8 de mar de 2017

Por que paramos: Opera Mundi participa da greve internacional de mulheres no dia 8 de março

'Se nossas vidas não valem, que produzam sem nós': nós, mulheres de Opera Mundi, nos uniremos a companheiras de todo o mundo e também vamos parar neste 8 de março de 2017


“Se nossas vidas não valem, que produzam sem nós.” Este é o mote da greve internacional de mulheres que está sendo convocada por organizações e coletivos feministas de vários países para esta quarta-feira, 8 de março.

No dia estabelecido no calendário mundial como celebração às lutas das mulheres por cidadania, direitos sociais e justiça de gênero, nós, mulheres de Opera Mundi, nos unimos a companheiras de todo o mundo. Voltamos às origens socialistas do Dia Internacional das Mulheres, levando nosso protesto ao campo do trabalho para evidenciar a urgência de nossas reivindicações.

Diante do machismo e da misoginia estruturais que tentam nos aniquilar simbólica e concretamente e que combatemos todos os dias de nossas vidas, propomos, por 24 horas, mostrar ao mundo como seria se nós, mulheres, de fato não existíssemos.

Se nós, mulheres brasileiras, não existíssemos, quem sobraria para ganhar 25% a menos do que os homens?

Se nós, mulheres brasileiras, não existíssemos, quem iria trabalhar 7,5 horas a mais do que os homens a cada semana – e dedicar o dobro de horas empregadas pelos homens nas tarefas domésticas?

Se nós, mulheres, não existíssemos, a quem seria relegado o trabalho de cuidado – de crianças, idosos e adultos vulneráveis – não remunerado e invisibilizado?

Além das injustiças sexistas no campo do trabalho – que, para a enorme maioria das mulheres brasileiras, especialmente as negras, é informal, mal remunerado e precarizado –, também paramos contra a violência perpetrada contra nós por homens misóginos e machistas.

Somente no Brasil, uma mulher é assassinada a cada uma hora e meia por um homem, em geral um membro da família ou um ex-parceiro. O Brasil tem a quinta maior taxa de feminicídios do mundo – são 4,8 mulheres assassinadas a cada 100 mil mulheres no país, segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Este número vem aumentando – de 2003 a 2013, o número de mulheres assassinadas por homens cresceu de 3.937 para 4.762, ou seja, mais de 21% na década. No caso das mulheres negras, a situação é ainda mais assustadora: em 2015, o Mapa da Violência sobre feminicídios indicou que, de 2003 a 2013, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875.

Paramos também contra a violência sexual de homens contra mulheres e crianças. Paramos porque, no Brasil, acontece um estupro a cada 11 minutos, segundo o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que divulgou que em 2014 foram registrados 47.643 casos de estupro em todo o país.

Paramos porque, segundo dados também de 2014 do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 67% dos casos de estupros de mulheres são cometidos por parentes próximos ou conhecidos das famílias; 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes e apenas 10% dos estupros são notificados. Paramos porque a maioria dos agressores não é punida e porque a maior parte da sociedade insiste em responsabilizar as mulheres pela violência que sofremos.

Nós paramos neste 8 de março também pelas mais de 500 mil mulheres que abortaram na clandestinidade em 2015 no Brasil, assim como pelas cerca de 180 brasileiras que morrem a cada ano em decorrência de abortos inseguros. Paramos, portanto, para exigir a legalização do aborto e o acesso ao procedimento legal, seguro e gratuito no sistema público de saúde, assim como o acesso à contracepção e a programas de saúde reprodutiva para todas as mulheres do país.

Paramos em solidariedade. Paramos não só por nós, mas especialmente pelas que não estão mais entre nós, mortas pelas mãos de homens misóginos ou pela violência do Estado na criminalização do aborto. Paramos pelas que ainda virão e para quem queremos construir um mundo onde não mais tenhamos que parar para gritar por justiça e por nenhuma a menos.

Mulheres já mostraram sua força por meio da greve em vários lugares do mundo. Na Islândia, no dia 24 de outubro de 1975, 90% das mulheres do país pararam em protesto à injustiça de gênero que se evidenciava nas diferenças de salários entre homens e mulheres e na representação majoritariamente masculina no Parlamento islandês. Cinco anos depois, o país nórdico viria a eleger Vigdis Finnbogadottir, a primeira mulher no mundo a ser escolhida democraticamente como chefe de Estado, e hoje a Islândia é um dos países em que mais há igualdade entre homens e mulheres, como atesta o Índice Global de Desigualdade de Gênero do Fórum Econômico Mundial.

Mais recentemente, no dia 3 de outubro de 2016, as polonesas impressionaram o mundo ao ocupar as ruas de várias cidades do país vestidas de preto, em protesto à tentativa do governo conservador – ainda que liderado por uma mulher, a primeira-ministra Beata Szydło – de proibir totalmente o aborto. Depois dos protestos, o governo desistiu das mudanças na lei de aborto na Polônia – já uma das mais restritivas da Europa, permitindo o procedimento apenas em casos de risco para a gestante ou gravidez resultante de estupro – e a proposta foi rejeitada por uma vasta maioria no Parlamento.

Por tudo isso e por todas nós, neste 8 de março, convidamos as mulheres que nos leem em Opera Mundi a parar conosco e a ir às ruas em uma das dezenas de manifestações espalhadas pelo país.

Vivas e livres nos queremos!



Carolina de Assis, Geovana Inocencio, Laisa Beatris, Renata Hirota e Vanessa Martina Silva.

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