24 de mai de 2017

A volta

Um dia, a mãe anunciou: “O pai de vocês está voltando”. Os filhos estranharam. O pai saíra de casa 25 antes e nunca mais voltara. Quando perguntavam para a mãe sobre o pai, ela respondia “Está viajando” e mudava de assunto. E agora chegara uma carta dele dizendo que estava voltando. Não sabia exatamente quando, mas mandaria algumas coisas na frente. 

Depois de uma semana, chegou o primeiro pacote. Tiveram que buscar no Correio, o pacote era grande. Continha, principalmente, meias. Meias de cano longo e de cano curto, meias para inverno e verão, algumas mais velhas, algumas mais novas. Um cantil. Um guia do Himalaia, com mapas e trilhas marcadas no mapa, e anotações nas margens numa língua indecifrável. Mas, principalmente, meias. Meias de todos os tipos. Meias de várias cores. Vinte anos de meias. 

O segundo pacote, mais pesado, chegou poucos dias depois. Sapatos e chapéus, incluindo botas com cadarço até em cima e duas cartolas, sendo uma com um coldre vazio na parte de dentro. Alguns troféus: uma coruja de bronze espetada num pedestal com dizeres em alfabeto cirílico; uma taça de prata com o nome, na base, da vencedora de uma corrida de planadores em Tessalonica, outro troféu pelo segundo lugar num concurso de salsa em Riga. Fotos emolduradas. A de uma mulher oriental sentada na asa de um planador, sorrindo. A de uma loira séria com a palavra “Chien!” e uma assinatura, “Marie Ange”. A de uma morena com um tapa-olho, com as palavras “Te quiero, Chuco”, assinada “Concepcion”. Uma foto do Henry Kissinger, com as palavras “Best wishes” e sua assinatura. Dois suéteres de lã. 

Sem saber o que viria nos pacotes seguintes, a mãe tratou de arranjar lugar para as coisas do marido. Mandou esvaziar um armário. Se faltasse lugar, usariam parte da garagem. Passaram-se semanas sem que chegasse outro pacote. Finalmente chegou um, menor do que os outros. Da mesma procedência: Nova Délhi. Este era de livros e cuecas. Os livros, quase todos, sobre ocultismo. E, no meio daquela semana, um telefonema surpreendente. Uma voz feminina, falando inglês com sotaque hindu, identificando-se como Iridia, querendo saber se já tinha chegado “the cage”. O quê? “The cage, the cage.” A mãe custou, mas entendeu. A gaiola! Não, ainda não chegara a gaiola. “The cage, not!”, disse a mãe, e a ligação caiu antes que ela pudesse perguntar quem era, e como estava o seu marido, e que gaiola era aquela.

Quase um mês depois, chegou a gaiola, junto com casacos, calças, um nebulizador, um aparelho para tirar a pressão e um bilhete, em inglês, com o descrição detalhada do tratamento que ele estava fazendo e que não poderia ser interrompido, e uma lista de remédios. Assinado “Iridia”. E com um PS: “Ele está levando o pássaro com ele”.

Passou um mês. Dois. Nada de novo pacote. E nada do viajante. Um dia, tocou o telefone e era a Iridia, querendo saber se ele tinha chegado bem e se podia falar com ele. Foi difícil fazê-la entender que ele não estava lá, que não voltara para casa. Então, a Iridia disse “Eu deveria ter adivinhado...”. Ele jurara que estava voltando para casa, que faria a conexão em Londres e estaria no Brasil em dois dias. Na certa, conhecera uma mulher no caminho. No avião ou no aeroporto em Londres. O pássaro teria atraído a atenção dela, eles já estariam morando juntos. Ela devia estar, naquele momento, ajudando-o a escolher meias novas. A mãe anunciou aos filhos que o pai ainda demoraria a chegar.

Luís Fernando Veríssimo

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