha 24h para responder. E poderia deixar questões em branco.

O presidente tem dito que Loures agiu sozinho e por interesse próprio ao pegar 500 mil reais em propina da JBS. A presença de Grecco no rolo do “homem da mala” atrapalha, porém, a tentativa presidencial de desvencilhar-se da grana. Não é improvável que Grecco, como suspeitam Janot e a PF, seria capaz de, digamos, prestar certos serviços ao amigo Temer em algum tipo de parceria.

Uma pista dessa parceria potencial é o caso que levou Grecco ao Supremo em setembro de 2016 com aquele pedido sobre uma certidão descritiva do inquérito de 2011 que investigou Temer. Um caso com o Porto de Santos no meio.

A resposta dada por Marco Aurélio Mello, do STF, em 26 de setembro de 2016 dizia que Grecco deveria requerer à Justiça em São Paulo a certidão desejada. Foi para lá que o juiz devolveu o processo ao excluir Temer do inquérito, em 2011.

Esse processo nasceu em agosto de 1999, na 3ª Vara da Família de São Paulo, por iniciativa de Erika Santos, ex-companheira de um ex-presidente da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), Marcelo Azeredo, indicado por Temer para o cargo no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso.

Erika acreditava que Azeredo podia pagar-lhe uma pensão mais gorda, pois tinha enriquecido com a cobrança, na Codesp, de pedágio em contratos firmados com o setor privado. “Estas caixinhas ou propinas eram negociadas com os vencedores das licitações ou com os concessionários e repartida entre o requerido (Azeredo), seu padrinho político, o deputado federal Michel Temer, hoje presidente da Câmara dos Deputados, e um tal de Lima”, dizia a ação.

Na petição apresentada pelo advogado de Erika, há relatos concretos de propinagem para Azeredo, Temer e o “tal de Lima”, o coronel aposentado João Baptista Lima Filho. Um dos subornadores citados era a Rodrimar, de Celso Grecco. A empresa teria pago 150 mil reais para Azeredo repartir com os dois companheiros. E outros 200 mil reais só para Temer, na forma de contribuição para uma campanha dele a deputado, cargo ocupado pelo peemedebista de 1987 a 2010.

Que tipo de contrapartida Temer poderia oferecer ao amigo Grecco pelos, digamos, serviços prestados em algum tipo de parceria? Em maio, conforme revelam grampos da PF em Rocha Loures, Temer quase resolveu um pepino da Rodrimar, ao baixar um decreto sobre renovação de contratos de concessão no setor portuário.

A Rodrimar tem um contrato de arrendamento antigo para operar no Porto de Santos, de 1991, anterior a uma lei de portos vigente a partir de 1993. Queria regras de renovação específicas para salvar seu negócio por décadas.

O presidente assinou o decreto em 10 de maio. Seis dias antes, Loures tinha ligado para Temer e perguntado se a norma resolveria o problema “pré-1993”, ou seja, o da Rodrimar. Era a angústia de um dirigente da empresa que tinha acabado de telefonar para Loures, Ricardo Mesquita, aquele que poderia ir pegar a propina da JBS. Temer disse ao “maleiro” para falar com o chefe do jurídico do Palácio do Planalto, Gustavo do Rocha Vale.

Vale e Loures se falaram por telefone em 8 de maio. Resposta de Vale para Loures sobre o “pré-1993”: “É uma exposição muito grande para o presidente se a gente colocar isso... Já conseguiram coisas demais nesse decreto”. E completa: “Minha preocupação é expor o presidente em um ato que é muito sensível... Eu acho que já vai causar uma exposição pra ele. Esse negócio vai ser questionado.”

Desconfiado das digitais de Temer no setor portuário, o “xerife” Rodrigo Janot avalia, segundo o noticiário recente, pedir ao STF a abertura de um novo inquérito contra o presidente, tendo por ponto de partida um ato concreto do presidente: o decreto de 10 de maio.

André Barrocal
No CartaCapital

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