2 de abr de 2017

Tudo que você precisa para ser explorado pelo Uber


Caro motorista do Uber. Esse texto é para você. Principalmente para você que entrou no Uber com a esperança de ter o seu próprio negócio e ganhar o suficiente para sustentar a sua família. O Uber vende o sonho de ser o seu próprio patrão para uma massa de desempregados e para aqueles que caíram no conto do vigário da nova religião: o empreendedorismo, particularmente na sua corrente mais picareta, o empreendedorismo de um homem só, a Você S.A. Agora eu sou meu próprio patrão e o Uber é meu parceiro, um parceiro que me presta um serviço, um app que conecta o meu negócio a milhões de possíveis clientes na cidade. Simples, fácil, prático, eu só preciso me preocupar em dirigir, certo? Errado.

Vamos direto ao ponto: o Uber te explora. E não é pouco. Mas vamos deixar as reflexões para depois. Vamos por outra tática. Vamos aos números, pois eles são muito convincentes. Eles são chocantes.
Publicidade no site do Uber.
Vamos falar de grana, de r.o.i., vamos fazer uma análise do negócio. Uma simulação. Suponha que você acabou de perder o seu emprego, mas, por sorte, acabou de pagar as prestações do carro. Eis que o Uber bate à sua porta com lindos anúncios de liberdade e independência. E você decide: vou virar motorista do Uber.
No seu antigo emprego, você ganhava 3.600 reais e espera ganhar o mesmo no Uber para sustentar sua família: você, cônjuge, dois filhos. Para o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), você deveria tentar ganhar pelo menos R$3.991,40, o salário mínimo realmente necessário para uma família do tamanho da sua viver com modesta dignidade.

Tudo bem. Você acha que se vira com R$3.600. Mas sabe que vai precisar também de um plano de saúde, afinal, o SUS que já não era bom está para acabar ou ser sucateado. Você vai ficar grande parte da sua vida, todo dia, por horas sentado dirigindo e isso faz muito mal. Também vai precisar de um smartphone razoável, com GPS, e um plano de internet móvel. Nem pense em negligenciar isso ou pode sair mais caro na hora em que estiver com o GPS e o app do Uber ligado. O carro você vai trocar de 2 em 2 anos, dando o seu usado como entrada e juntando mais 24 mil reais para comprar um zero, e assim por diante, de 2 em 2 anos.

Resumindo, você vai ter custos fixos como: IPVA, seguro do carro, smartphone, internet móvel, poupança para troca do carro de 2 em 2 anos e plano de saúde. Tudo isso são suas ferramentas e custos de trabalho e você não pode tratá-las como despesas pessoais para avaliar o potencial do negócio. Podemos ver suas despesas fixas como motorista do Uber na tabela abaixo:



Mas não é só isso. Existem as despesas para cada dia que você trabalha. São elas: gasolina, alimentação, manutenção do carro em geral, pneus, troca de óleo, limpeza do carro, água e balinhas para os passageiros.

No seu antigo trabalho, você tinha 2 folgas semanais e 30 dias de férias. Gostaria de manter o mesmo padrão, afinal, é casado e tem dois filhos. Apesar de o Uber dizer que você trabalha o quanto e quando quiser, você sabe que não pode ganhar menos de R$3.600,00 no mês sob hipótese alguma e que vai ter que trabalhar de acordo com a demanda do mercado, dos passageiros. Então, em relação à sua folga semanal e férias, vamos manter as opções abertas. Na tabela abaixo você pode ver as demais despesas relacionadas aos dias trabalhados. Se você trabalha, você gasta, desgasta, consome. Se não trabalha, não. Essas despesas por dias trabalhados serão somadas às despesas fixas. Fica assim:



Estes são os custos por dia de trabalho. Você ainda não ganhou 1 mísero centavo! E ainda nem contamos os 25% que o seu “sócio” Uber toma de você sem participar de nenhuma das suas despesas. Transformamos tudo em despesas diárias para que você saiba o quanto precisa trabalhar para meramente sair do zero quando estiver dirigindo seu Uber. Por exemplo: você vai ter que trocar o óleo do carro todo mês. São R$180,00 em média, o que dá 6 reais por dia. Pneus, R$6,50/dia; manutenção, R$10,00/dia…

Na tabela a seguir, vemos o quanto você precisa trabalhar só para sair do zero. Por exemplo: se você decide ter apenas 1 folga por semana, sem férias, sem feriado, sem Natal, Reveillon, Carnaval, sem ficar doente o ano inteiro (!!!), você só vai começar a ganhar alguma coisa quando o total das suas corridas passarem dos R$409,73 no dia. Aí você vai começar a ganhar o seu primeiro real. E você consegue tirar isso por dia, mesmo se matando de trabalhar? Para garantir os seus R$3.600,00 no mês, você precisa ganhar ainda mais, pelo menos R$547,31 ao dia, tendo um lucro líquido de apenas R$118,03. É tudo que te sobra no fim do dia.



Os números anuais são:



Quando você olha para esses números tem a real dimensão de como é um péssimo negócio ser motorista do Uber e como é uma ilusão se considerar um autônomo dono do próprio tempo, do próprio negócio e que decide quanto quer ganhar. Ser motorista de Uber é ter um subemprego, ser explorado, é precarização das relações trabalhistas disfarçada de empreendedorismo. E o pior: com cada motorista do Uber se considerando uma "Você S.A.", cada um fica isolado do outro, cuidando da sua "empresa", da sua vida, enquanto o Uber cuida de todos vocês ao mesmo tempo.

Sem férias, só com uma folga na semana, sem feriados, se você conseguir produzir R$171.855,34 no ano, apenas R$43.199,44 serão seus. Os outros R$128.655,90, que você ralou sentado dirigindo, ficando com hemorroidas, problemas nos rins, de coluna, são do Uber, do Leão e despesas com as quais só você arcou.

Vamos a algumas contestações possíveis desses números: “Ah, eu lavo meu próprio carro!” Ok. Você gasta sua água, seu sabão, sua cera, seu aspirador de pó para a parte interna, sua energia elétrica, sua mão de obra, seu tempo “livre”. E na lógica capitalista, tempo é dinheiro. O tempo que você gasta lavando o seu carro, poderia estar ganhando dinheiro com o Uber. Acredite, não vai fazer muita diferença no fim…

Nem pense em demorar mais para trocar de carro, pneus ou o óleo, em usar um celular qualquer, em escolher a pior e mais barata operadora da cidade… Você vai perder mais dinheiro no fim com essa falsa economia.

“Eu posso colocar o kit gás!” Pode! E você vai economizar com o combustível, de fato. Em torno de 30% no primeiro ano e 50% no segundo ano. Essa é a única economia relevante e apenas sobre o combustível. Mas não se esqueça de incluir o valor da instalação do kit gás e lembre-se de que terá de fazer isso de novo quando trocar de carro, além dos custos e taxas adicionais, como a revisão do cilindro. Mesmo assim, você ainda está dirigindo um péssimo negócio. Literalmente.

Outra opção é alugar um carro e não ter os custos de manutenção, compra e troca de carro etc. Fizemos os cálculos e dá praticamente na mesma. Pagando R$1.500,00 por mês de aluguel a uma locadora ou R$700,00 por semana (R$2.800,00 por mês) com um particular, que normalmente já vem com o kit gás e a responsabilidade de dividir a manutenção. Fica ao seu gosto, mas o resultado final é trocar 6 por meia dúzia.

Você pode tentar de tudo. Lavo meu carro, faço minha comida e levo marmita (ou passa o dia sem comer e bate aquele pratão montanha de comida quando chega em casa, ótimo para sua saúde…), vou pra fila do hospital público, não junto dinheiro e financio o carro na loucura, pego o celular velho do meu primo, faço um plano da Tim mais barato, tiro a água do passageiro, tiro a bala, troco o óleo quando der, boto aqueles pneus chineses fuleiros, sonego todos os impostos “e vamo que vamo”! Já reparou como todas essas tentativas de reduzir suas despesas, tudo que você elimina, desconsidera ou dá um jeitinho transformam a sua profissão numa atividade muito mais precária, insegura, arriscada, insalubre e insustentável? O Uber adora falar em sustentabilidade, mas cria um subemprego insustentável para os seus “parceiros”. Já reparou em outra coisa? Você abre mão disso, daquilo, sonega imposto e tenta desesperadamente reduzir custos. Mexe em tudo possível. Menos nos 25% do Uber. Ah, isso é sagrado. É dízimo. Imexível. Será?

Para piorar, nessas contas não incluímos o INSS ou uma previdência privada para sua aposentadoria ou caso você fique incapacitado de trabalhar. Se você ficar doente, lascou! E o Uber não vai ter nada a ver com isso, assim como não tem nada a ver com suas despesas para trabalhar. Você não tem nem décimo terceiro pra dar aquela aliviada nas despesas inesperadas no fim do ano. Também não consideramos os possíveis gastos com multas e com vestimentas para que você esteja apresentável, com roupa social, do jeitinho que o Uber gosta.

Outra questão é a sonegação. Quem é que vai pagar 25% para o Uber e 22,5% de IR ou mais? O Uber cria um negócio tão inviável para o motorista que promove uma legião de sonegadores. Se a Receita faz uma devassa entre os motoristas do Uber, é possível que não fique um, meu irmão. O pobre motorista fica refém, entre a cruz e a espada, entre os 25% do capitalismo hipster humanizado livremercadista do Uber e os 22,5% a 27,5% do capitalismo de estado com alta carga tributária para o cidadão do Brasil. Do Brasil do FHC, do Lula, da Dilma e do Golpista. Um Brasil de Todos.

Sabe quanto o Uber cobra em média por mês, na simulação, pelo serviço que presta a você, caro piloto? Ele cobra em torno de R$2.500,00 se você, trabalhando como escravo no carro, com apenas uma folga semanal e sem férias, conseguir tirar R$3.600,00 limpos no mês. Pode ser mais, pode ser menos. Depende do seu desempenho.

O Uber se aproveita da grande legião de desempregados, subempregados e mal empregados no país. Gente que vê no Uber a oportunidade de ter o próprio negócio e todas as promessas que o Uber faz. Essas pessoas começam a trabalhar sem uma análise do negócio, sem colocar todos os números no papel e tratando seu patrimônio em depreciação (carro, celular) e todos os custos da sua atividade comercial (internet móvel, alimentação, seguro, IPVA etc) como despesas pessoais, como zero de investimento que não entra no cálculo do retorno sobre o investimento. Literalmente rói a corda do r.o.i.

E é claro que o Uber não dá qualquer orientação real, muito menos joga claro com os custos e os verdadeiros problemas do dia a dia do motorista com um aplicativo cada vez mais controlador e empurrando furadas como corridas de Uber Pool que são muito mais baratas e quase nunca dão passageiros extras, entre outras. O Uber se aproveita da inexperiência financeira da maioria dos motoristas e em vez de viabilizar e orientar um negócio consciente e sustentável, vende sonhos que acabam mal.



Para o Uber é muito confortável um país (um mundo!) com altíssimo índice de desemprego. Isso cria uma enorme reserva de mão de obra, de motoristas dispostos a se sujeitarem às suas regras, à baixíssima remuneração da atividade e a crescente concorrência. Quanto mais motoristas, melhor para o Uber; e pior para os motoristas, que se jogam numa concorrência cada vez mais agressiva, num aplicativo que define a tarifa de acordo com a oferta e a demanda. Quanto mais numerosos são, menos os motoristas ganham. Mas assim, os 25% do Uber estão ainda mais garantidos, não importa quem conseguiu a corrida.
Fonte: https://www.uber.com/helping-cities
O mais cruel dessa conjunção perversa de alto desemprego, mercado desregulado e altos tributos sobre produtos e serviços com conto de fadas de empreendedorismo é que o Uber vende essa situação escabrosa para o trabalhador como uma virtude da empresa. Chega ao ponto de comparar o mapa do desemprego com o mapa de residências de motoristas do Uber da cidade de Londres. São extremamente parecidos. Não é à toa que o Uber vai tão bem num mundo que vai tão mal…

E o que fazer? Num mundo que vai tão mal, onde direitos trabalhistas estão sendo atacados, trabalhos precarizados e onde aos trabalhadores está sendo vendida a fantasia do empreendedorismo de 1 homem só, a velha história do Silvio Santos camelô travestida de Você S.A., que no fundo é a mais velha ainda história do protestantismo capitalista: deus ajuda quem cedo madruga. Se você é pobre é porque não se esforçou o suficiente. Se alguém é rico, não inveje-o, trabalhe. É tudo uma questão de esforço. Ou da falta de.

Só que os motoristas do Uber estão aí se dando mal, mesmo se esforçando ao máximo, mesmo tentando viver disso. Todos vocês já viram isso, principalmente no começo, principalmente com os principiantes. O motorista do Uber sorri, dá bom dia, pergunta do ar, da música, tem água, tem bala… Ele está ali com sua roupa social pronto para dar duro, de sorriso no rosto, atendimento de excelência, pronto para fazer dar certo o seu negócio e ter a sua independência. É o seu carro, a sua vida, o seu negócio e ele quer que dê certo e vai dar o sangue por isso. Só que a conta não fecha. A conta que o Uber criou para esses motoristas de olhos brilhando por fazer o negócio dar certo é uma conta boa para o passageiro e o Uber. O motorista, “o patrão”, é na verdade o bucha de canhão da história.

É por isso que os motoristas do Uber precisam parar de se ver como empresários, como autônomos, como Você S.A, Eu S.A. Aquele Lá S.A., cada um cuidando da sua vida, do seu negócio sem futuro.

Motoristas do Uber, vocês são trabalhadores! Uma classe, uma categoria que precisa se organizar politicamente porque sozinhos e separados vocês não botam medo em ninguém e não têm poder de lutar sequer por 1 mariola. Sem poder de negociação, só podem se sujeitar ao que o Uber, o mercado ou o governo impõem.

Vocês não têm que ser evangelizadores do Uber. Motoristas do Uber e taxistas estão mais do mesmo lado deste combate do que imaginam. Os taxistas estão com medo de perder seu trabalho, dele ficar inviável com uma concorrência desleal liderada por uma empresa que dita as regras e os preços num mercado desregulado, com tarifas baixíssimas bancadas pelos motoristas, enquanto o Uber morde em cada corrida escandalosos 25%.

Taxistas e motoristas do Uber deveriam estar do mesmo lado, encontrando um ponto ótimo, uma pauta comum. Vocês estão trocando socos e pontapés e só quem se beneficia com isso, dando as cartas em um mercado desregulado e com alto desemprego, é o Uber. A grande maioria só quer trabalhar e viver dignamente sem ser explorada ou ameaçada por uma grande corporação.

Então pra quê uma organização política? Para, por exemplo, pressionar o Uber a não cobrar 25% de cada corrida. Para que o Uber, como um prestador de serviços normal, cobre um valor fixo pelo serviço prestado. Por exemplo, R$300,00 ao mês. De cada motorista! Duvido que não seja um excelente negócio para a empresa. Abre a caixa preta e negocia com os trabalhadores.

Grandes empresas com estrutura muito maior não exploram assim os seus contratantes ou assinantes. Empresas de telefonia, grandes jornais, tv a cabo, internet etc. Cobram uma mensalidade razoável. Todos os comerciantes e prestadores de serviço já reclamam dos 5% cobrados pelos cartões de crédito sobre cada venda. Imagina 25%?!

O Uber vende um belo discurso para esconder uma dura realidade para o motorista e o seu caráter de corporação predatória. Fala em aquecer a economia local e sustentabilidade, mas cria na verdade um negócio insustentável para o motorista. Muy parceiro…

Por fim, a nossa motivação aqui não é esgotar o assunto, nem o debate. Críticas são muito bem-vindas, inclusive aos números apresentados. A ideia é atualizar esta matéria com todas as contribuições vindouras. Agradecemos já a todos os motoristas do Uber entrevistados, que compartilharam a sua opinião e possibilitaram esta matéria

Motoristas do Uber. Vocês são trabalhadores.

Trabalhadores do mundo, uni-vos.

No Folha de Kronstadt

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