7 de abr de 2017

Em lançamento de livro, FHC culpa o PT pelo ódio enquanto distribui rancor e chuta adversários caídos

FHC e uma fã no lançamento de seu livro no Leblon
O lado bom de ser um político como Fernando Henrique é que há sempre um palco, um microfone e, depois, uma manchete perto de você. O lado ruim é esse também.

FHC vem falando muito, com a repercussão invariavelmente grande na imprensa que sempre o cultivou como seu golden boy. Está especialmente serelepe agora com o lançamento do terceiro volume dos “Diários da Presidência: 1999-2000”.

Tem a chamada “mídia espontânea” para ajudar a vender o livro. O problema são as armadilhas que ele arma para si mesmo nessa sede de exposição narcisista.

O lançamento da obra numa livraria bacana no Leblon teve momentos de falta de noção de tempo e espaço sintomáticas.

FHC sacou de novo sua fórmula para explicar a radicalização política do Brasil: é tudo culpa do PT, que inventou o PSDB como “inimigo principal” por razões eleitoreiras e então o “diálogo se perdeu”.

“Democracia exige certo grau de aceitação um do outro. Acho que só vamos sair de onde estamos se criarmos de novo um ambiente que permita um jogo de divergências e não de ódio”, disse.

FHC e o PSDB formaram na linha de frente do golpe desde a não aceitação do resultado das eleições.

Aécio e o pitbull Carlos Sampaio se aliaram a Eduardo Cunha numa campanha suja e difamatória pelo impeachment. Essa guerra incendiou o país, criou monstros fascistas como o MBL, deu espaço para Jair Bolsonaro — mas a culpa continua sendo do PT.

Ele conseguiu repetir essa ladainha dias depois da palestra de Bolsonaro na Hebraica do Rio, em que ele comparou negros de quilombos a gado, ponderando sobre sua capacidade reprodutiva, gritou que japonês é “uma raça” que não pede esmola porque tem “vergonha na cara” — tudo como convidado por um clube judaico.

É uma obsessão. Agora, note as circunstâncias do evento. Ao seu lado, a amiga Miriam Leitão, que de cada cinco colunas dedica quatro delas a massacrar Dilma, mesmo chutada do poder.

A alturas tantas, FHC achou por bem fazer troça de José Dirceu, condenado, na prática, à prisão perpétua.

“Uma vez, eu ouvi uma declaração do José Dirceu, coitado, está na cadeia hoje, lamento, perguntando por que eu não ia cuidar dos netos. Uma coisa grosseira, está velho, vai embora. Eu me dava com eles”, contou, naquela pisada clássica na cabeça de um adversário que está no chão.

Segundo o Globo, a plateia de cinquenta pessoas “reagiu com gargalhadas e aplausos”. Foi o momento em que a galera mais se entusiasmou. Ainda sobrou para Itamar Franco, um incapaz de quem FHC foi “ama-seca”, como se definiu.

Se estivesse sendo sincero sobre suas preocupações com o ambiente de hostilidade do país, teria tido um clique diante do show de rancor que estava protagonizando diante de um público sedento de sangue.

Kiko Nogueira
No DCM

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