7 de abr de 2017

Nassif: O dia em que denunciei o Plano Cruzado (+ vídeo)


No dia do Jornalista, um pouco das minhas memórias da imprensa

Soube do Plano Cruzado na véspera do seu anúncio. O Ministro da Fazenda Dílson Funaro ligou para casa e pediu que fosse a Brasília, pois haveria notícias bombásticas. Liguei para Otávio Frias, dono da Folha. Como era impossível conseguir vôo àquela hora, Frias conversou com Amador Aguiar, que emprestou o avião do Bradesco.

O telefonema de Funaro se devia à defesa que fiz, algum tempo antes, de uma mudança no Imposto de Renda preparado pela equipe econômica – constituída pelos economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e João Manuel Cardoso de Melo, da Unicamp.

Antes de analisar seu conteúdo, os jornais caíram matando, informando que se tratava de aumento de tributação.



Na época computadores e planilhas eram de utilização escassa. Montei uma planilha com simulações e comprovei que a nova tabela reduzia o IR na fonte para quem ganhava até 40 salários mínimos. Portanto, era progressiva – isto é, taxava mais quem ganhava mais.

Seguiu-se uma polêmica, inclusive internamente na Folha. Havia um editorialista, professor da FEA (Faculdade de Economia e Administração) da USP, que questionou minhas contas.

Otávio Frias, o dono da Folha, me chamou no jornal para discutir com o professor na sua frente. Era um dos expedientes sagazes de Frias. Se ele não dominasse o assunto, colocava as duas pontas para discutir na sua frente para constatar ao vivo quem tinha o argumento mais sólido.

Cheguei ao jornal, Frias estava ocupado, mas colocou o jornalista Marcelo Coelho de árbitro. Na hora de confrontar os cálculos, constatei, algo abismado, que o economista aplicava as alíquotas diretamente em cada faixa de renda, sem abater a dedução da faixa.

Perguntei se não iria aplicar a dedução e, para minha surpresa, ele não sabia dela. Não conhecia os princípios da tabela progressiva.

A Folha decidiu, então, apoiar o pacote. Cheguei em Brasília, rumei para a Fazenda. Não encontrei ninguém, todo mundo fechado em reuniões. As notícias saíam a conta-gotas, quando alguém saía da sala. Só no começo da noite, vieram notícias mais consistentes. Dada a importância do fato, a Folha escalou o Clóvis Rossi para fazer dobradinha. À medida em que ia conseguindo as informações, passava para ele, por telefone, que redigiria a notícia.



Na Fazenda havia um jovem assessor, provavelmente no seu primeiro trabalho, de nome Mário Rosa – depois, tornou-se especialista em administração de crises. Tentou interromper meu telefonema para a Folha, dizendo que não podia gastar telefone público para atividades privadas. Fulminei-o com um olhar, ele ficou quieto, passei o recado e, depois, me lembrei de lhe dar uma bronca. Mas já tinha caído sua ficha.

O plano foi anunciado. Nos dias seguintes, seguiu-se uma batalha de informações, para explicar a lógica do plano.

Aqui, uma pequena digressão.

O plano matemático

No meu período de Veja, cobrindo finanças e economia, sentia enorme necessidade de entender a matemática do mercado, para não depender de analistas de corretoras, principalmente depois da aceleração da inflação, período em que o manejo de taxas permitia ganhos imensos ao mercado – e perdas aos clientes. Veja me pagou um curso de matemática financeira com o José Dutra Vieira Sobrinho, melhor professor da época, ensinando em calculadora financeira.


Adquiri uma Texas financeira no Mappin. Quando tentei montar uma taxa interna de retorno para prestações diversas, de consórcios de carros, me dei conta da insuficiência da máquina. Apertei o orçamento e troquei por uma HP 38C – a antecessora da campeoníssima HP 12C.
Nos anos seguintes me aprimorei na matemática financeira, aprendi a programar em computadores – que, na época, só aceitavam programas em Basic – e tornei-me um especialista em contas, seja do Sistema Financeiro da Habitação, das operações ativas e passivas de mercado. Criei uma seção, a Cartilha do Investidor, na coluna Dinheiro Vivo, que mantinha na Folha.

Pouco antes do Cruzado fui a uma viagem a passeio à Argentina. Chegando lá, vi pelos jornais o anúncio do Plano Primavera, com as famosas tablitas – a tabela que deflacionava  valores descontados no decorrer do mês.

Deixei as férias de lado e fui atrás do Roberto Frankel, um dos pais da Primavera. Lá, pedi que me explicasse a lógica das tablitas. Publiquei na Cartilha do Investidor. Tempos depois, os Cruzados me disseram que suspeitaram que alguém tivesse vazado as informações do plano para mim.

Por isso, foi bem fácil analisar cada decreto do Cruzado, de conversão dos contratos de cruzeiros para cruzados, pois deveriam responder a uma lógica matemática.

O telefonema elogioso de Saulo

As explicações e a defesa do Cruzado me custaram um telefonema de Brasília, do então consultor geral da República Saulo Ramos, me agradecendo em nome do José Sarney e me taxando de “baluarte do Cruzado”.

Dona Tereza, minha mãe, ainda era viva, morando alguns andares abaixo do meu apartamento. Testemunhou o telefonema e me perguntou, preocupada:

- Meu filho, onde você está errando?

De fato, foi um elogio que me preocupou.

Dias depois, fui a um almoço onde estava o Luiz Carlos Mendonça de Barros, diretor do Banco Central e o especialista em mercado do grupo. Ele me chamou de lado e me passou a informação, preocupado:

- O Saulo soltou um decreto que reinaugura a indústria da liquidação extrajudicial.

Antes de assumir a Consultoria Geral, Saulo fizeram fortuna com as liquidações. O jogo consistia no banco quebrar, o rombo ser coberto pelo FGLI (Fundo Garantidor de Liquidez). Depois, tinha início a liquidação. Os ativos do banco – imóveis, bens em geral – tinham preço real de mercado, acompanhando e muitas vezes superando a inflação. Já o FGLI permanecia congelado. Bastaria segurar por alguns anos a liquidação, para a dívida virar pó e o banqueiro sair rico.

Deixei o Luiz Carlos e busquei outras confirmações. Fui até um evento onde estava o Fernão Bracher, presidente do Banco Central, que também se assustou com a informação. Antes que eu explicasse o teor do decreto, disparou:

- O Funaro havia dito ao Saulo para não permitir jogadas com as liquidações extrajudiciais.

Aparentemente já sabia do decreto mas, dada a influência de Saulo sobre Sarney, não havia conseguido demovê-lo.

De fato, quando Tancredo Neves morreu, enquanto Ulisses Guimarães e o MDB ficavam imersos em crises existenciais, Saulo agira rapidamente e assegurara o cargo para o vice-presidente José Sarney.

Cheguei na redação e procurei mais informações com juristas. Procurei Fábio Konder Comparato e outros, mas não encontrei. Aì consegui falar com Ives Gandra da Silva Martins. Ele confirmou na hora a jogada:

- O decreto de fato anula o parecer Brossard.



Não sabia o que era. Me explicou que era um parecer de Brossard, que se tornara jurisprudência, ordenando a correção monetária dos fundos públicos nas liquidações.

Redigi a manchete denunciando o fato.

No dia seguinte, rumei cedo para o jornal. Lá, estava o alvoroço armado. Funaro ligava tentando falar com Frias. Como ele não havia chegado, me encaminharam a ligação.

Ele estava transtornado. Disse que Sarney convocou uma reunião de vários ministros, o da Fazenda, o da Casa Civil e até o da Casa Militar. A denúncia poderia desestabilizar o Cruzado, que dependia fundamentalmente da credibilidade para impor o congelamento. Saulo foi incumbido de me dar todas as explicações.

Antes de sair, liguei novamente para Ives, para entender mais um pouco a jogada e fui até à casa de Saulo, na Granja Viana. Recebeu-me com simpatia, deu as explicações técnicas. Avisei que, como não era do ramo, iria checar as informações com advogados.

Voltei para a Folha. Na redação, o Salgado, velho repórter do jornal que me ajudara nas entrevistas com advogados no dia anterior, veio ao meu encontro com ar preocupado.

- O Ives mijou para trás.

- Como assim?

- Disse que você não entendeu direito o que ele lhe disse.

O mundo desmoronou. Imediatamente liguei para Ives.

- Ives, é impossível eu ter deduzido qualquer coisa. Se fosse tema de economia, até poderia ser. Mas é um tema jurídico, do qual nunca tinha ouvido falar. Até conversar com você, nunca tinha ouvido falar no tal parecer Brossard.

- Lamento, mas você entendeu errado.

Frias me ligou em seguida. Disse-lhe que minha fonte havia recuado. Nesse ínterim, me telefona o Rubens Approbato Machado, futuro presidente da OAB nacional, e com quem eu tinha mantido contato por ocasião da campanha nacional contra o SHF, que montei junto com a OAB São Paulo.

Falou alguma coisa, disse que Ives havia ligado para ele e percebi que apenas queria me dar uma saída honrosa. Recusei.

- Se errei, assumo.

E redigi de próprio punho a manchete que decretava meu fim no jornalismo. Saí de lá, fui para casa. A esposa e as filhas tinham ido para Bragança e fiquei sozinho.

À noite, recebo telefonema de Ives.

- Que pena, Nassif. Mas o Mathias (Machline, amigo pessoal de Sarney) me ligou pedindo para o Instituto dos Advogados dar um parecer em favor do Saulo, caso você não fosse convencido por ele.

Acertaram sem querer a minha fonte, que recuou. Simples assim.

Caindo a ficha

Na manhã seguinte, acordei na mais completa ressaca emocional, com o telefone tocando. Era o José Carlos de Assis, ex-repórter da Folha, que se notabilizara pelas denúncias dos casos Capemi e Delfim – dois macro escândalos que aceleraram o fim do regime militar.

- Porque você recuou? Você estava certo.

Expliquei o recuo do Ives. E o Zé:

- Ele afinou, mas a informação inicial estava certa.

E me deu uma aula sobre as jogadas das liquidações e os efeitos do decreto de Saulo.

Imediatamente pulei da cama e fui para a Folha. Lá tentei, em vão, que a Folha retomasse o teor da denúncia inicial. E com razão. Como me disse Frias:

- Depois do recuo de domingo, com que cara vamos retomar as denúncias?

Expliquei o golpe em que havia caído, mas era tarde. Nos dias seguintes, me empenhei como um louco atrás de informações para retomar as denúncias.

Foi uma guerra.

A revogação do decreto

Cada opinião de advogado que eu levantava, Frias conversa com o advogado Walter Ceneviva, que tinha uma coluna jurídica no jornal, e desclassificava a fonte. Um era inexperiente, o outro tivera um caso com uma cantora. Qualquer desculpa servia.

Mas fui juntando dados. Conversei com Paulo Brossard, com um deputado federal gaúcho, ligado a ele, reconstituí os golpes das primeiras liquidações.

Junto com as avaliações, vinham informações pesadas contra Saulo. Uma delas, era de um inquérito sobre a Financeira Ideal, na qual Saulo tentou aplicar um golpe e receber o pagamento em letras de câmbio frias.

O então deputado federal Herbert Levy me ligou, passando informações sobre o escândalo do café, no governo Jânio Quadros, tendo Saulo como mentor. O jovem Saulo conseguiu espaço no governo Jânio Quadros e planejou uma jogada especulativa desastrosa com café na Bolsa de Nova York - depois, repetiria a aventura com a Operação Patrícia, no governo Sarney.

A operação teve papel central na derrocada do grupo Wallace  Simonsen, destruído pelo regime militar, em um procedimento semelhante ao adotado contra a Odebrecht. Simonsen perdeu a Panair e a TV Excelsior. E era considerado aliado de Jango.

Fui atrás das informações passadas por Levy e descobri que o desfecho do escândalo foi no governo Jango, com o Ministro da Fazenda Carvalho Pinto.

Houve covardia coletiva das principais autoridades, incluindo Carvalho Pinto. Sobrou para um diretor do Banco do Brasil que tomou medidas em favor do banco, evitando que fosse exposto às jogadas. Ele acabou se suicidando.

Consegui o telefone da família e liguei para a viúva, que me fez um apelo dramático.

- Por favor, não entre mais nisso. Minha família já sofreu demais. Depois da morte do meu marido precisamos tirar as crianças das escolas particulares, nossa vida mudou muito, sofremos muito. Queremos esquecer tudo.

Acabei não usando o material.

A cada dia que passava, ficava mais difícil publicar na Folha. Colegas me informaram que Saulo fora recebido em almoço por Frias. Ambos conviveram na época da TV Excelsior.

Com a morte de Casper Líbero, fundador da Gazeta, Frias assumira a presidência da Fundação Casper Líbero e conseguiu levar para lá parte dos equipamentos da Excelsior, além de levar a impressão de A Gazeta e da Gazeta Esportiva para a Folha.

Mas os almoços de Saulo na Folha eram para tratar de temas mais contemporâneos do que as lembranças passadas. Acabaram se acertando.



Um dia eu estava na sala do Boris Casoy quando chegou Otávio Frias. Discutimos um pouco e ele voltou a questionar a seriedade das minhas fontes. Desafiei-o:

- Uma das minhas fontes é um Ministro do Supremo. Vou ligar e o senhor fala com ele.

Frias recuou.

Era Sidney Sanches, ministro sério do Supremo. No meio do tiroteio, liguei para ele, que me explicou como se dava o lusco-fusco, os decretos que abriam brechas para jogadas.

- Quem quer clareza, escreve claro, foi o recado.

A maior parte dos decretos de Saulo era redigido por um brilhante procurador que ele levara de São Paulo: o futuro Ministro do STF Celso de Mello.

À noite, em alguns fechamentos, tive embates ferozes com o Caio Túlio Costa, que era o Secretário de Redação da noite. Bom colega, bom jornalista, recebeu a tarefa espinhosa de justificar o fato de não mais publicar minhas denúncias contra Saulo.

Decidi buscar outras saídas. O caminho seria procurar outros veículos.

Fui até Brasília. Visitei Castelinho, Carlos Castelo Branco, principal cronista político do país na época. Contei a história e ele fez uma coluna em minha defesa.

Mino Carta e Nirlando Beirão fizeram uma longa entrevista que saiu publicada na revista Senhor.

Depois, fui até Júlio de Mesquita Neto, diretor de redação do Estadão. Apesar de ter trabalhado três anos no Jornal da Tarde, nunca havia conversado com ele.

Contei a história do Saulo e pedi apoio. Por aqueles tempos, imerso em crise financeira enorme, o Estadão estava depauperado, praticamente sem repórteres. A reação de Júlio Neto foi republicar a entrevista da Senhor na página 4, “A Pedidos” (clique aqui).

Em duas semanas o jogo virou. E Funaro precisou vir a público informar que havia saído outro decreto, corrigindo o anterior.  Saulo foi aconselhado a sumir. Pegou um avião e permaneceu um mês fora.

Terminava ali o primeiro tempo do jogo. Pouco tempo depois, fui demitido da Folha. Aliás, ganhei alguns meses de prazo porque no dia em que iriam me demitir foi anunciado o Prêmio Esso. E as reportagens sobre Saulo levaram o Prêmio principal.

O segundo tempo viria em seguida, envolvendo escutas, ações judiciais, perseguição política, revelando o comportamento de grandes pequenos homens públicos da época.

Luís Nassif
No GGN


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