27 de mai de 2017

Temer confirma o teor da gravação!

Magalhães: ele pensa que você é um idiota, navegante


O Conversa Afiada reproduz artigo do Blog do Mário Magalhães:

A mais insuspeita opinião sobre a autenticidade de trechos essenciais da gravação feita por Joesley Batista de conversa com Michel Temer foi pronunciada pelo próprio presidente. Em entrevista publicada hoje na ''Folha de S. Paulo'' e em discurso no sábado, Temer desqualificou o áudio, mas confirmou as passagens mais comprometedoras.

A entrevista aos repórteres Daniela Lima, Marina Dias e Fábio Zanini é esclarecedora. Temer assinalou ter ouvido ''uma frase dele [Joesley] em que ele dizia 'Olhe, tenho mantido boa relação com o [Eduardo] Cunha'''. O presidente afirmou ter retrucado ao empresário: ''Mantenha isso''.

Por que recomendaria ao sócio do conglomerado JBS manter ''boa relação'' com o criminoso, ex-presidente da Câmara, encarcerado?

Temer afirmou aos jornalistas: ''Falei: 'Fale com o Rodrigo [Rocha Loures, deputado peemedebista] quando quiser, para não falar toda hora comigo'''.

Ele chancela esse capítulo decisivo da gravação. Definiu como intermediário um correligionário que logo seria filmado com uma mala cheia de dinheiro oriundo do esquema mafioso da JBS.

Uma das passagens mais estarrecedoras da conversa foi a confissão de Joesley Batista sobre tentativa de corrupção _ou corrupção efetivada_ de juízes de direito e procurador da República. É Temer quem endossa o diálogo gravado: ''Ele falou que tinha [comprado] dois juízes e um procurador''.

Noutras palavras, é o presidente quem assegura não ser montagem tal diálogo.

Temer tentou justificar por que, como seria dever de ofício, não informou as autoridades competentes sobre a versão do homem Friboi: ''Conheço o Joesley de antes desse episódio. Sei que ele é um falastrão, uma pessoa que se jacta de eventuais influências''.

Que lei confere prerrogativa ao presidente para atuar como delegado de polícia, promotor de Justiça e juiz, decidindo o que é fanfarronice e o que é fato? Há um procurador preso, por suspeita de ter atuado criminosamente em favor da JBS e seus dirigentes.

Os entrevistadores indagaram por que Temer disse ''ótimo, ótimo'' quando Joesley narrou ter articulado proteção na Justiça e no Ministério Público Federal. O presidente respondeu aos repórteres: ''Não sei, quando ele estava contando que estava se livrando das coisas etc.''

Isto é, Temer ratificou o trecho da gravação em que o empresário relatou ''que estava se livrando das coisas''.

No sábado, o presidente já havia validado a parte do áudio sobre os tratos de Joesley com Cunha. Temer: ''A conexão é com a frase: 'Eu me dou muito bem com o ex-deputado, mantenho uma boa relação'. E eu digo: 'Mantenha isso, viu'. Eu enfatizo muito o 'viu'''.

Em suma, Michel Temer busca invalidar a gravação como prova, mas confirma algumas das passagens mais cabeludas.

Ao receber Joesley Batista no Palácio do Jaburu, ele não sabia que estava sendo gravado. Ao dar a entrevista e discursar anteontem, foi diferente.

Deboche

Na entrevista à ''Folha'', Temer aparentou debochar da capacidade de discernimento dos cidadãos.

Em sua defesa, alegou: ''Ontem mesmo o Eduardo Cunha lançou uma carta em que diz que jamais pediu [dinheiro] a ele [Joesley] e muito menos a mim''.

Desde quando um trambiqueiro da espécie do antigo deputado tem credibilidade para sentenciar verdades? O presidente supõe que todo mundo já esqueceu quem é Eduardo Cunha?

Os entrevistadores questionaram Temer: ''É moralmente defensável receber tarde da noite, fora da agenda, um empresário que estava sendo investigado?'' A resposta: ''Eu nem sabia que ele estava sendo investigado''. Alguém acredita? Se for verdade, o presidente trai condição de incapaz para exercer a função.

Outra pergunta: ''Um assessor muito próximo do senhor [deputado Rocha Loures] foi filmado correndo com uma mala pela rua. Qual sua avaliação?'' Resposta: ''Vou esclarecer direitinho. Primeiro, tudo foi montado. Ele [Joesley] teve treinamento de 15 dias, vocês que deram [refere-se à ''Folha''], para gravar, fazer a delação, como encaminhar a conversa''. Entrevistadores: ''A imagem dele correndo com dinheiro não é montagem''. Temer, irritado: ''Não, peraí, eu vou chegar lá, né, se você me permitir… O que ele [Joesley] fez? A primeira coisa, o orientaram ou ele tomou a deliberação: 'Grave alguém graúdo'. Depois, como foi mencionado o nome do Rodrigo, certamente disseram: 'Vá atrás do Rodrigo'. E aí o Rodrigo certamente foi induzido, foi seduzido por ofertas mirabolantes e irreais. Agora, a pergunta que se impõe é a seguinte: a questão do Cade foi resolvida? Não foi. A questão do BNDES foi resolvida? Não foi''.

O presidente diz que seu indicado errou. E que não se sente traído. Acrescentou, em declaração que passa aos anais do despudor político nacional: ''Ele [Rocha Loures] é um homem, coitado, ele é de boa índole, de muito boa índole. Eu o conheci como deputado, depois foi para o meu gabinete na Vice-Presidência, depois me acompanhou na Presidência, mas um homem de muito boa índole''.

Comentário do blog: imagina se não fosse de boa índole. A mala seria maior? Temer insulta a inteligência alheia.

O presidente disse que ''chamou a atenção de todos a tranquilidade com que ele [Joesley] saiu do país, quando muitos estão na prisão. Ou, quando saem, saem com tornozeleira''.

É estranho que não tenha se insurgido com a boa vida que hoje levam antigos bandidos encastelados na Petrobras, onde foram colocados sobretudo pelo PT e pelo PMDB. Outros, como o senhor JBS, beneficiam-se de favores insensatos e impróprios.

Temer, perguntado sobre eventual culpa sua, respondeu: ''Ingenuidade. Fui ingênuo ao receber uma pessoa naquele momento''.

O presidente não pareceu nada ingênuo na cavilação em que se empenhou para derrubar sua antecessora.

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