26 de mai de 2017

Um humanista

Meu pai e o Jorge Amado se gostavam, mas não se afinavam politicamente. Meu pai contava que os dois tinham conversado, certa vez, num hotel do Rio, ele metido numa banheira de água quente pra aliviar a dor de um cálculo renal, o Jorge sentado ao lado da banheira, querendo convencê-lo a apoiar o Partido Comunista. Na época, os escritores brasileiros se dividiam entre os que seguiam a chamada ‘linha de Moscou’ e os que preferiam uma ou outra dissidência da esquerda, como o trotskismo. A ortodoxia comunista sobrevivia às revelações dos crimes de Stalin, os ‘heréticos’ eram fiéis a um marxismo humanista contrário à deturpação do ideal socialista que Stalin representava. Meu pai não era um ativista político, mas nunca escondeu sua crença num socialismo democrático e sua aversão a qualquer tipo de totalitarismo. Anos depois, Jorge e outros reconheceriam que os ‘heréticos’ tinham razão em resistir à obediência cega a Moscou. Na conversa no banheiro, Jorge não conseguiu convencer meu pai. O destino da pedra no rim eu não sei qual foi.

Me lembrei dessa história ao saber da morte do Antonio Candido. Além de tudo o que ele foi, nosso melhor crítico literário, um sociólogo com uma visão inédita e brilhante do Brasil e um homem coerente até o fim, Antonio Candido foi nosso maior exemplo de um intelectual público nos moldes do intelectual orgânico descrito por Gramsci. Protagonizou como ninguém a conturbada história da relação do intelectual brasileiro com a política. Entre ortodoxos e ‘hereges’, foi um humanista antes de qualquer outro rótulo, e ao fundar, junto com Sérgio Buarque de Holanda e outros, o PT, apostou numa esquerda viável para o Brasil, que ultrapassaria velhos vícios e velhos enganos, como o do frustrado sonho comunista. Não sei até que ponto Antonio Candido se desencantou com o PT. Imagino que tenha mantido vivo o ideal, neste cemitério de ideais mortos que é a esquerda brasileira. Nem que fosse só para não deixar de acreditar.

Luís Fernando Veríssimo

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