26 de abr de 2017

Aeronautas aderem à greve geral. Remorsos?

Em várias viagens a trabalho constatei a postura elitista de alguns pilotos e comissários de voo. Lembro-me de um piloto que ao aterrissar em Congonhas, em São Paulo, aproveitou o serviço de som do avião da empresa Gol para convocar os passageiros a participarem de uma marcha golpista pelo impeachment de Dilma Rousseff. Recordo-me também da conversa de alguns aeronautas em um café no aeroporto de Salvador. A retórica machista contra a presidenta foi de dar nojo. Pensei em pedir aqueles saquinhos para vomitar – mas evitei o confronto. A vida, porém, é dura e dá voltas. Agora, a categoria – que não é composta majoritariamente por “coxinhas” midiotizados – está em pânico com a “reforma” trabalhista da quadrilha de Michel Temer e já manifestou a intenção de participar da greve geral marcada para a próxima sexta-feira (28).

Segundo matéria da Agência Brasil, “os pilotos e comissários de voo de todo país decidiram, em assembleia, decretar estado de greve para pressionar o governo e parlamentares a fazer mudanças no texto da reforma trabalhista que tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados. Uma nova reunião da categoria está marcada para a próxima quinta-feira (27), quando os profissionais decidirão se paralisam suas atividades ou encerram o movimento. Os aeronautas reclamam principalmente do trecho da reforma que trata do trabalho intermitente, permitindo a convocação apenas para trabalhos esporádicos, sem contratação permanente”. A revolta da categoria é plenamente justificada.

Conforme aponta o presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas, Rodrigo Spader, como as empresas aéreas têm períodos de alta e baixa na movimentação, o trabalho intermitente poderia ser aplicado, prejudicando os funcionários. “Nos períodos de baixa nós seriamos dispensados do trabalho e seríamos chamados somente quando a aeronave voasse novamente. Então isso atingiria tanto pilotos de pequenas aeronaves como de grandes empresas”. Ele ainda alerta que esta medida prejudicará a segurança do transporte aéreo. “Os pilotos e comissários necessitam ter um trabalho contínuo para a manutenção das suas habilidades técnicas. Se um aeronauta voa um mês e folga outro a todo momento, até os níveis de segurança de voo podem ser afetados”.

Ainda segundo a reportagem, outro ponto da contrarreforma trabalhista que gera revolta é o que trata da dispensa por justa causa no caso de perdas de licenças ou certificados. “Justamente em um momento de fragilidade do aeronauta, em que ele perde uma licença, ou por exame médico ou para voar em uma determinada aeronave, ele seria demitido sem direito ao saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), sem aviso prévio”, critica o presidente do sindicato. Rogério Spader ainda adota um tom conciliador para tentar superar estes retrocessos. Ele afirmou que pretende conversar nos próximos dias com o relator do projeto, deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) e apresentar emendas ao texto da reforma. “Queremos pressionar o governo para efetivamente negociar a reforma”, argumenta.

O problema é que o covil golpista já disse que não há mais espaço para negociação e o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia – que mais se parece com um jagunço dos patrões –, já garantiu que votará a contrarreforma nesta semana. O “golpe dos corruptos”, que iludiu tanta gente manipulada pela mídia, foi promovido exatamente para saciar a gula dos empresários. Como não dava para ganhar uma eleição presidencial pregando radicais retrocessos trabalhistas e sociais, os golpistas deram uma rasteira e abortaram a jovem democracia brasileira. E muita gente ingênua – que come mortadela, mas arrota caviar – caiu na conversa fiada dos falsos moralistas. Ainda bem que sempre há tempo para o arrependimento!

Altamiro Borges

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