21 de mai de 2017

O fim do principado

Ascensão e queda da família que comandou Minas Gerais por décadas


Um personagem e três momentos

O jovem secretário, 25 anos, tendo vivido mais coisa nos 48 meses anteriores do que muito marmanjo manjado em décadas, despedia-se do avô no leito de morte. Tancredo fora eleito indiretamente, mas não chegou a tomar posse como primeiro chefe de Estado do Brasil depois de 21 anos de ditadura. Aécio, o neto, testemunhou e sofreu in loco, no Hospital das Clínicas de São Paulo, o drama nacional que, antes, era o de sua família. Compadecera-se, possivelmente, a ponto de jurar que um dia envergaria a faixa que o destino negara a Tancredo.

Passados 25 anos, governador reeleito de seu Estado, Aécio homenageou o avô inaugurando a Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves. Era o legado físico de duas gestões bem-sucedidas e bem-avaliadas à frente de Minas Gerais, com as grandiosidades das curvas de concreto de Niemeyer, cheiros de JK em uma “brasilinha” vislumbrada pela estrela da festa, que não escondia de ninguém visar à capital federal propriamente dita. Março de 2010, tinha chovido pra burro: “é a lama, é a lama”. As autoridades diversas, inclusive o finado José Alencar, então vice-presidente, funcionários e a imprensa, todos em belos trajes. A ocasião pomposa pedia e merecia. Mas havia muitas placas de grama ainda soltas e água barrenta correndo pelos leitos reinventados no chão. Os convidados na estica, mas teve quem saísse da lá descalço. O barro cobriu os sapatos.

Agora, a Presidência é sonho impossível, e os palácios erguidos sobre o pântano, o atual governo mineiro cogita até leiloar.Para um jornalista mineiro que se dedica aos feitos da política, assistir ao ocaso político de Aécio e da irmã Andrea e escrever sobre isso demanda filtros de granito para conter os ímpetos da peçonha e virulência. Quanta notícia, quanta reportagem, quanta informação útil à vida dos mineiros foi escondida na gaveta a mando dela e em favor dele, por um projeto de construção de imagem irretocável. A greve da PM em 2004, o Choque de Gestão, o Estado para Resultados, o reerguimento do aeroporto de Confins e outros diversos acontecimentos, só para ficar nos oficiais, passaram pelo crivo da mentora intelectual do irmão. Eram ligações para chefia, pressão e pedidos de demissão de jornalistas. Se Aécio era tão bom quadro para a política nacional, por que demandava tanto controle, tanta blindagem?

Ainda assim, apesar do cerceamento à liberdade de imprensa e de tantos desmandos que se revelam hoje (entre eles, a denúncia de superfaturamento na Cidade Administrativa), merecem festa a prisão dela e o afastamento e possível cassação do mandato dele? Para aquém dos venenos e das vinganças pessoais, a derrocada dos irmãos é mais uma tragédia contemporânea.

No segundo turno de 2014, o tucano “tocou na taça”: eram 19h30, mais ou menos, quando a apuração dava que ele estava na frente de Dilma, que depois reverteu. Foram 51 milhões de brasileiros que confiaram o futuro do país a Aécio. E, por décadas, tantos milhões de mineiros avalizaram-no para deputado federal, governador por duas vezes e senador. Agora, essa pancada. “Quando um príncipe se apoia totalmente na Fortuna, arruína-se segundo as variações dela”.

A acusação que pesa contra o tucano é contundente, e o conteúdo foi gravado: negociou R$ 2 milhões em propina com os donos do frigorífico JBS em benefício de Andrea e do também senador Zezé Perrella (PMDB-MG) e que, para pegar o dinheiro, escolheu alguém que “a gente mata antes de fazer delação”. O golpe fatal não significa o fim político de um homem público apenas, mas daquele que acumulou mais poder e prestígio em Minas Gerais desde a redemocratização. É um guarda-chuva enorme que se fecha depois de ter abrigado uma dúzia de partidos satélites, com centenas de lideranças apaniguadas. Um grupo que ditava as regras do jogo, ungia chapas e candidatos, nutria-os, financiava-os e elegia-os. Assim foi com governador, senadores, deputados e centenas de prefeitos mineiros. O sentimento de orfandade política, hoje, percorre o Estado de Montalvânia a Extrema, de Ituiutaba a Salto da Divisa. Há um latifúndio aberto para a sucessão estadual, e um guarda-chuva fechado.

Para a sucessão presidencial, Aécio é carta fora do baralho. Já está em curso sua destituição da presidência nacional do PSDB, e o tucanato paulista dá de braçadas. Talvez por ter chegado tão perto e por não ter podido aproveitar a chance ímpar de ir aonde o avô não foi, o candidato derrotado tenha agido como agiu. “Quanto mais próximo o homem estiver de um desejo, mais o deseja. Se não consegue realizá-lo, maior dor sente”.

Ele é um dos principais culpados, sim, pela crise de credibilidade política que assola o país, não só por seus malfeitos, como por sua postura. Primeiro, deslegitimou o pleito e, por meio do partido que controla(va), reivindicou recontagem de votos. Depois, processou a chapa vitoriosa, o que pode levar, ironicamente, à cassação de Temer no mês que vem pela Justiça Eleitoral. Por fim, o ódio e o inconformismo, movidos por sua obstinação pessoal e pela contrariedade de ter perdido em casa (em Minas, não em Ipanema) resultaram no golpe parlamentar, que teve entre os tucanos seus mais contumazes fiadores.

Mas agora vem à tona a desfaçatez de quem só fazia por apontar a corrupção sistêmica como método adversário. A criminalização da prática política, imagem que ele hipocritamente denunciou e reforçou na opinião pública, por mero marketing, agora engole a ele e à irmã. Está perdido e atolado até o pescoço. Triste, nada a celebrar, mas “a culpa não é minha”… Cárceres à parte, “o outro nome de Minas é liberdade”.

João Gualberto Jr.
No O Beltrano

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