14 de mai de 2017

Ato Falho de São Paulo

Freud poderia construir sua obra sobre o inconsciente apenas lendo as matérias dos jornais brasileiros sobre Lula.


Ato falho – também conhecido como lapso freudiano, é um erro na fala, na memória, na escrita ou numa ação física que seria supostamente causada pelo inconsciente. Freud evidenciou que o ato falho era sintoma da constituição de compromisso entre o intuito consciente da pessoa e o reprimido. Através do ato falho o desejo do inconsciente é realizado.

Lula já está condenado há anos, em quilômetros de folhas de papel-jornal e tonéis de tinta de impressão. As provas é que não têm colaborado.

Assim, não deve estar sendo fácil a vida da ombudsman da Folha. Como conciliar o engajamento do jornal no mais desbragado antipetismo com o apego à verdade factual necessária a um jornalismo que se quer analítico?

Sob pressão, é interessante notar o que atos falhos nos trazem à tona. Vejamos extratos de sua coluna de 14 de maio de 2017 em que comenta o depoimento de Lula ao juiz Moro:

“Os jornais têm evidentemente de cumprir o papel de noticiar logo os fatos mais importantes. Assim o leitor espera”.

“Leitores têm questionado o que há de provas materiais de crimes na Lava Jato, além de declarações acusatórias nascidas de delações premiadas. Incomoda a alguns a reprodução acrítica de depoimentos”.

A ombudsman busca, agora, na memória, um porto seguro onde ancorar suas esperanças na prática pela Folha de um jornalismo analítico e factual.

“Em 7 de maio, a Folha publicou reportagem que indica um caminho a seguir. Nela, revelou que depoimentos de delatores da Odebrecht e materiais entregues como prova ao Ministério Público Federal contêm erros factuais, contradições e inconsistências, em casos que envolvem governadores e parlamentares, entre outros acusados”.

Pois é, e aqui começam os atos falhos.

A Folha apontou contradições nas acusações feitas pelo MPF a governadores e parlamentares majoritariamente… do PSDB.

A ombudsman sabe que: “urge que trabalho semelhante venha a ser feito com os personagens principais da Lava Jato”.

Por que, então, a Folha não segue o mesmo caminho em relação à Lula e ao PT. Não é o que espera a parte dos seus leitores que reclama a apresentação de fatos?

Pronto, o subconsciente trai a ombudsman. E ela interpreta inconscientemente a cobrança dos leitores não como se fosse por isenção, mas como se fosse por mais empenho da Folha em condenar definitivamente a Lula.

“Entendo a cobrança dos leitores sobre a publicação do que existe de provas concretas. A Folha tem de ser cuidadosa em suas afirmações, ao mesmo tempo em que precisa demonstrar que indícios constroem circunstâncias que podem formar a convicção do juiz e daí levarem à condenação de determinado acusado.

Não é necessário, como parte dos leitores acredita, que existam provas materiais como extratos bancários, papéis assinados irrefutáveis, confissões de culpa gravadas, vídeos de encontros etc. Não se pode provar com probabilidades, como disse um ministro do STF, mas um somatório de indícios pode se tornar prova cabal que permita atribuir um crime a alguém”.

Interpretando o que salta do discurso da ombudsman: não é necessário que existam provas materiais, mas um somatório de indícios pode se tornar prova cabal que permita atribuir um crime a alguém. A Folha precisa demonstrar que indícios constroem circunstâncias que podem formar a convicção do juiz e daí levarem à condenação de determinado acusado.

A confissão inconsciente não pôde ser controlada. Através do ato falho o desejo do inconsciente é realizado.

A inocência de Lula não é mais uma das duas possibilidades racionais de um julgamento. Condenação ou absolvição conforme as provas apresentadas. A inocência de Lula foi afastada pelo inconsciente da ombudsman.

Lula é imperdoável.

Sergio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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