16 de fev de 2017

Repórteres da Record presos na Venezuela trabalhavam ilegalmente no país

Gilson Fred Oliveira (à esq.) e Leandro Stoliar ao desembarcar no Brasil na segunda (13)
Os repórteres Leandro Stoliar e Gilson Fred Oliveira, detidos na Venezuela no último final de semana enquanto gravavam uma série de reportagens para o Jornal da Record, trabalhavam no país de forma ilegal, sem visto. Eles podiam apenas visitar o país como turistas, não como jornalistas profissionais. A Record tem omitido esse fato das reportagens em que se coloca como vítima de “prisão arbitrária” e de “censura”.

A informação foi confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores. De acordo com o Itamaraty, Stoliar e Oliveira entraram na Venezuela na quarta (8) sem nenhum visto. O país vizinho não exige o documento para turistas brasileiros, mas é necessária uma autorização especial para trabalho, inclusive temporariamente, como a produção de reportagens.

Stoliar e Oliveira foram para a Venezuela para gravar uma série sobre as denúncias de corrupção que envolvem financiamentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que favorecia construtoras brasileiras, em especial a Odebrecht, para obras no Brasil e na América Latina.

O Notícias da TV apurou que os jornalistas foram mandados às pressas para a Venezuela porque os superiores queriam que a reportagem ficasse pronta o quanto antes. Assim, Stoliar e Oliveira receberam a ordem da direção de ir como turistas para ganhar tempo. Acabaram detidos e tiveram todo o material produzido no país confiscado pelas autoridades venezuelanas. Os equipamentos também foram tomados.

A emissão de permissão para trabalho na Venezuela leva, no máximo, quatro dias úteis. A equipe da Record, apressada, preferiu não esperar.
Em reportagem exibida na segunda-feira no Jornal da Record, a emissora afirmou que seus profissionais sofreram “prisão arbitrária” e “violência que atenta contra a liberdade de expressão”. Em nenhum momento citou que eles não tinham visto para trabalhar no país.

Os repórteres foram presos no sábado (11) por integrantes do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional), fortemente armados. “Eles gritavam: ‘Terroristas de la patria, de la nación'”, contou Stoliar no Jornal da Record. Ficaram detidos durante mais de 30 horas e sofreram tortura psicológica. “Um policial entrava, mandava assinar um documento para que a gente fosse liberado, saía, aí entrava outro policial com outro documento para assinar e outra ordem”, relatou o repórter.

Mesmo depois de liberados, Stoliar e Oliveira foram escoltados o tempo todo pela polícia venezuelana. Transferidos para Caracas, não tinham permissão para deixar o hotel, o que o repórter brasileiro definiu como cárcere privado. Só foram autorizados a deixar o país na noite de domingo.

Na reportagem do Jornal da Record, o ministro das Relações Exteriores, José Serra, declarou que a forma com que os jornalistas foram tratados não era justificável: “Mesmo que tivesse um problema de visto, você não usa o instrumento da prisão, da hostilidade, tratando-os como se fossem meia dúzia de terroristas ou coisa do gênero. Isso faz parte do regime de arbítrio que hoje vive a Venezuela, infelizmente”, disse.

A Record não comentou o fato de seus jornalistas estarem sem visto de trabalho. Sobre o assunto, a emissora se limitou a emitir, na segunda-feira, a seguinte nota oficial:

“A RecordTV informa que os jornalistas Leandro Stoliar e Gilson de Oliveira já estão no Brasil. Os dois trabalhavam na Venezuela numa investigação que está em curso em toda a América Latina sobre investimentos do BNDES em obras de empreiteiras brasileiras no exterior.

Depois de quase 36 horas sob custódia de policiais e militares do SEBIN, Serviço Bolivariano de Inteligência da Venezuela, que confiscaram equipamentos, câmera, computador e celulares de nossos profissionais.

A RecordTV repudia de forma veemente este tipo de violência que atenta contra a liberdade de expressão e tenta controlar o acesso à informação. Estratégia de regimes que desprezam a democracia e os direitos humanos.

A RecordTV agradece o apoio das autoridades brasileiras, de diplomatas, de advogados e representantes de entidades dos direitos humanos, como a Transparência Venezuela, e do Sindicato dos Jornalistas Venezuelanos, que buscaram resguardar a segurança e os direitos dos jornalistas presos ilegalmente. Esperamos a mesma mobilização no sentido de recuperar os equipamentos e objetos pessoais que foram confiscados sem explicação.

De qualquer maneira, a investigação conduzida em vários países sobre os desvios em obras internacionais financiadas com recursos do BNDES prosseguirá, e as reportagens serão exibidas, em breve, numa série especial no Jornal da Record.”

Luciano Guaraldo
No Desacato

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