1 de abr de 2017

Manual do perfeito midiota # 69

Na indústria da comunicação é sempre possível fazer uma mudança tão radical que não se sai do lugar.


Esta é uma semana histórica para o jornalismo brasileiro: a Folha de S. Paulo, que tem sido pioneira em novidades no negócio da comunicação, decidiu dar uma reviravolta em sua linha editorial.

Antes, porém, um esclarecimento: reviravolta quer dizer “dar a volta sobre si mesmo; ato ou efeito de fazer a volta”.

A Folha anuncia que vai fazer Jornalismo!

O primeiro tópico da nova orientação é de encher de esperança o mais devoto dos midiotas.

O projeto, que pode ser lido aqui, começa por afirmar o seguinte:

“1. Confirmar a veracidade de toda notícia antes de publicá-la.”

Essa é a essência da “revolução” em curso: resgatar a única justificativa moral do jornalismo como negócio – o pressuposto da busca objetiva da realidade.

Depois se seguem aquelas afirmações sobre as quais é preciso assestar todos os dias a lente da leitura crítica.

Por exemplo, o diário paulista tenciona “promover os valores do conhecimento, da solução pacífica dos conflitos, da livre-iniciativa, da equalização de oportunidades, da democracia representativa, dos direitos humanos e da evolução dos costumes”.

Há ainda referências a apartidarismo, compromisso de identificar e corrigir erros de informação, busca de equilíbrio em questões contraditórias e distinção clara entre informação e opinião.

Não é nada, não é nada, o anúncio solene da Folha não é nada mesmo.

Ou, pelo contrário, é um resultado da constatação de que, seguindo na mesma linha de seus pares, o jornal estará condenado à extinção.

Isso pela simples razão segundo a qual nenhum órgão de informação sobrevive com base numa dieta de midiotas – é preciso um cardápio de leitores críticos e inteligentes para que um jornal tenha qualquer relevância diante da História.

O resto é imprensa marrom.

O anúncio da Folha se situa num momento histórico em que a inteligência que resta nos grandes veículos da imprensa se vê embaraçada pelo fato de que a mídia hegemônica apoiou e estimulou a aventura golpista que substituiu a presidente eleita por um bando de aventureiros, quebrando o equilíbrio do sistema da República.

O personagem que conduziu o processo acaba de ser condenado a quinze anos de prisão por corrupção, enquanto não se acha em todo o emaranhado do processo um documento que incrimine a presidente afastada.

Essa é uma evidência tão clara que foi admitida até mesmo pelo insuspeito O Estado de S. Paulo, ainda que sob a forma de artigo. Nele, o professor de sociologia política Leonardo Avritzer afirma que “paira sob (sic) o processo de impeachment a pergunta sobre o tamanho da influência de Eduardo Cunha na remoção de uma presidente legitimamente eleita sob (sic) a qual não pairavam acusações graves” (ler aqui).

O inquilino colocado no Planalto não consegue tomar decisões, vive assediado por escândalos e também é suspeito de ter sido eleito com financiamentos ilegais, como a maioria dos parlamentares que o colocaram no poder.

O pior, do ponto de vista dos interesses da imprensa hegemônica, é que ele não cumpre a pauta que o levou ao poder: em vez de cortar o custo do Estado, ele lança para o futuro um enorme buraco nas contas públicas, ao mesmo tempo em que ameaça a Previdência Social, ataca direitos trabalhistas históricos e projeta aumento de tarifas que vão onerar os negócios.

É certo que ele poupou o negócio da imprensa da desoneração tributária que atingiu quase 50 setores, entre os quais as indústrias de alimentação, de alta tecnologia e de máquinas e equipamentos.

O mimo com que presenteou os jornais não terá o efeito político desejado, porque até o mais idiota dos gestores (e os há aos montes na imprensa) entende que não adianta nada ter o incentivo fiscal se os anunciantes, pressionados por maiores custos, cortarem a publicidade.

Há, portanto, um movimento nas grandes empresas de comunicação.

O primeiro ato é da Folha, que desde os anos 1980 se destaca por balançar o extremo conservadorismo do setor.

O grupo Globo não dá sinais de mudança, por enquanto, e continua apostando que todo brasileiro é um clone de Homer Simpson. Os irmãos Marinho parecem acreditar que alguma coisa vai acontecer antes de 2018 e impedir o que todas as pesquisas apontam: o retorno do sr. Lula da Silva a Brasília.

Como a operação Lava-Jato anda perdendo pressão, talvez eles estejam esperando os frutos do clima de ódio e virulência política que seus servidores espalharam pelas classes médias urbanas nos últimos anos.

O Estado de S. Paulo é um velho elefante conduzido por insensatos. Dos três grandes, é o que caminha mais resolutamente rumo à insignificância.

Ainda a propósito de reviravoltas, uma lembrança: nos anos 1990, quando O Estado anunciou novidades em sua estratégia editorial, um de seus diretores, integrante da família Mesquita, esclareceu que aquele momento representava “uma mudança de 180 graus na história do jornalismo”. Em seguida, achou conveniente enfatizar: “180, não! Uma mudança de 360 graus!”

Assim, ficou registrado para a posteridade como na indústria da comunicação é sempre possível fazer uma mudança tão radical que não se sai do lugar.

Luciano Martins Costa
No Brasileiros

Um comentário:

  1. Eles se esquecem que existe internet onde qualquer um pode dar opinião e fazer críticas e tambem criar sua própria noticia (com custo super-hiper-mega pequeno). Ou eles baixam seus custos para os anunciantes ou vão ficar pequenos. É isto no que dá a concorrência desleal.

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