20 de mar de 2017

Os especialistas e o sequestro do esclarecimento


Em O Desentendimento, Jacques Rancière fala da presença dos “especialistas” na mídia com um certo desconforto. Para ele, a crença em que especialistas saberiam mais do que o cidadão, sobre a experiência que o afeta, guarda um truque obscuro, que promove menos, não mais, entendimento e esclarecimento. O que justifica que especialistas tenham um lugar privilegiado para se discutir questões do cotidiano, da vida em comum, entre vizinhos, de percepções e experiências? De onde vem que conhecer a filosofia prática de Kant seja credencial para esclarecer uma crise hídrica ou uma briga sobre o cercamento de um parque? Por que precisamos, nas televisões, jornais e mídia em geral, que um psicanalista nos esclareça que a dor faz parte e que sentimos medos nem sempre justificados?

Vejam, especialistas, por definição, lidam com objetos de tal maneira que se tornam, justificadamente, bastante alheios ao entorno. Eu tive algumas sortes no meu processo de sociabilidade, mas há dias em que me sinto muito estranha, argumentando como se estivesse entre pares da filosofia. O resultado é meio catastrófico: oscilo entre uma nerd maluca, ou entre uma idiota que problematiza coisas simples e evidentes, ou que não consegue deixar passar o que parece óbvio.

Psicanalistas de jornal e professores universitários de tevê e de jornal sempre me causaram um certo desconforto. Mesmo Chomsky.

Há uma necessária coerência entre teoria e prática, que se impõe, a despeito de nossas certezas. A gente pode parecer razoável, mas o fato é que estudar a sério alguma coisa não te ajuda a falar do cotidiano. Acredito que o mesmo se aplica à clínica.

Como uma pessoa que se trata há muitos anos, afirmo que não curtiria ver meu ou minha psica em jornal. Isso prejudica a minha transferência, um quesito sem o qual não rola tratamento, simplesmente.

Mas peraí: estou defendendo a guetização das intervenções em esferas públicas? Sim e não. Sim, estou defendendo a formação de laços intra-estamentos e estruturas burocráticas e cognitivas. Isso enriquece e constitui representações sem as quais as esferas públicas, elas mesmas, não se constituem, com potência de iluminarem setores fora das bolhas. E, não: estou defendendo que a cidadania fale, qua cidadania, como vizinhos, usuários de bicicletas, frequentadores de feiras, subidores de árvores com bisavós, tomadores de sorvete sem lactose.

A substituição da cidadania, nas esferas públicas, pelas figuras dos especialistas, promove desentendimento e obscurantismo. Eventualmente, não raro, desvelam pouco profissionalismo desses especialistas, que, no mais das vezes, são sequestrados pelos holofotes. E isso, no caso da clínica, pode implicar mais que pouco profissionalismo, porque tem impacto no cuidado com o outro, o paciente.

Para a cidadania e o exercício democrático, há um outro problema, aí: a promoção de gurus, sempre, de araque. Esses gurus de araque, além de xaropaldos de plantão, não acrescentam nada senão dinheiro aos próprios bolsos em memes compartilhados com seus truísmos ignorantes e arrogantes. Numa sociedade conflagrada como está a nossa, isso só tende a piorar.

Nada contra psicanalistas comentando padecimentos mentais ou imunologistas comentando as últimas do tratamento do câncer.

Tudo contra o sequestro do debate e da discussão da cidadania e seu destino por gurus de araque. Ninguém precisa disso, nem deve precisar. Olhemos para o lado, olhemos para as coisas, de novo.

Katarina Peixoto
No RSUrgente

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