16 de abr de 2017

O Leopardo de Odebrecht

Quem espera que as delações da Odebrecht provoquem uma transformação do modelo político nacional deveria ouvir o que tem a dizer o autor italiano Tomasi de Lampedusa em seu clássico – O leopardo: “é necessário mudar, para que tudo fique na mesma”. 

gattopardo

A implosão do sistema partidário brasileiro através das delações da Odebrecht à Lava Jato atende a dois objetivos: Lula preso e as reformas neoliberais aprovadas.

Tudo na mesma I – Lula preso

Caso Lula seja preso, haverá uma comoção social no país. Bem, a comoção já foi providenciada, agora só falta Lula ser preso.

Não há autoridade moral na Lava-Jato para prender Lula enquanto políticos tucanos sequer são investigados. Bem, não sobrou um tucano para contar a história, agora só falta prender o Lula.

Desde 2005 – lá se vai mais de uma década – acostumamo-nos a ver ações do Judiciário sincronizadas com o tempo político-partidário. Pensei nisso quando da espetaculosa divulgação da mais nova lista de políticos delatados na Lava Jato. A Lista de Janot II.

Agora estamos às vésperas do depoimento de Lula ao juiz Moro – faltam pouco mais de 15 dias. Dá-se, há tempos, como favas contadas, a sua condenação.

O clima para tanto está criado. Quanto ao preço por isso, a implosão do sistema político brasileiro, recomento o grande texto do colega Jeferson Miola

Para o PSDB, o preço será módico. Pagará o preço “José Mayer”: algum tempo na geladeira até que esqueçam do pecado e a volta no papel de um padre preocupado com questões sociais. Silêncio na mídia, longos processos no STF para os que têm foro privilegiado e para os que não o têm também – veja-se o desfecho do caso Marka-FonteCidam – até a prescrição. Para FHC, nem isso – basta a justiça paulista não aceitar o caso, o ex-presidente tem mais de 80 anos e os acontecimento são do final da década de 1990.

Tudo na mesma II – Temer solto e reformas neoliberais garantidas

Gostaria, no entanto, de tratar do segundo objetivo.

O segundo é aprovar as reformas. Deram um golpe para isso.

Porém, para tanto, é preciso manter, apesar de tudo, o governo Temer. Não é à toa que Janot descartou de princípio qualquer investigação em relação a ele. Mas também a mídia.

E, em relação à mídia, busquei comparação entre os casos atuais dos ministros de Temer e do próprio presidente com um caso de 2010 – O caso Erenice Guerra.

Erenice Guerra era a secretária-executiva de Dilma na Casa Civil e foi sua sucessora quando Dilma se candidatou a primeira vez para a presidente. Foi fulminada em uma campanha sórdida que a acusou de vender facilidades para financiamentos no BNDES.

Acompanhar tal caso e compará-lo com o do ministério Temer é didático para perceber o quanto tem de “Leopardo” o momento atual.

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Erenice acusada por manchetes em primeira página da Folha de São Paulo com denúncias de alguém condenado por receptação de cargas roubadas e dinheiro falsificado: “Fiquei horrorizado de ter de pagar”.

Dois anos depois, em 2012, Erenice foi absolvida por faltas de provas. A Folha noticiou de forma inusitada – fazendo-lhe novas acusações para dizer que nada havia contra ela.

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Mas, e agora com o governo Temer?

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Caberia à mídia encabeçar uma campanha por uma reforma ministerial, nem que fosse para pedir do “ministério ético” que cobrou de Collor – se não a própria renúncia de Temer.

Mas o mais fraco dos presidentes pós-redemocratização canta de galo.

E por quê? Porque é fiador das reformas neoliberais.

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E é aqui as delações da Odebrecht podem ser de uma utilidade imprescindível.

O Senado mostrava-se recalcitrante em relação a elas, mas, com 24 senadores e 39 deputados no partido da Lava Jato, Janot tornou-se líder de uma das bancadas mais poderosas do Congresso.

Seria interessante saber sua opinião sobre as reformas trabalhista e da previdência.

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PS1: quem não se interessa por literatura poderia analisar o que era a Itália antes da Operação Mãos Limpas e o que se tornou após ela. Antes, era a Máfia, depois, Berlusconi transformou a Itália em um país que se rivaliza com a Alemanha na economia está à frente da Suécia em direitos sociais.

PS2: bunga bunga per tutti e buona Pasqua.

Sergio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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