5 de fev de 2017

Pelo telefone

Quando a turma se reunia no bar, e a conversa esquentava, e as bolachas de chope começavam a se multiplicar sobre a mesa, era comum alguém ser lembrado – alguém que prometera ir ao bar e não aparecera, alguém do passado comum de todos que ninguém mais vira – e em seguida tentarem localizá-lo pelo telefone celular. “Liga para esse vagabundo”, eram as palavras de ordem, e depois todos se revezavam no telefone, xingando o ausente, intimando-o a aparecer, imitando voz de mulher e dizendo “Adivinha quem é?”, ou fazendo ruídos de bichos.

Uma vez foram, literalmente, longe demais. Alguém na mesa perguntou “Que fim levou o Dado?” e passaram a catar o Dado com o celular. Primeiro, ligando para um número antigo dele, depois localizando uma irmã dele através de uma moça do serviço de assistência ao assinante miraculosamente eficiente, depois chegando ao celular do próprio Dado, que fazia um curso de informática em Grenoble, na França, e atendeu o chamado apavorado.

– Que foi? Que foi? 

– Seu veado! Onde é que você anda?

– É a mamãe, é? Mamãe está bem?

– Que mamãe? Aqui é o Jander.

– Quem?!

– O Jander. Já esqueceu dos amigos, é?

– Jander, você sabe que horas são aqui? Eu estava dormindo!

– Epa. Aí não é mais cedo?

Jander ouviu cinco minutos de desaforo antes de desligar o celular e dizer, magoado: “Como as pessoas mudam, né?”. Depois souberam que o Dado ficara tão nervoso com o telefonema no meio da noite que abandonara o curso de informática, abandonara a França, voltara para junto da dona Djalmira, sua mãe, e estava trabalhando no armarinho da família. O telefonema mudara a sua vida por completo.

Outra vez, um da turma chegou com o que dizia ser o telefone particular do Trump. Conseguira pela internet, não entrou em detalhes. A ideia era ligarem para a Casa Branca e quando o Trump atendesse, fazerem ruídos de pum. Cada um um ruído diferente, pois há puns em vários estilos. Seria o comentário da mesa sobre a política do Trump. Mas aí alguém lembrou que os americanos provavelmente rastreavam todas as chamadas para a Casa Branca, poderiam localizá-los, por satélite, em poucos minutos, e mandarem um drone destruir o bar. O plano foi abandonado.

Os três se reuniram para um almoço e deixaram ordens para suas respectivas secretárias os chamarem pelo celular, durante a reunião. O primeiro a atender seu celular disse: “Sim, presidente. Vá em frente”, depois explicou aos outros que o Temer não fazia nada sem consultá-lo. O segundo atendeu seu celular e disse: “Chico, meu caro!”, depois explicou para os outros que era o papa. O terceiro atendeu seu celular e disse: “Minha querida, que prazer”, depois explicou que era a Patrícia Pillar, deixando os outros arrasados.

Luís Fernando Veríssimo

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