24 de jun de 2017

A vergonha de ser brasileiro


A aprovação de Temer é a pior de um ocupante da presidência desde 1989, diz o DataFolha. Apenas 7%, percentual que, diante do que é esse desgoverno, me parece assustadoramente alto. Mais de três quartos dos entrevistados acham que ele devia renunciar; mais de quatro quintos querem impeachment e eleições diretas.

A Folha destacou outro dado na capa: a "vergonha de ser brasileiro" cresceu de 34% para 47% dos entrevistados. Essa é uma informação que me intriga. Como eu responderia a uma questão assim?

Lembro de um exemplo que costumo usar em sala de aula, quando vou discutir os problemas dos índices baseados em proxies e também dos surveys de opinião pública. Hans-Dieter Klingemann, apoiando-se no World Values Survey, mede o apoio à comunidade política (isto é, se as pessoas julgam que o Estado e a comunidade nacional imaginada à qual pertencem se sobrepõem adequadamente) a partir das respostas a duas perguntas: o quanto o entrevistado se sente orgulhoso de seu país e se estaria disposto a lutar por ele numa guerra.

As duas questões parecem misturar apoio à comunidade política com certo tipo de nacionalismo. Eu, por exemplo, não tenho nenhum desacordo com as fronteiras nacionais brasileiras - não defendo a separação de uma região ou estado, por exemplo, tampouco a anexação de qualquer território. Nem por isso estou oferecendo apoio a priori para qualquer guerra hipotética, só porque é "o meu país". Não torço nem pela seleção de futebol!

E eu tenho orgulho ou vergonha de ser brasileiro? Como não ter orgulho de ser da terra de Pixinguinha, Cartola e Villa-Lobos, sem falar do queijo minas, da feijoada e da paçoca? Por outro lado, como não ter vergonha não só da elite política nos três poderes, mas também da nossa fraca, fraquíssima capacidade de reação?

Em suma, é uma questão que aplaina múltiplas dimensões e que tenta apreender um sentimento complexo e multifacetado numa escala simples. É muitíssimo discutível se a resposta a ela diz alguma coisa e ainda mais se pode servir de indicador para outro tipo de julgamento.




http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/temer-faz-crescer-vergonha-de-ser-brasileiro/2017/06/24/

Temer faz crescer vergonha de ser brasileiro

"A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem" (Antonio Gramsci).

Quase metade da população (47%) tem vergonha de ser brasileiro: este é o dado mais dramático da nova pesquisa Datafolha sobre o governo Michel Temer. Em dezembro, este índice era de 27%.

Nem precisava fazer pesquisa. Basta andar pelas ruas e ver a cara das pessoas.

Certamente, contribuiu para este sentimento de vergonha o festival de vexames promovido por Temer na fracassada viagem à Europa. Nunca se viu nada igual na diplomacia brasileira.

A aprovação do governo Temer caiu para 7%, a mais baixa desde José Sarney (também vice promovido a presidente, também do PMDB). Dilma Rousseff tinha 8% quando foi caiu no ano passado.

A rejeição do presidente chegou a 69% e 72% dos brasileiros querem a sua renúncia.

De volta ao Brasil neste sábado, só más notícias o aguardam.

Na mesma hora em que Temer embarcava no avião presidencial em Oslo, na Noruega, depois de tomar uma esculhambada da primeira ministra Erna Solberg, em Brasília o ministro relator Edson Fachin despachava a ordem para a remessa imediata do relatório da Polícia Federal sobre a gravação de Joesley Batista para a Procuradoria Geral da República.

No começo da próxima semana, chega à Câmara a denúncia contra o presidente pelos crimes de corrupção passiva, obstrução da Justiça e organização criminosa. É a primeira vez que isto acontece na história republicana.

No Congresso, a base aliada está conflagrada com as retaliações contra os dissidentes e a nova ameaça do PSDB de desembarcar do governo. As reformas emperraram e devem ficar para o segundo semestre.

O fato concreto é que Temer chega ao final da semana sem as mínimas condições políticas e morais para continuar no governo.

Os números da pesquisa apenas confirmam esta patética realidade: 76% querem a renúncia de Temer e 81% defendem o seu impeachment.

Agora é tudo só uma questão de tempo, o interregno de que fala Gramsci.

Enquanto isso, só nos resta curtir as festas juninas.

Vida que segue.

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