8 de mai de 2017

Argumentos para um diálogo produtivo

Algumas coisas que aparecem frequentemente em discussões e que revelam o pouco conhecimento do interlocutor:

"Ahhh mas você está reduzindo a realidade."

Sim amigo, todo o acesso à realidade, seja descritivo, explicativo ou preditivo, é sempre uma redução da realidade. Não há como se fugir disto.

"Ahhh mas você está sendo ideológico."

Sim amigo, toda forma que o homem tem de acessar a realidade depende dos canais que ele construiu em si. Não há frase, palavra ou textão que não seja um reflexo de si antes de falar sobre o objeto que se está falando.

"Ahhh mas você não está sendo neutro"

Sim, amigo, não há como se ser "neutro". Pode-se tentar ser objetivo (embora exista muita discussão aqui) ou "imparcial" desde que você se conheça a tal ponto que possa contrabalançar racionalmente as injustiças que sabe que comete mesmo de forma inconsciente. Nós, cientistas, temos um velho ditado que expressa isto "seja violento criticando as suas ideias e leve criticando as dos outros".

"Ahhh mas você reclama da Veja e aceita a Carta Capital"

Amigo, tudo é fonte. Até o que o filho de 3 anos do vizinho fala da política serve de fonte desde que você se faça cinco perguntas: 1) o que este texto fala?; 2) o que este texto não fala?; 3) para quem este texto fala? 4) quando este texto fala? e 5) quem fala por este texto? ... De posse disto você pode saber o porquê do texto falar A ou B. Este é o início da crítica. Se você fizer estas perguntas no comparativo das duas revistas verás que, apesar de estarem em pontos diferentes do espectro político elas não são antípodas.

"Ahhh mas você não aceita a opinião dos outros"

Amigo o termo "opinião" pode vir de duas formas: ou da "episteme" que é a "opinião mediada" pelo conhecimento acumulado e ponderação crítica ou da "doxa" que à a discricionaridade do indivíduo. Quando alguém diz "eu prefiro sorvete de chocolate" ele está exercendo a "doxa". Quando um nutricionista diz "eu prefiro sorvete de frutas por ter menos gorduras saturadas" ele está exercendo a "episteme". O problema é que os jornais misturaram as duas e fazem questão de confundir todo mundo. Você tem direito a ter a opinião "doxa", mas esta vale pouco uma vez que se reconhece que você não sabe do que fala.

"Ahhh mas você quer que todos concordem com você"

Amigo, num mundo ideal por talvez uma hora isto seria excelente, mais do que isto nem em imaginação eu gostaria de tal coisa. O que quero é que tenhamos bases para aproximar visões de mundo e então decidir nossas posições através de racionalidade. Você pode defender um ideal diferente do meu, só quero mostrar porque você o defende num esforço político de mostrar a quem nos lê as causas da nossa diferença e, talvez, mostrar a você que meu ponto é mais meritório que o seu.

"Ahhh mas é tudo opinião a sua vale tanto quando a minha" ...

Amigo, não é verdade. O termo "valer" precisa ser determinado aqui. Em uma conversa de bar pode ser, mas quando se tenta diagnosticar uma doença e "opinião" de um médico vale mais que a sua. Quando se tenta construir um prédio, a "opinião" de um engenheiro vale mais que a sua. Então porque quando se está discutindo política ou história você haveria de desconsiderar o meu conhecimento e igualar as coisas?

"Ahhh mas eu mantenho a minha opinião, não interessa você não vai me convencer"

Amigo, se esta era sua posição desde o início perdemos tempo eu e você. Se isto for verdade, você não conversa, não dialoga, você "prega" como um religioso que acredita piamente em algo. Além de não estar aberto a discutir isto, você procura seguidores. Seguidores seguem, apenas seguem por fé. Eu procuro gente que dialogue e que se decida caminhar na mesma direção pelos seus próprios e críticos motivos.

Fernando Horta
No Esquerda Caviar

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