6 de fev de 2017

Os médicos brasileiros e a morte da ex-primeira-dama


Não tem sido raro ver médicos se divertindo ou fazendo piadas sádicas às custas da doença e morte de Dona Marisa. Algumas destas abominações vazaram para as redes sociais. Pra quem usa branco, não é preciso ir muito longe para ouvir piadinhas de mau gosto sobre o caso, contadas por algum colega – (antes que alguém faça graça: não, eu não uso branco. Psiquiatras usam roupas comuns, exceto em situações excepcionais).

A minha classe, por dever de ofício, deveria ter, no mínimo, algum pudor quanto a gozar sadicamente com o sofrimento e a morte de outro ser humano. A profissão médica envolve compromissos sérios. Não gosto de dizer o óbvio (Brecht dizia durante o nazismo: que tempos são esses em que é preciso dizer o óbvio?), mas o juramento de Hipócrates compromete o médico com a defesa e o respeito à vida, em sua acepção mais ampla. Sem distinção de pessoas. Falo de princípios básicos de humanismo e respeito ao sofrimento humano. De algo chamado ética médica, que estudamos em deontologia e diceologia, lá pelo 4 ano do curso de medicina. Lembram-se?

Vergonha

Porém, de novo, alguns colegas conseguem superar-se em sua desumanidade – ultrapassando de longe o comportamento abjeto de manipular pacientes em consultas para votar contra o PT (lembrem-se de 2014) ou de recusar-se a atender “petistas”. Mais uma vez, uma parcela de minha classe me enche de vergonha. Sinto algum alívio por saber que existem respeitáveis exceções. Felizmente, com muitas delas tive e tenho o prazer de compartilhar meu percurso profissional.

Há alívio, sim, mas permanece o choque de perceber que muitos médicos brasileiros estão agindo como monstros morais. Muitos deles são jovens recém-formados. Acham que sua adesão à militância de direita antipetista justifica qualquer tipo de atrocidade, mesmo ética ou profissional, para tripudiar sobre o suposto inimigo.

Corporativismo

De repente, me ocorreu que, nos primeiros anos de ascensão do nazismo, o maior número de militantes do partido nacional socialista era composto por médicos. Que contribuíram decisivamente na elaboração das teorias de superioridade racial ariana – (principalmente psiquiatras, para não dizerem que estou sendo corporativo dentro do corporativismo). É a triste sina histórica da Medicina, fruto do oportunismo político e, sobretudo, da origem de classe da maior parte dos seus membros. Ao longo da história, a Medicina é uma profissão para os filhos da elite. É uma ciência, um conhecimento, um saber, uma arte, mas é também uma marca de distinção social e poder.

E não podemos nos esquecer que estamos no Brasil. O país onde seu coronel mandava o filho estudar Medicina (ou Direito) em Coimbra ou Montpellier, para voltar como doutor e somar credibilidade intelectual ao poder político do dono do grande latifúndio.

Médicos elitistas

Num país com o nível de desigualdade social e cultural como o nosso, o peso da distinção social conferido pela formação médica é ainda maior. Estudantes de Medicina de classe média baixa, rapidamente, incorporam valores conservadores, argentários e consumistas durante sua formação. Valores identificados como padrões característicos da elite brasileira. O compromisso ético e humanitário fica em segundo plano.

Não podemos nos esquecer que, entre outros crimes, os governos petistas mexeram nesse vespeiro. Pela primeira vez, em 31 anos de profissão, vi negros e pessoas de origem social humilde cursando graduação, residência e pós-graduação em medicina. Por razões evidentes, isto é imperdoável.

Pântano do fascismo

Apesar desta reflexão, uma pergunta fica ecoando em meus ouvidos. É possível entender um médico assumir posições conservadoras, na defesa de seus valores corporativos e meritocráticos? É possível entender um médico desumanizar-se por colocar o ganho financeiro como seu único valor? É possível compreender um médico jovem se identificar com os valores da elite, para perseguir sua sonhada ascensão sócio-econômica?

Mas eu não consigo entender como um médico pode, conscientemente, fazer chacota e festejar publicamente a morte dolorosa de uma mulher de 66 anos. Aí saímos do terreno da sociologia das profissões e entramos no perigoso pântano do horror fascista.

Este é o meu maior temor.

Manoel Olavo Teixeira é médico.
No Correio do Brasil

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