26 de mar de 2017

Idades

Não sou religioso. Devo ter deixado minha fé no bolso da fatiota azul, de calças curtas, com que fiz minha primeira comunhão. E a única coisa de que me lembro do evento, além da fatiota (e da gravata prateada!) não é a emoção de receber a hóstia no rito eucarístico, são os doces que tinha em casa, depois. Acho que foi ali que fiz a minha opção preferencial pela perdição. Invejo quem tem fé, mas não posso deixar de pensar que a minha religião particular, uma espécie de panteísmo urbano (devoção por pastéis e boas livrarias e a crença de que há um deus, sim: o deus do oboé, que além de ser um instrumento divino é o que afina todos os outros), é a única sensata, em meio à crise mundial do monoteísmo. 

Bons tempos em que, em vez de não ter mais idade, nós ainda não tínhamos idade. E sonhávamos com tudo o que viria, quando tivéssemos. Entrar em filme proibido até 14 anos. Beber e fumar. (O importante não era a bebida e o cigarro, era a pose que se fazia bebendo e fumando. Ficar adulto era adquirir a pose.) Beijar como beijavam nos filmes – principalmente os proibidos até 14, já que nos proibidos até 18, que não nos deixavam ver, ninguém sabia o que acontecia. Ficar acordado até mais tarde. Ganhar a chave da casa. Dirigir carro. Deixar crescer um bigode. Ou um projeto de bigode.

Ainda não ter idade era ficar pinoteando no partidor, indócil, como um cavalo esperando a largada. E não ter mais idade é ficar com esta impressão que até um ato de revolta por tudo que não fizemos quando tínhamos idade e agora não podemos mais, não seria, assim, apropriado para a nossa idade.

Pintinha.

Sempre acreditei que jogar papel impresso fora é pecado. Já fui um fundamentalista, daqueles de guardar até volante de dedetizadora, mas minha mulher conseguiu, aos poucos, me trazer para a razão. Hoje, já aceito que doar livro não é o mesmo que jogar no lixo e que o limite da existência de uma revista é exatamente o limite entre o papel e o farelo. Mas ainda sofro para me desfazer de suplementos guardados para ler depois que não leria nunca, pois não se distingue mais o texto do mofo. E por estes dias, tentando arrumar meus papéis e livros num daqueles periódicos surtos de virtude que nos acometem, e do qual nos arrependemos em seguida, dei com algumas cadernetinhas quase em decomposição e a revelação de que eu era muito mais organizado na adolescência. Uma das cadernetas, por exemplo, é de telefones e endereços caprichosamente anotados e com lembretes crípticos, como “Ana Maria (a da pintinha)”. Não tenho a menor ideia de quem era a Ana Maria, mas acho que me lembro da pintinha. E em outra caderneta tentei manter um registro detalhado dos meus gastos em Nova York, quando morávamos em Washington e as minhas aventuras solitárias na cidade grande eram com orçamento apertadíssimo. Há alguns espantos. Passagem para NY (de ônibus): 5 dólares. Almoço em NY: 90 centavos. Cinema: 70 centavos. Revista (provavelmente de sacanagem): 35 centavos. Subway: 15 centavos. Entrada para ouvir jazz no Birdland: um dólar e 25!

O ano era 1954. E o mais espantoso: eu tinha 18 anos!

Luís Fernando Veríssimo

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