30 de mai de 2017

A Associação dos Amigos do Poder que representa o MPF


Nos tempos do Brasilianas, na TV Brasil, gravamos uma entrevista com o presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) Alexandre Camanho. A intenção era mostrar o lado legítimo do Ministério Público, a defesa da cidadania, dos direitos difusos, para contrapor ao lado arrogante de procuradores se considerando donos do mundo.

Na primeira entrada, Camanho bradou:

- O Brasil é um oceano de corrupção no qual a única ilha de honestidade é o Ministério Público!

O que dizer dessa explosão de humildade corporativa?

A ANPR representa a corporação do Ministério Público Federal. Seu presidente é eleito em eleições diretas. Suas duas grandes atribuições são definir o local do encontro anual dos procuradores; e organizar a eleição para a lista tríplice, da qual teoricamente sairá o novo Procurador Geral da República.

No MPF, a ascensão profissional se baseia na meritocracia, em um conjunto de filtros que definem a escala de promoção no órgão. Já na ANPR – e nas eleições para a lista tríplice – as escolhas refletem o pensamento médio da corporação. Portanto, para entender o MPF é necessário se fixar na ANPR.

Dias atrás, a Folha trouxe a informação de que Camanho fez o meio campo entre o grupo de Michel Temer e a Lava Jato visando aplainar o caminho para a tomada do poder (https://goo.gl/Ft355X). Ou seja, o presidente da única corporação virtuosa da República fazendo o meio campo da Lava Jato com a mais suspeita organização política da República. Honestos, honestos, amigos à parte.

É pouco?

Mal Temer foi empossado, o sucessor de Camanho na ANPR, José Robalinho, solicitou audiência especial com o novo presidente. Foi o primeiro a puxar o cordão dos puxa sacos. Sua alegação é que procurava Temer para defender os interesses da categoria (https://goo.gl/uHKj7J). Honestos, honestos, interesses à parte.

Como amor desinteressado é incondicional, mal foi anunciada a indicação de Alexandre de Moraes para o STF (Supremo Tribunal Federal), a brava ANPR correu a divulgar uma nota de apoio, na qual enaltecia as excelsas virtudes do indicado (https://goo.gl/m5n8nP).

Nas relações com o esquema Temer, só faltou mesmo beijo na boca.

Outro ex-presidente da ANPR é o atual Procurador Geral da República Rodrigo Janot. Sua campanha para a lista tríplice foi inteiramente calçada em temas corporativos. Para garantir sua indicação, visitou José Dirceu no hotel em que estava exilado, ofereceu jantares para José Genoíno, abriu seu melhor vinho, fez juras de amor eterno, segundo colegas seus presentes ao regabofe. Só faltou beijo na boca.

Nas eleições, Janot venceu duas procuradoras símbolos do MPF, Ela Wiecko e Deborah Duprat, referencias de direitos humanos.

O PGR é eleito apenas pelo Ministério Público Federal, mas tem ascendência sobre todos os demais Ministérios Públicos, o Militar, o do Trabalho, do Distrito Federal e territórios. Nas eleições paralelas dos demais MPs, Deborah Duprat venceu por larga margem. O que mostra um discernimento maior do coletivo do Ministério Público em relação ao MPF.

Hoje em dia é ocioso falar em lista tríplice, já que dificilmente futuros presidentes cometerão a imprudência de indicar o primeiro colocado. Mas vale a discussão sobre até que ponto a ANPR deve continuar como porta-voz de toda uma categoria.

É uma resposta que apenas os procuradores poderão dar.

Luís Nassif
No GGN

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