11 de mai de 2017

A luta continua

No final dos créditos de quatro filmes do diretor Jonathan Demme, que morreu há pouco, aparece a frase, em português, “A luta continua”. O próprio Demme nunca explicou a frase intrigante, que nos quatro casos tem pouco a ver com o conteúdo dos filmes. Como ele era conhecido pelas suas posições progressistas, mesmo que o engajamento político nem sempre fosse evidente numa obra que incluía comédias e puro divertimento, deduziu-se que a frase de Demme era uma mensagem de resistência endereçada às esquerdas do mundo - pelo menos às esquerdas de língua portuguesa. Com sua morte e a publicação dos seus obituários, ficou-se sabendo que a frase de Demme era inspirada num slogan de luta da Frelimo, a frente marxista de libertação de Moçambique. Demme deixou de usá-la quando a Frelimo tomou o poder.

Nada impede que outros se sintam incitados pela exortação de Demme, já que ela se adapta a todas as situações em que a esquerda está com a cara no chão e pensando em desistir - isto é, todo o mundo. Se há alguém precisando de uma mensagem de resistência, mesmo roubada de outro, é a esquerda de todas as línguas. A esquerda está tão carente que festejou a vitória do Macron na França como se fosse sua, e não a eleição de um mal menor. Macron deteve, por ora, o crescimento da Frente Nacional, e este é o seu principal mérito. Como já tinha acontecido com a eleição do Chirac para impedir que o Le Pen pai ganhasse, no segundo turno os franceses votaram outra vez num candidato cuja maior qualidade é não ser o outro. Macron é um homem do mercado, do capital financeiro, da austeridade neoliberal. Sua vitória está sendo considerada histórica porque interrompe uma sequência de 30 anos de presidentes republicanos e socialistas no poder. Ele inventou seu próprio partido, cujas iniciais são as iniciais do seu nome, e foi o candidato de si mesmo. E ninguém achou isso perigoso. Nem a esquerda.

A esquerda brasileira precisa ser constantemente lembrada de que a luta continua, por menos viável que isso pareça. A desilusão com o PT criou uma espécie de vácuo: desta orfandade pra que lado se vai? Pra que lado irá o próprio PT? Se estivesse mandando sua mensagem de resistência para o Brasil em vez de Moçambique, Demme provavelmente diria “Aguenta aí, gente”.

Luís Fernando Veríssimo

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