12 de fev de 2017

O prefeito marqueteiro e o jornalismo merchandising


Chamou-me a atenção o uso do advérbio de exclusão “apenas” na manchete da Folha on line a respeito da pesquisa de aprovação do prefeito de São Paulo – João Doria. Seu uso denota uma opção do autor, um destaque que o jornalismo isento deveria evitar e que em análise de dados estatísticos já entrou no campo da opinião.

“Apenas 13% reprovam gestão de prefeito; aprovação cai nas classes mais baixas de SP”.

No impresso, a manchete é mais comedida, mas não menos laudatória: “Paulistano aprova Doria em seus principais programas.

Atenção para esse “principais programas”, comentaremos logo abaixo, mas é chave para entender como pesquisa foi feita.

A pesquisa é extemporânea e o porquê está no próprio texto da matéria:

“O levantamento atual não permite comparações com prefeitos anteriores, já que pesquisas de avaliação nos últimos mandatos foram feitas somente após os cem primeiros dias de gestão”.

Ora, se é a própria Folha reconhece que a pesquisa é prematura, por que foi executada? E que mereça um editorial que nada acrescenta à matéria requer uma explicação que vá além da lógica da relevância da informação.

A resposta, porém, também está na matéria. Na análise de Eduardo Scolese:

“O mandato é de quatro anos, portanto comemorar um mês de sucesso de crítica seria prematuro. Por isso, Doria corre. Ele sabe que a tarifa de ônibus congelada e a paciência do paulistano não são eternos”.

Uma boa ação de marketing tem o seu momento adequado. Doria e a Folha sabem disso. Essa é a razão da pesquisa agora.

Vejamos os assuntos tratados na pesquisa:

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Grafites e pichações, aumento da velocidade nas marginais, Corujão da Saúde e Cidade Linda.

Grafites e pichações são culturalmente importantes, mas irrelevâncias para a administração de uma cidade como São Paulo e, mesmo assim, já demonstraram que a sanha marqueteira de Dória o leva a cometer erros – apagar os grafites, por exemplo.

O aumento da velocidade já é dado como certo que trará aumento de acidentes, mas até agora, ainda não há dados para serem avaliados.

O Corujão da Saúde – reservar as madrugadas, quando os ricos dormem, para os pobres realizarem exames médicos – e o Cidade Linda necessitam de tempo para mostrarem se realmente são viáveis. Mas, neste instante, são um belo showroom – somente para ficarmos no campo do marketing. Aliás, o Cidade Linda não tem sido mais do que pretexto para Doria apresentar-se fantasiado. Aguardemos o que restará dele, depois do Carnaval.

Havia outros temas a serem tratados pela pesquisa. Saber o que os paulistanos acham deles.

Para a educação, as propostas de Doria que aos poucos vão sendo implantadas sem alarde são:

Reduzir a distribuição de leite aos alunos da creche ao 9º ano, o transporte gratuito dos alunos e a distribuição de material escolar.

E claro, o aumento disfarçado da tarifa de ônibus.

Doria mantém a tarifa básica, mas aumenta todas as outras formas de cobrança nos “bilhetes únicos”. Malandragem alckmista que está, por enquanto, impedida pela Justiça.

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Além da tentativa de demissão dos cobradores. E do aumento das passagens para quem pagar em dinheiro, se os cobradores não puderem ser demitidos.

Assuntos de impacto direto na vida dos paulistanos de baixa renda, mas que, embora o Datafolha não tenha liberado os dados brutos da pesquisa, pelo que foi publicado, creio que não foram tratados.

Motivo óbvios – não vinham ao caso.

Existem várias maneiras de se mentir com a estatística de uma pesquisa. Uma delas é perguntar aquilo que já se sabe a resposta e deixar de perguntar o que não interessa saber.

Pode ser marketing, mas não é jornalismo.

Quanto à comparação entre Doria e Haddad, a Folha tem o cuidado de pontuar que a primeira pesquisa com o ex-prefeito foi feita após os 100 dias de “lua de mel”, mas destaca que, então, Haddad tinha “apenas” 31% de aprovação contra os 44% de Dória, hoje, com 40 dias de governo.

Para que citar, se não são comparáveis?

“It’s the marketing, stupid”.

O que a Folha não diz é que a reprovação de Haddad, então, era de “apenas” 14%. Os mesmos 13% de Doria, hoje.

Mas manchete em abril de 2013 era:

“49% avaliam que Haddad fez menos do que o esperado”

Os outros 51% – a maioria – era o dado que não interessava.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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